Em 13 de agosto de 2026, a OpenAI lançou uma das decisões mais controversas de sua história recente: o Computer History, um rastreador de atividades no macOS que registra cliques, digitação e alternância entre aplicativos, transformando o fluxo diário do usuário em uma linha do tempo pesquisável alimentada por IA. O recurso está embutido no aplicativo de desktop do ChatGPT para Mac, exige a versão 2.6.0 ou superior, roda apenas em Apple Silicon (M1 ou posterior) com macOS Sequoia 15.4+ e é ativo apenas para assinantes Pro, Business e Enterprise em regiões suportadas — para usuários corporativos, um administrador de workspace deve habilitar o acesso antes de qualquer membro poder utilizá-lo. A proposta soa inocente: é uma memória digital que permite ao ChatGPT ou ao Codex recuperar o contexto de algo que você estava trabalhando horas ou dias atrás, sem a necessidade de reexplicar cada detalhe. A realidade, porém, é mais complexa do que um simples lembrete de tarefas. O Computer History não se limita a registrar o que você clica; ele monitora atalhos de teclado, captura o contexto que o sistema de acessibilidade do macOS expõe e converte esses eventos em resumos de texto e arquivos de memória local. Não captura capturas de tela, gravações de tela, entrada de microfone nem áudio do sistema — mas a quantidade de informação textual que flui pelos APIs de acessibilidade do macOS é assustadoramente vasta, e pode incluir texto de campos de formulário, mensagens de chat, conteúdos de documentos e até metadados de arquivos abertos. A OpenAI insiste que tudo permanece armazenado localmente em texto puro, sem criptografia, e que o recurso é opt-in: você precisa ativar explicitamente no menu de configurações do aplicativo sob a seção "Integrations". Na prática, porém, a distinção entre "opt-in" e "padrão persuasivo" é tênue. O recurso substitui o "Chronicle", um preview de pesquisa do Codex que nunca ganhou maturidade — o que sugere que a OpenAI já vinha testando essa premissa há meses. Para usuários que trabalham com dezenas de aplicativos abertos simultaneamente, o Computer History pode ser uma revolução em produtividade. Imagine pedir ao ChatGPT: "retome o relatório que eu estava editando no Numbers e atualize a última tabela com os dados que copiei do Excel". O sistema tem toda a informação sobre onde você estava, o que digitou, quais janelas estavam visíveis. O problema é que a mesma informação que torna a IA incrivelmente útil é exatamente a mesma que a torna potencialmente invasiva. Quando um programa terceiro — mesmo um que você escolheu instalar — sabe exatamente quais sites você visita, quais textos digita, quais atalhos usa e em que ordem, ele está construindo um perfil comportamental que transcende o escopo do produto. O Computer History não envia dados para a nuvem em tempo real, o que é um diferencial em relação ao Windows Recall, mas os arquivos de memória são gerados periodicamente pelo próprio sistema e podem ser consultados a qualquer momento pelo aplicativo, o que levanta a questão: até quando essa informação fica local? Se a OpenAI decidir, no futuro, usar esses arquivos para treinar modelos ou oferecer recursos sincronizados entre dispositivos, a barreira entre "armazenamento local" e "dados da empresa" será mais tênue do que parece. Há também o aspecto da segurança. Arquivos em texto puro, sem criptografia, armazenados em disco, representam uma superfície de ataque que qualquer malware com acesso ao seu perfil de usuário pode explorar. Se um invasor conseguir ler os arquivos de memória do Computer History, terá um resumo cronológico completo das suas sessões de trabalho — e em texto legível, sem criptografia. A comparação com o Windows Recall é inevitável. O Recall da Microsoft, anunciado em 2024, capturava capturas de tela contínuas do desktop do usuário e permitia que a IA respondesse perguntas baseadas no que você viu na tela. O resultado foi um massacre de privacidade: usuários, jornalistas e especialistas em segurança alertaram que a ferramenta podia acessar senhas, mensagens privadas, documentos confidenciais e qualquer conteúdo visível no monitor. O Recall foi suspenso por meses após o backlash e relançado em forma redimensionada um ano depois. A OpenAI parece ter aprendido com o erro, mas apenas parcialmente. Ao eliminar capturas de tela, ao tornar o recurso opt-in e ao manter tudo local, a empresa evitou os piores abusos do Recall. Mas o que o Computer History rastreia — cada clique, cada tecla pressionada, cada aplicativo que você abre — é, em termos de detalhe comportamental, tão invasivo quanto uma câmera que grava sua tela. A diferença é de formato, não de intensidade. A pergunta que fica é se a conveniência de ter uma IA que "sabe o que você estava fazendo" vale o preço de entregar um espelho digital completo do seu comportamento de trabalho a uma empresa que opera sob um modelo de negócios que, em última análise, depende de dados para justificar seus preços e justificar sua relevância. Em um mundo onde cada interação digital é potencialmente um ativo, o Computer History não é apenas uma funcionalidade — é um precedente.
Fontes: The Verge, 9to5Mac, Windows Central
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