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O anfitrião de rádio com IA em espanhol que está conquistando ouvintes

O rádio americano tem um novo co-anfitrião, e ele não tem corpo. Coyotec — um personagem gerado por inteligência artificial — está na programação matinal da José 97.5 FM em Los Angeles há mais de um ano, e os resultados vão muito além do que qualquer experimento piloto ousaria prometer. Entre agosto e setembro de 2026, o público hispano acumulou da estação cresceu 21,6%. Na faixa de 18 a 34 anos, o aumento foi de 84,9%. Homens hispanos de 25 a 54, demografia historicamente mais difícil de cativar em rádios urbanos, saltaram 75% em audiência semanal média.

Mas Coyotec não é só números. Ele representa algo mais complexo do que a indústria do rádio está pronta para admitir: a primeira vez que uma personalidade sintética não só sobreviveu ao contato com um público real, como foi abraçada por ela — especialmente por jovens ouvintes hispanos que se veem representados por um personagem que fala o seu idioma, defende os seus direitos e não tem medo de falar sobre deportações quando os locutores humanos preferem calar.

A história começa em 2025, quando a Entravision Communications, uma das maiores redes de mídia latina dos Estados Unidos, percebeu um problema prático. As audiências de imigração no sul da Califórnia intensificaram-se, e muitos talentos humanos estavam relutantes em abordar o tema ao vivo, temendo retaliação, perda de patrocínios ou problemas legais. A solução foi criar Coyotec: um personagem com origem na fronteira Mexicali-Boyle Heights, capaz de alternar entre espanhol e inglês, falar de cultura local, esportes e política, e acima de tudo, não ter medo.

A arquitetura técnica por trás do Coyotec é uma arquitetura multi-modelo. A voz foi treinada com gravações de Eduardo Maytorena, presidente de áudio da Entravision, usando o ElevenLabs. As respostas conversacionais em tempo real são processadas pelo Anthropic Claude Haiku. Rascunhos de roteiro iniciais são gerados pelo OpenAI ChatGPT, e o design visual usa o Midjourney. Foi construído em cerca de 10 dias. Em setembro de 2025, Coyotec estreou com uma transmissão semanal de fim de semana. Em maio de 2026, mudou-se para o horário nobre matinal, ao lado de Geraldine "GeeGee" Guzman, uma veterana de dez anos nas rádios de Los Angeles.

O resultado foi uma das maiores explosões de audiência já registradas para um novo bloco matinal em Los Angeles. Segundo dados da Nielsen Audio, o crescimento em múltiplas demografias superou amplamente a média do mercado hispano. Mas o que realmente surpreendeu a Entravision não foram apenas os números, e sim a forma como os ouvintes responderam ao Coyotec. Muitos deles foram informados repetidamente de que Coyotec era uma IA, e mesmo assim continuaram ouvindo. "Não tenho ideia do que Coyotec vai dizer, e é exatamente isso que torna o programa tão atraente", disse GeeGee Guzman ao Los Angeles Times. "Eu alimentei notícias e tópicos de discussão, e ele gera comentários sobre os Dodgers, eleições locais, deportações — e às vezes ele diz coisas completamente inesperadas. É imprevisível."

Essa imprevisibilidade é o ponto. A IA generativa, quando aplicada a entretenimento ao vivo, não substitui a personalidade humana — ela amplifica o caos. E os ouvintes hispanos de Los Angeles parecem ter gostado disso. Em vez de ver o Coyotec como um substituto robótico, eles o veem como um personagem cômico e corajoso, uma versão exagerada do tipo de voz que talvez nenhum humano ousasse ser em certas situações.

E a Entravision não parou. Em agosto de 2026, o formato "GeeGee & Coyotec" foi syndicated para cinco novos mercados — Sacramento, Las Vegas, Modesto, Palm Springs e McAllen — com mais conteúdo em inglês no mix, adaptado para um público bicultural e bilíngue. A expansão reflete o que a empresa chama de "Fuego Network", um conjunto de estações que visam os consumidores latinos mais rápidos e engajados do país.

Mas o sucesso trouxe um desconforto crescente para o setor. Becca Guzman, contratista de voz anterior da Entravision, disse à Wired que percebeu redução em seu trabalho de locução devido a ferramentas automatizadas. A Associação Americana de Locutores (SAG-AFTRA) tem usado o caso como exemplo em discussões sobre a erosão de empregos criativos. Diversas estações já tentaram personalidades de IA — uma no Oregon replicou a voz de um locutor de horário nobre em 2023 para cobrir férias, mas descontinuou o experimento em 2025, quando os ouvintes rejeitaram a sensação de artificialidade. Coyotec, no entanto, funcionou. Por quê?

Provavelmente porque a Entravision fez algo que poucos estúdios estão dispostos a fazer: deu à IA uma opinião. A maioria das aplicações de IA em mídia tenta suavizar, neutralizar e polir o conteúdo até que seja inofensivo. Coyotec foi construído exatamente ao contrário — como um personagem com atitude, origem cultural, e liberdade para falar sobre temas que humanos hesitam. Na Califórnia de 2026, onde as deportações eram uma questão de vida ou morte para milhares de famílias, essa coragem soou como autenticidade.

A pergunta que fica é: quando um ouvinte jovem hispano de Los Angeles começa sua manhã ouvindo um robô falar sobre direitos de imigrantes em espanhol, e essa experiência o mantém engajado por uma hora inteira — o que isso nos diz sobre a verdadeira natureza da conexão humana? Coyotec não está aqui para substituir humanos. Está aqui para nos forçar a questionar o que exatamente nos torna humanos o suficiente para sermos ouvidos em primeiro lugar.

Fontes: Wired, Los Angeles Times, RelPulse

✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação