← Home

Anthropic apresenta S-1 na Nasdaq sob ticker ANT: US$ 80 bi de prejuízo e receita que triplicou

Anthropic dá o passo: S-1 na bolsa com ticker ANT, 80 bilhões de prejuízo e receitas que triplicaram

Anthropic, PBC, a empresa por trás do modelo Claude, fez na segunda-feira (26) o que todos esperavam há meses: apresentou formalmente seu formulário S-1 à Securities and Exchange Commission (SEC), dando início ao processo público de oferta inicial de ações. A empresa listará suas ações ordinárias da classe A no Nasdaq Global Select Market sob o símbolo "ANT". O número de ações a ser ofertado e a faixa de preço ainda não foram determinados.

A notícia, publicada no próprio site da Anthropic em uma nota oficial, não traz novidades surpreendentes — a empresa já havia submetido confidencialmente um rascunho do S-1 em 1° de junho e o mercado já tinha meses para se preparar. O que o S-1 revelado pela imprensa nos últimos meses, entretanto, sim, surpreende: a dimensão dos custos e da aposta na infraestrutura.

O que o S-1 mostra: números que desafiam o senso comum

Segundo a versão preliminar do prospectus, revisitada pelo RuntimeWire e depois confirmada pelo Financial Times, a Reuters e a Bloomberg, a Anthropic registrou uma receita de 16,3 bilhões de dólares no primeiro semestre de 2026 — um salto em relação aos 4,6 bilhões faturados em todo o ano de 2025. No mesmo período, o prejuízo líquido alcançou 80,7 bilhões de dólares. Uma revelação adicional do S-1, reportada pelo RuntimeWire, mostra que entre 5% e 7% da receita acumulada até setembro de 2026 veio de clientes que violavam as regras de uso ou termos comerciais da empresa — uma consequência indireta da explosão de clientes em um mercado que a Anthropic ainda não conseguiu dimensionar adequadamente.

A magnitude do prejuízo assusta, mas a maior parte reflete um ajuste contábil relacionado a investimentos em ativos de longo prazo em inteligência artificial, e não a perdas operacionais no sentido tradicional. Mesmo assim, a cifra é um alerta sobre o custo financeiro de treinar e escalar modelos de fronteira.

No terceiro trimestre, a receita sozinha chegou a 16,8 bilhões de dólares, um salto de 45% em relação ao trimestre anterior. No segundo trimestre, o número já havia sido de 11,6 bilhões. A receita anualizada, segundo estimativas da Bloomberg, deve ultrapassar os 100 bilhões de dólares em 2026.

O gasto em computação: US$ 750 bilhões em contratos de nuvem

Um dos aspectos mais discutidos do prospectus é a projeção de custos de infraestrutura. A Anthropic sinalizou que pode gastar mais de 750 bilhões de dólares nos próximos anos em capacidade de computação, incluindo contratos que ainda estão em negociação. Isso não é um número mágico fixo — é a própria empresa admitindo que não sabe quantos bilhões precisarão ser alocados para manter a competitividade.

A Reuters reportou que, segundo o prospectus, a Anthropic pode investir esse montante em contratos com provedores de nuvem — AWS, Google Cloud, Microsoft Azure — além de acordos com operadores de data centers de terceiros. O Financial Times detalhou que a empresa também está construindo seus próprios data centers, em parceria com a SpaceX: o contrato de Colossus I e II, custeado pela SpaceX, exige pagamentos de 1,25 bilhão de dólares por mês até maio de 2029, totalizando 15 bilhões ao ano.

O TechCrunch reportou que as parcerias de nuvem estão ficando cada vez mais tensas. Com a Anthropic crescendo a essa velocidade, os próprios provedores de nuvem começam a ver a empresa não como cliente, mas como concorrente em potenciais serviços de IA. A empresa também teme que operadores de data centers de terceiros tenham "histórico de operação limitado", o que os tornaria menos confiáveis que os hyperscalers.

Concentração de clientes e risco de dependência

Um ponto que o S-1 destaca com a devida transparência exigida pela SEC é a concentração de clientes. Segundo o WSJ, apenas dois clientes representam cerca de um quinto das vendas. Ou seja, a Anthropic ainda depende de poucos grandes compradores para gerar receita — um risco que investidores públicos precisam considerar.

A Reuters também reportou que alguns investidores atuais foram desapontados com a desaceleração do crescimento sequencial no último trimestre. A receita mais que dobrou do primeiro para o segundo trimestre, mas o ritmo de 45% no terceiro trimestre foi menor que o ritmo anterior. Para um mercado acostumado com crescentes exponenciais, isso soa como abrandamento.

O debate de segurança e governança

Enquanto a bolsa se prepara para receber a Anthropic, não falta debate externo. O comissário de Nova York, Mark Levine, escreveu ao CEO Dario Amodei pedindo que a empresa pause o IPO até resolver questões de segurança de IA, governança e o ritmo de desenvolvimento. A carta levanta uma questão que vai além da Anthropic: até que ponto um mercado de capitais tradicional pode avaliar riscos de sistemas que ainda não estão totalmente compreendidos?

O prospectus também inclui advertências próprias da empresa sobre riscos "catastróficos" associados ao desenvolvimento de IA — um elemento raro em ofertas públicas e que levanta a questão: como uma companhia pode vender suas ações ao público quando ela mesma admite que seus próprios produtos podem representar ameaças existenciais?

O que esperar agora

Segundo relatos da IFR (Investor Feed Report), a Anthropic planeja tornar o S-1 público já nesta semana, com um roadshow de investidores durante a semana de 9 de novembro e um IPO visado para meados de novembro. A faixa de preço, o número de ações e a valorização final ainda não foram definidos. Relatórios anteriores indicavam um alvo de valorização de até 2 trilhões de dólares, embora alguns investidores estejam abaixando suas expectativas para cerca de 1,5 trilhão.

A Anthropic será a primeira "frontier AI lab" a se tornar uma empresa pública. Ao lado da OpenAI, que também apresentou rascunho de S-1 em 8 de junho, a Anthropic está moldando o que significa uma IPO de uma empresa de inteligência artificial. A pergunta que fica: será que a bolsa está preparada para investir em uma empresa cujo risco pode ser existencial?

Fontes: RuntimeWire, CNBC, TechCrunch

✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação