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Deepwater Horizon: 16 anos depois, a vida marinha no fundo do Golfo do México ainda não se recuperou

Um colapso silencioso nas profundezas do Golfo

Em 2010, a plataforma Deepwater Horizon, operada pela BP, explodiu no Golfo do México, matando 11 trabalhadores e liberando entre 4 e 4,9 milhões de barris de petróleo bruto no oceano. Durante anos, a cobertura midiática focou nos danos visíveis: aves marinhas cobertas de óleo, praias ennegrecidas e pescarias fechadas ao longo da costa. Mas, a centenas de metros de profundidade, outro desastre estava se desfazendo — silencioso e quase invisível.

Uma nova análise de 13 anos, publicada na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), revela que as populações de peixes, crustáceos e cefalópodos na zona mesopelágica e benthic profunda do Golfo do México caíram entre 60% e 64% nos anos seguintes ao derramamento e, mais de 16 anos depois, ainda não mostraram sinais de recuperação. Os pesquisadores identificam o derramamento de petróleo e os esforços de contenção — incluindo a injeção de quase 770 mil galões de dispersantes químicos diretamente na fonte do vazamento — como a explicação mais plausível para o declínio.

O que a zona mesopelágica é e por que importa

A zona mesopelágica, também conhecida como "zona crepuscular", estende-se de 200 a 1.000 metros de profundidade. Abaixo dela, a zona batipelágica vai de 1.000 a 3.000 metros. É nesse espectro — entre 180 metros e 1.500 metros — que a Deepwater Horizon despejou petróleo e dispersantes, numa zona que os pesquisadores chamam de "deep scattering layer": uma faixa de escuridão quase total que abriga bilhões de organismos pequenos, desde lanternfish até lulas, que realizam uma das maiores migrações diárias de biomassa do planeta.

Essa camada é vital. Durante a noite, milhões de organismos sobem para a superfície para se alimentar e retornam às profundezas durante o dia, transportando carbono da superfície para o fundo do oceano — um processo chamado "bomba biológica de carbono". Sem essa camada, a capacidade do oceano de atuar como sumidouro de carbono diminui, e a base da cadeia alimentar marinha enfraquece.

Os números do colapso

A equipe liderada por Tracey T. Sutton, da Nova Southeastern University, e incluindo pesquisadores da Universidade Florida International (FIU), da Universidade da Carolina do Sul e de outras instituições, coletou dados de 2.000 amostras de redes, levantamentos acústicos e análises genéticas. Os resultados foram consistentes e alarmantes:

- Peixes: queda de 63,5% entre 2011 e 2015, estabilizando-se em 64% abaixo dos níveis de pré-derramamento até 2023. - Crustáceos grandes: queda de 62%, incluindo krill, que despencou 72,8% — uma fonte alimentar crítica para baleias, tubarões e peixes de grande porte. - Bristlemouths (Photostomias e espécies afins), possivelmente os vertebrados mais abundantes da Terra, caíram 69%. - Lanternfish: queda de 62,9%, afetando a dieta de aves marinhas, golfinhos e pescarias comerciais. - Polvos, lulas e outros cefalópodes: queda de 60%.

Para contextualizar: os bristlemouths são estimados como o vertebrado mais numeroso do planeta, com populações na casa dos trilhões. Se 69% desapareceram, a magnitude da perda é ecologicamente significativa mesmo em termos absolutos.

Por que a zona mesopelágica foi tão atingida

A resposta de emergência à Deepwater Horizon incluiu uma tática inédita: submersores robóticos foram enviados diretamente para o poço a 1.500 metros de profundidade para injetar dispersantes químicos (principalmente o Corexit) no fluxo de petróleo bruto. A intenção era diluir o óleo em gotículas menores para que bactérias naturais no oceano pudessem degradá-lo mais rapidamente e evitar que o petróleo acumulasse na superfície, onde atingiria aves, tartarugas e peixes de águas rasas.

A estratégia pode ter poupado vida marinha rasa. Mas os dispersantes transportaram os hidrocarbonetos diretamente para a zona mesopelágica, onde as concentrações de compostos poliaromáticos do petróleo — PAHs, conhecidos por serem altamente tóxicos — foram detectados nos tecidos e ovos de peixes de águas profundas anos após o desastre. Isabel Romero, oceanógrafa química da Universidade da Carolina do Sul e co-autora do estudo, identificou PAHs nos ovos e tecidos de peixes profundos muito tempo depois da erupção inicial.

Além disso, o petróleo alterou a química do sedimento no fundo do mar. A oxigenação dos sedimentos caiu nos três anos seguintes ao derramamento, degradando as condições para organismos que vivem no fundo. Os pesquisadores estimaram que 50 a 100 anos podem ser necessários para a recuperação completa do ecossistema de fundo.

As implicações para o futuro

Os autores do estudo alertam que o Golfo do México pode ter entrado em um estado ecologicamente esgotado persistente, sem um cronograma claro de recuperação. O que torna essa descoberta particularmente inquietante é que as espécies mais severamente afetadas — krill, lanternfish, bristlemouths — eram historicamente consideradas abundantes e resilientes.

"A ideia de que populações em ambientes de águas profundas são abundantes e não podem ser prejudicadas é um mito", disse Heather Bracken-Grissom, bióloga evolutiva da FIU. "O mar profundo é um sistema muito mais frágil do que pensávamos."

As implicações vão além do Golfo do México. A mineração de leito marinho, um setor que promete extrair minerais raros das profundezas oceânicas, pode seguir a mesma lógica de impacto. Se um derramamento de petróleo de 16 dias pode devastar um ecossistema mesopelágico, que efeito terá a extração industrial contínua?

"Esta é uma história de advertência sobre as consequências não intencionais da atividade humana no mar", observou Cynthia Smith, veterinária conservacionista do National Marine Mammal Foundation, que não participou do estudo.

A pergunta que fica: se os ecossistemas de águas profundas, que cobrem mais de 90% do volume do Golfo, podem ser alterados por um único evento sem que se perceba imediatamente, como podemos saber quando outros oceanos do planeta estão entrando em estados de colapso silencioso?

Fontes: FIU News, The Guardian, Science / AAAS

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