A Apple vendeu milhões de iPads prometendo que eles substituiriam os computadores para criativos— e durante anos, os profissionais de design tiveram que se conformar com soluções fragmentadas. Para esboçar, usavam um app; para editar fotos, outro; para diagramar, um terceiro. O iPad era uma máquina de criar, mas não uma estação de trabalho completa.
Isso muda em 3 de novembro. A Affinity, adquirida pela Canva em 2024, lança na próxima semana a versão para iPad do seu novo Studio Criativo Affinity— um aplicativo tudo-em-um que reúce edição de foto, design vetorial e diagramação em uma única interface, com suporte nativo à Apple Pencil e sem custo algum. Não é uma versão reduzida. Não é um companion app. É o mesmo motor de renderização, os mesmos arquivos .af, a mesma performance que já conquistou profissionais no desktop.
Do pago ao gratuito: a estratégia da Canva
A Affinity era conhecida por um modelo de negócios que soava como um gritante contrassenso para o setor de software profissional: aplicativos separados (Photo, Designer, Publisher) a US$ 70 cada, compra única, sem assinatura. Era a antítese do Creative Cloud da Adobe— e por anos, foi a alternativa preferida de quem se sentia sufocado por um aluguel mensal de US$ 54,50 (cerca de R$ 280, com a cotação atual).
Mas quando a Canva comprou a Serif (empresa-mãe da Affinity) em março de 2024, ninguém esperava que o novo produto seria gratuito. A decisão de tornar o Affinity completamente gratuito foi anunciada em outubro de 2025 para desktop (Windows e macOS), e agora o iPad é a última peça do quebra-cabeça.
"Pensamos por muito tempo que ferramentas de design profissionais tinham que vir com um preço pesado", disse a Affinity em sua nota de lançamento. "Hoje estamos levando isso ainda mais longe. O Affinity é agora completamente gratuito, para sempre. Sem pegadinhas, sem versão reduzida."
O truque? A Affinity agora exige uma conta Canva para ativação— mas a conta básica é gratuita. As ferramentas de IA avançadas, no entanto, ficam retidas no Canva Pro (US$ 15/mês), criando um funil de monetização que a Adobe já domina: o core do produto é de graça, mas quem quer velocidade extra com IA paga a mais.
Por que o iPad é o palco certo
O argumento da Affinity para o iPad não é fraco. O iPad Pro, com o chip M4 e a Apple Pencil Pro, já é uma máquina de desenho reconhecida por profissionais. Artistas digitais, ilustradores e designers gráficos usam tablets de pressão— Wacom, Huion— conectados a iPads, e a Apple Pencil já oferece sensibilidade à pressão, inclinação e rotação.
A Affinity para iPad não é um port simplificado. Segundo a descrição na App Store: "Não é apenas um companheiro cortado, é uma experiência criativa completa construída para toque. Crie arte com curvas reais, nós precisos e tipografia que permanece nítida até a impressão. Trabalhe com milhares de camadas totalmente editáveis, siga cada tangente e mude de ideia quando quiser."
O que isso significa na prática: você esboça uma ideia no iPad com a Apple Pencil, desenvolve arquivos RAW no estúdio Pixel, edita vetores nó por nó no estúdio Vector, monta layouts profissionais no estúdio Layout e exporta para impressão— tudo no mesmo arquivo. Sem exportações intermediárias, sem conversão de formatos, sem abrir e fechar três aplicativos diferentes.
O que isso significa para a Adobe
A estratégia da Canva com o Affinity é clara: atacar o Adobe Creative Cloud por onde ele é mais vulnerável— o preço. Com o Affinity gratuito, a Canva oferece a uma parcela enorme de designers independentes, freelancers e pequenas agências uma alternativa que não exige assinatura mensal. O Creative Cloud custa US$ 54,50/mês para o plano completo (Photoshop, Illustrator, InDesign). O Affinity custa zero.
A Fast Company observou que o novo Affinity tem "um conjunto de recursos comparável ao dos aplicativos da Adobe"— e não é à toa. Os apps originais da Affinity (Photo, Designer, Publisher) foram construídos para serem rivais diretos do Photoshop, Illustrator e InDesign, respectivamente. Quando a Canva unificou tudo em um único app, manteve a base de código profissional.
O risco para a Adobe não é perder toda a sua base de clientes para o Affinity— os grandes estúdios e agências já estão presos ao ecossistema Adobe por integrações, workflows estabelecidos e treinamento de equipes. Mas o Affinity ataca exatamente o público que a Adobe mais deseja: designers independentes e freelancers que ainda não assinaram o Creative Cloud ou que sentem que pagam caro demais por ele.
O lado sombrio: o preço da liberdade
O "gratuito para sempre" da Affinity não é isento de ressalvas. Primeiro, a exigência de uma conta Canva para ativação significa que todo usuário cria um perfil de dados para a Canva— o que já é um negócio de coleta massiva de dados de usuários gratuitos. Segundo, as ferramentas de IA avançadas ficam retidas no Canva Pro, o que significa que o produto gratuito, apesar de completo, não terá alguns dos recursos que se tornaram padrão em concorrentes: generative fill, expansão inteligente de imagens, remoção de fundo por IA.
Além disso, os arquivos do novo Affinity (extensão .af) não são compatíveis com os apps V2 (Photo, Designer, Publisher) que rodam no iPad— o que significa que usuários que migraram para o novo Affinity no desktop não poderão abrir seus arquivos no iPad com a versão antiga. A Affinity recomenda continuar usando os V2 no iPad até que o novo app seja lançado— mas isso cria uma fragmentação de workflows.
O veredito
A Affinity para iPad chega no dia 3 de novembro, já disponível para "pré-reserva" na App Store. Se o que foi entregue no desktop for qualquer indicativo, os profissionais de design que não queriam ou não podiam pagar pelo Creative Cloud agora têm uma alternativa real— e a Apple tem mais um argumento para convencer criativos a investirem em iPads.
A pergunta que fica: será que a Adobe conseguirá manter profissionais de design pagando US$ 54,50/mês quando a concorrência oferece exatamente o mesmo nível de poder profissional— sem assinatura, sem pegadinhas— e ainda tem um app otimizado para o dispositivo mais portátil de todos?
Fontes: The Verge, Fast Company, PetaPixel
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