O Google anunciou uma das maiores reorganizações da sua área de inteligência artificial em anos, num movimento que reconfigura a cúpula que comandou a corrida dos modelos Gemini. Demis Hassabis, o líder do Google DeepMind e um dos nomes mais influentes da inteligência artificial mundial, deixou o cargo de CEO do laboratório para se tornar chairman do DeepMind e chief scientist da Alphabet. No lugar dele, o ex-CTO do DeepMind, Koray Kavukcuoglu, assumiu como SVP do DeepMind, reportando diretamente ao CEO Sundar Pichai e acumulando também o papel de chief AI architect.
O anúncio, feito por Pichai na quarta-feira, aconteceu em meio a uma segunda mudança igualmente significativa: Jeff Dean, o cientista-chefe do DeepMind e funcionário nº 30 da história do Google, deixou a empresa para fundar a Discovery Loop, uma public benefit corporation focada em usar IA para acelerar descobertas científicas, ao lado de Sanjay Ghemawat. O Google será investidor fundador da nova companhia. Dean é uma figura lendária, arquiteto de sistemas como TensorFlow e MapReduce, e sua saída é lida por analistas como um sinal de que até os quadros mais veteranos da empresa estão dispostos a apostar fora da big tech.
A leitura imediata do mercado é dupla. um lado, a promoção de Hassabis a chief scientist da Alphabet preserva a influência do cientista mais celebrado da empresa, mantendo-o à frente de decisões estratégicas e globais de AGI enquanto cuida também da Isomorphic Labs, a aposta de descoberta de medicamentos. Hassabis afirmou, em mensagem aos funcionários, que o "aplicativo número 1 da IA" deveria ser melhorar a saúde humana e que é hora de a tecnologia "provar seu valor inequívoco para o mundo". outro lado, a mudança acontece num momento delicado: o Gemini 3.5 Pro, modelo flagship esperado para junho, sofreu atrasos, e o Google vê rivais como OpenAI e Anthropic avançarem em ritmo acelerado no imaginário do público.
Para o ecossistema, a reorganização representa uma aposta em mais autonomia operacional para o DeepMind e menos concentração de poder numa única figura. Kavukcuoglu, que ajudou a construir AlphaGo e liderou boa parte da pesquisa do DeepMind, é visto como continuidade técnica, mas sem o peso simbólico de Hassabis ou Dean. Há quem enxergue a saída de Jeff Dean como o ponto de inflexão: pela primeira vez, a geração fundadora do Google AI se dispersa para fora, em vez de ser absorvida pela estrutura interna. A criação da Discovery Loop, inclusive, sinaliza que cientistas de topo acreditam que a autonomia de uma startup é mais eficiente para acelerar ciência do que o gigante corporativo.
A pergunta que fica é o que essa sucessão significa para o ritmo da competição. O Google ainda tem a infraestrutura de pesquisa mais profunda do setor, mas liderança de IA é, cada vez mais, uma disputa de execução e de capacidade de reter talento. A saída de Dean, somada ao atraso do Gemini 3.5 Pro, coloca a empresa sob pressão para demonstrar que a nova estrutura entrega resultados rapidamente. Será que a aposta de descentralizar a liderança, mantendo Hassabis como conselheiro, vai produzir modelos mais rápidos — ou vai diluir ainda mais a identidade do DeepMind numa empresa que já foi sinônimo de inovação em IA?
Fontes: The Verge, TechCrunch, Business Insider, The Guardian
✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação