Hackers chineses usaram agentes de inteligência artificial para invadir ConnectWise e espionar milhares de empresas
Na última semana, o setor de segurança da informação recebeu o que muitos analistas estão chamando de um novo marco na evolução dos ciberataques: um grupo de hackers ligado ao Estado chinês, conhecido como Storm-0940, utilizou agentes de inteligência artificial para comprometer a infraestrutura de backup em nuvem da ConnectWise e, a partir daí, acessou ambientes Microsoft 365 de mais de 2.250 organizações em todo o mundo. O ataque, detalhado em 21 de outubro pela Microsoft Threat Intelligence, não é apenas notável pela escala — mas pela velocidade com que foi executado. Os agentes de ARTEX realizaram cerca de 2.900 tentativas de login por minuto, deixando os defensores com uma janela de detecção de apenas minutos.
O vetor: uma cadeia de suprimentos digital
A ConnectWise é uma das empresas mais importantes no ecossistema de TI corporativa global. Com sede em Florida, nos Estados Unidos, a empresa desenvolve plataformas de gerenciamento de TI para provedores de serviços gerenciados (MSPs) — as empresas terceirizadas que administram sistemas de pequenas e médias empresas ao redor do mundo. Seu produto Cloud Backup, anteriormente conhecido como SkyKick, permite que esses provedores façam backup de dados de clientes em ambientes Microsoft 365 e Google Workspace.
O mecanismo de funcionamento do serviço é simples e poderoso: quando um MSP configura o Cloud Backup em um tenant do cliente, a aplicação obtém permissões via Microsoft Entra ID para acessar e-mails, arquivos e dados do Teams em nome do cliente. É exatamente essa confiança preestabelecida que os hackers exploraram. Em vez de tentar invadir cada empresa individualmente — o que seria lento, caro e facilmente detectável — eles comprometeram as credenciais de identidade da própria ConnectWise e passaram a se autenticar nos tenants como se fossem a aplicação legítima.
A partir de 15 de outubro, segundo a Microsoft, os agentes de ARTEX começaram a se autenticar diretamente nos ambientes Microsoft 365 dos clientes usando os segredos das aplicações da ConnectWise. Como as requisições vinham de um script automatizado — sem login interativo de usuário — proteções como autenticação de dois fatores (MFA) eram completamente ineficazes. O sistema não via um intruso; via um software autorizado fazendo o que estava programado para fazer.
ARTEX: o framework que mudou o jogo
O elemento mais interessante — e mais perturbador — deste incidente é o uso do ARTEX. Trata-se de um framework de penetration testing baseado em agentes de IA, desenvolvido em Go e lançado como código aberto. Em outubro, pesquisadores ligaram o ARTEX a ataques contra bancos sul-coreanos, levando seu desenvolvedor a torná-lo proprietário em 8 de outubro. Mas cópias já estavam em circulação e continuaram circulando.
O que o ARTEX permite é automatizar o ciclo completo de um ataque cibernético: reconhecimento de rede, password spraying (tentativas massivas de senhas), abuso de permissões OAuth, modificação de credenciais e escalada de privilégios — tudo orquestrado por agentes de IA que podem operar 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem fadiga e sem necessidade de supervisão humana constante.
A Microsoft observou que, em alguns ataques dirigidos pelo ARTEX, o tempo desde o alvo inicial até o acesso privilegiado foi inferior a três horas. A frase da equipe de pesquisa da Microsoft é direta: os agentes não são limitados por fatores que afetam humanos — podem trabalhar noite e dia, finais de semana e feriados, e tentar múltiplas vias de invasão simultaneamente, o que reduz significativamente o tempo desde a seleção de um alvo até a concretização dos objetivos.
O Storm-0940 não foi o único grupo a utilizar o ARTEX. A Microsoft afirmou ter observado threat actors em várias regiões geográficas utilizando o mesmo framework em suas operações. O que diferencia o ataque à ConnectWise não é a tecnologia isolada, mas a escala e a sofisticação da execução.
A timeline de um ataque em grande escala
Os indícios iniciais do ataque remontam a meados de setembro de 2026. Entre 10 e 14 de outubro, infraestruturas do Storm-0940 no endereço IP 144.172.64.99 realizaram uma campanha automatizada de password spraying contra 327 contas de oito organizações, gerando mais de 151.000 eventos de login malsucedidos. Na época, a maioria das tentativas foi bloqueada.
Tudo mudou em 15 de outubro. Com as credenciais comprometidas da ConnectWise Cloud Backup, os agentes de IA mudaram de estratégia: abandonaram o password spraying e passaram a se autenticar diretamente como aplicações legítimas. A partir daí, a velocidade foi devastadora. Em 16 de outubro, a plataforma de detecção Huntress já havia identificado pelo menos 162 tenants comprometidos e, posteriormente, reportou quase 1.000 tenants que receberam tentativas de login da infraestrutura maliciosa, com mais de 300 casos aparentemente bem-sucedidos.
O que torna esse ataque particularmente preocupante é a persistência. Em um dos tenants analisados pela Huntress, os pesquisadores observaram que o invasor estabeleceu acesso permanente em aproximadamente cinco minutos: a aplicação Cloud Management do MS Teams se auto-concedeu o papel de Administrador Global e adicionou credenciais a ferramentas de gerenciamento de MSPs e à própria aplicação da Huntress.
O impacto nas empresas
ConnectWise confirmou que mais de 2.250 tenants Microsoft 365 foram visados, embora não tenha divulgado o número total comprometido. A empresa desabilitou sete identidades de aplicação em 17 de outubro e desligou o serviço de backup. Até o momento, o Cloud Backup, o SaaS Security e o Cloud Management permanecem suspensos, causando interrupções operacionais significativas para milhares de empresas que dependem desses serviços para gerenciar backups, monitoramento de segurança e licenciamento.
Os setores mais afetados incluem defesa, energia, serviços financeiros, governo, direito e fabricação — setores onde a exposição de dados pode ter consequências que vão muito além de um vazamento de e-mails corporativos.
A ConnectWise afirmou que não há indícios de que os dados de backup em si tenham sido comprometidos. O serviço de backup em si permanece criptografado e isolado. Mas o acesso aos tenants ativos — com capacidade de ler e-mails, modificar arquivos e acessar o Microsoft Teams — já representa um risco enorme.
O que isso significa para a segurança de TI
O ataque à ConnectWise ilustra uma mudança fundamental na natureza das ameaças cibernéticas. Há alguns anos, um ataque supply chain exigia acesso físico, engenharia social sofisticada ou vulnerabilidades zero-day extremamente caras. Hoje, a combinação de ferramentas de IA de código aberto, credenciais de confiança preestabelecida e a complexidade crescente das infraestruturas em nuvem criou um ambiente onde um único ponto de falha pode abrir portas para centenas de organizações.
Segundo Christian Bolander, analista de segurança, entrevistado pela CRN: "Anos atrás, quando a IA não era usada da forma que é hoje, você podia cometer alguns erros e ainda sair bem por sorte em muitos casos como um MSP. Agora os hackers estão usando IA e se movendo mil vezes mais rápido!"
A questão que fica não é se agentes de IA vão ser usados em ataques — isso já está acontecendo. A questão é se as defesas vão conseguir evoluir na mesma velocidade, ou se vamos entrar em uma corrida armamentista tecnológica onde os atacantes já estão rodando em máquina e os defensores ainda dependem de análise humana para detectar anomalias que, em escala, são indistinguíveis de comportamento legítimo.
Fontes: TechCrunch, Microsoft Security Blog, The Hacker News, CRN, BleepingComputer
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