Rins de porco congelados por um ano são 'revividos'
Cientistas do centro de pesquisa NSF ATP-Bio, com sedes na Universidade de Minnesota e no Hospital Geral de Massachusetts (MGH), transplantaram com sucesso rins de porco que foram criopreservados a −150 °C durante mais de doze meses. Os órgãos foram resfriados até atingir um estado vítreo — semelhante a um vidro amorfo, sem cristais de gelo — e, após o descongelamento assistido por nanopartículas de óxido de ferro e estimulação eletromagnética, recuperaram a coloração normal e passaram a produzir urina quando conectados a máquinas de perfusão e, posteriormente, transplantados para suínos vivos.
O trabalho, liderado pelo cirurgião de transplante Erik Finger e pelo engenheiro biomédico John C. Bischof, foi publicado como preprint na base bioRxiv em outubro de 2026 e ainda não passou por avaliação por pares. A equipe anunciou os resultados no American Transplant Congress, onde foram recebidos com grande atenção pela comunidade de transplantes.
O processo de criopreservação descrito pelos autores combina três etapas. Primeiro, o rim é carregado com agentes crioprotetores que permitem a formação de gelo apenas no espaço extracelular e dentro dos vasos sanguíneos, enquanto as células permanecem em estado não congelado. Esse método reduz drasticamente a demanda metabólica durante o armazenamento. Segundo, o órgão é infundido com nanopartículas de óxido de ferro distribuídas em todo o sistema vascular. Terceiro, o rim é resfriado com vapor de nitrogênio até cerca de −120 °C, onde adquire consistência vítrea, e depois transferido para armazenamento a −150 °C.
Para o descongelamento, um campo eletromagnético de alta frequência ativa as nanopartículas, aquecendo o tecido de maneira volumétrica e uniforme. A taxa de aquecimento atingida foi suficiente para evitar a recristalização do gelo durante a passagem pela transição vítrea — o que, durante décadas, foi o principal obstáculo para a criopreservação de órgãos inteiros.
O contexto histórico desse avanço é extenso. Em 2023, a mesma linha de pesquisa publicou na revista Nature Communications o primeiro transplante funcional de um rim de rato criopreservado por até cem dias. Cinco rins foram transplantados com sucesso, e todos os animais sobreviveram ao período de observação de trinta dias. O passo para rins de porco, no entanto, exigiu adaptações substanciais: rins de roedores pesam poucos gramas, enquanto rins de porco maduros pesam aproximadamente cento e cinquenta gramas, volume próximo ao de um rim humano. A escala maior introduz gradientes térmicos mais pronunciados e um desafio adicional de tensão mecânica conhecido como problema do rachamento — microtrincas que se formam quando um tecido vítreo é aquecido sem a devida uniformidade.
Em setembro de 2025, pesquisadores da Universidade Texas A&M, liderados por Matthew Powell-Palm e Guillermo Aguilar, publicaram na revista Scientific Reports uma solução para o problema do rachamento. Ao alterar a composição química da solução de vitrificação, conseguiram elevar a temperatura de transição vítrea, reduzindo a diferença térmica entre a superfície e o interior do órgão durante o aquecimento. Em outro estudo, também em 2025 e publicado na Nature Communications, a equipe de Minnesota escalou a técnica de nanoadiçamento para volumes de dois litros, alcançando taxas de aquecimento de oitenta e oito graus Celsius por minuto.
A contribuição desses dois avanços — vitrificação sem cristalização e aquecimento sem rachamento — formou a base do experimento atual com rins de porco. Três anos foram necessários para adaptar o coquetel químico de criopreservação do modelo roedor ao modelo suí no, conforme relatado pela equipe.
Os resultados observados são promissores, mas ainda incompletos. Após o descongelamento, os rins recuperaram sua coloração rosada natural e produziram urina funcional em perfusão ex vivo. Quando transplantados para porcos vivos, os órgãos mantiveram produção urinária e função bioquímica por um período limitado. Os autores reportam que os rins produziram aproximadamente dois terços da urina esperada em comparação com rins não congelados e apresentaram sinais de lesão celular atribuídos à toxicidade dos próprios agentes crioprotetores.
Esse ponto — a toxicidade dos crioprotetores — é a principal barreira pendente. Os químicos que impedem a formação de gelo são igualmente agressivos para as células quando administrados em concentrações elevadas, necessárias para órgãos inteiros. Reduzir essa toxicidade sem comprometer a proteção contra a cristalização exige uma combinação mais precisa de crioprotetores ou alternativas totalmente novas, como o uso de materiais biocompatíveis que estão sendo pesquisados no Laboratório de Materiais da Universidade da Califórnia em Riverside.
Além disso, a sobrevivência de longo prazo dos animais transplantados ainda não foi demonstrada. O experimento mostrou função renal aguda e subaguda, mas não a manutenção da vida sustentada por semanas ou meses. Esse é o próximo marco que a equipe pretende alcançar.
O que observar nos próximos meses é a publicação peer-reviewed do trabalho. O preprint já está disponível, mas os revisores da comunidade científica devem questionar detalhes metodológicos e a duração real da função renal após o transplante. A equipe de Finger e Bischof já recebeu financiamento de 2,7 milhões de dólares dos NIH para aplicar a mesma tecnologia a fígados de porco, o que indica que a criopreservação de órgãos maiores será testada em paralelo.
Se os próximos resultados confirmarem a viabilidade do método, o impacto na medicina de transplante seria profundo. Atualmente, cerca de 20 por cento dos rins doados nos Estados Unidos não podem ser utilizados porque não conseguem ser transportados sobre gelo além de algumas horas. Com a capacidade de armazenar órgãos por meses ou anos, seria possível criar um banco global de rins compatíveis, agendar cirurgias em horários eletivos, realizar testes de compatibilidade prolongados e reduzir drasticamente as listas de espera. Nos Estados Unidos, mais de cem mil pessoas aguardam um transplante de rim, e dezenas morrem diariamente enquanto esperam.
A pesquisa também se situa no contexto mais amplo da xenotransplantação. Em 2024 e 2025, diversos pacientes humanos receberam rins geneticamente modificados de porco através de programas de acesso expandido da FDA. Um rim移植ado em 2026 funcionou por duzentos e setenta e um dias em um paciente idoso. A criopreservação adiciona uma dimensão logística a esses esforços: além da compatibilidade genética e imunológica, os órgãos poderiam ser armazenados indefinidamente antes da cirurgia.
O campo ainda está longe de uma aplicação clínica humana rotineira, mas os marcos acumulados — da vitrificação de embriões, nos anos 1980, ao transplante de rins de rato em 2023, e agora ao transplante de rins de porco criopreservados por mais de um ano — indicam uma progressão tecnológica consistente. O que começou como uma possibilidade teórica de criopreservação de tecidos microscópicos está se aproximando da realidade de órgãos inteiros, funcionais e armazenáveis por tempo indeterminado.
Fontes: MIT Technology Review, Talk With Tech, University of Minnesota
✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação