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Apple demite mais de 200 pessoas nas equipes do Vision Pro e Siri

A Apple está realizando um dos maiores ajustes organizacionais de sua história recente. Segundo reportagem da Bloomberg, a empresa cortou mais de 200 vagas em três frentes distintas: o grupo do Vision Pro, a equipe da Siri e o departamento de software inteligente. O movimento, que afeta aproximadamente 100 colaboradores de cada bloco, sinaliza um realinhamento estratégico profundo — a empresa está se afastando de investimentos de alto risco em realidade imersiva para concentrar recursos em óculos de realidade aumentada mais simples e no reposicionamento da Siri como plataforma de inteligência artificial.

O impacto no Vision Pro é especialmente revelador. Aproximadamente 100 funcionários do Vision Products Group foram demitidos, com a empresa "basicamente descontinuando" a equipe focada em jogos para o headset. A Apple também está reduzindo o grupo responsável pela produção de vídeos imersivos para o Vision Pro. Segundo a Bloomberg, cada vídeo imersivo produzido pela Apple pode custar milhões de dólares para ser gravado — o que inclui múltiplas equipes de empregados e contratistas — e o número de pessoas que realmente utilizam esses conteúdos é diminuto. A empresa informou aos funcionários que ainda produzirá "um número menor de vídeos internamente" e passará a incentivar desenvolvedores terceiros a criar conteúdos imersivos, transferindo o risco de produção para fora da Apple.

Os números contam a história completa. Quando o Vision Pro foi lançado em 2024, pela primeira vez com o preço recorde de US$ 3.500 nos Estados Unidos, o mercado reagiu com entusiasmo cauteloso. Analistas previram vendas de 400 mil unidades no primeiro ano — e a Apple acabou vendendo cerca de 250 mil. Em 2025, o número caiu para aproximadamente 150 mil unidades, e as estimativas para 2026 giram em torno de 100 mil. Para comparação, o iPad, linha inteira de produtos da Apple, vendeu mais de 40 milhões de unidades no mesmo período. O Vision Pro é um produto que custava US$ 3.699 no varejo, o que equivale a aproximadamente doze pares dos óculos Meta com câmera, lançados pela concorrência a US$ 299.

A Apple enfatizou que o Vision Pro e o sistema operacional visionOS não estão sendo eliminados. Funcionários foram informados de que um novo modelo do headset está em consideração para lançamento já no final de 2028. No entanto, o produto mais imediato está focado em óculos inteligentes convencionais, que não suportarão jogos imersivos em 3D nem vídeos imersivos — uma mudança clara na ambição tecnológica da empresa para os próximos três anos.

Do outro lado do espectro, o desfecho na equipe da Siri segue lógica diferente mas igualmente significativa. A Siri AI, plataforma que a Apple vem desenvolvendo como centro de sua estratégia de inteligência artificial, está sendo reconstruída sobre uma arquitetura técnica completamente nova. Essa mudança de arquitetura exige "especialidades necessárias" diferentes das que a equipe tradicional possuí, o que levou a Apple a eliminar algumas posições existentes, realocar recursos e criar novas funções voltadas para a Siri atualizada.

A "Intelligent Systems Experience team", grupo responsável por capacidades de inteligência artificial no ecossistema Apple, também foi impactado. A reestruturação reflete um esforço mais amplo da empresa de centralizar o trabalho com capacidades baseadas em IA. À medida que mais equipes passam a trazer funções inteligentes para aplicativos, recursos e serviços próprios da Apple, a empresa está realinhando seus grupos para acompanhar as prioridades e acelerar o desenvolvimento.

O contexto financeiro da Apple ajuda a entender a urgência desses cortes. A empresa enfrenta uma disputa regulatória na Europa sobre taxas da App Store, e o acordo potencial com a Comissão Europeia exigiria que a Apple aceitasse pagamentos de terceiros no iOS — o que reduziria significativamente a comissão que a empresa cobra de desenvolvedores. Nesse contexto, cortar custos operacionais em produtos de baixo desempenho como o Vision Pro é uma medida de proteção do fluxo de caixa.

Além disso, a Apple já havia anunciado anteriormente demissões de cerca de 60 funcionários do Vision Pro, conforme reportado no início da semana, o que indica que o ajuste atual é parte de um processo mais amplo e contínuo. Os cortes de hoje elevam o total a mais de 200 posições eliminadas.

Para os funcionários afetados, a Apple afirmou que eles poderão se candidatar a outras posições dentro da empresa. "Embora criemos novos cargos como parte desta mudança, também afetaremos um número limitado de funções existentes. Somos gratos a esses membros da equipe pelas contribuições e nos comprometemos a apoiá-los durante a transição", disse um porta-voz da empresa em comunicado.

A mudança é particularmente simbólica porque reflete um momento decisivo para a computação espacial. A Apple apostou pesado em realidade virtual como o futuro da computação pessoal, mas o mercado não acompanhou as expectativas. Enquanto a Meta, com os Ray-Ban Meta Glasses, construiu um ecossistema prático de óculos de IA acessíveis, a Apple mantém-se fiel à visão de um headset volumoso e caríssimo — por enquanto.

O que permanece em jogo é se a Apple conseguir reequilibrar sua aposta em realidade aumentada sem comprometer a inovação que originalmente a diferenciou no mercado. A transição dos óculos inteligentes para um headset de realidade mista pode demorar mais tempo do que a empresa imaginava, e os próximos 12 meses serão decisivos para entender se a estratégia de "óculos primeiro, headset depois" é a correta — ou se a Apple simplesmente subestimou o quão longe a concorrência europeia já havia chegado em termos de adoção de massa.

Fontes: 9to5Mac, MacRumors, The Next Web, AppleInsider

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