O fim do leap second: o que muda na medição do tempo mundial
Na tarde de 15 de outubro de 2026, em Versalhes, França, delegados de 69 países votaram unanimemente uma decisão que altera para sempre um dos pilares da medição do tempo: a eliminação definitiva do "segundo bisiesto" (leap second). A Conferência Geral de Pesos e Medidas (CGPM), reunida em sua 28ª sessão, aprovou a resolução que entra em vigor em 20 de maio de 2027, substituindo o mecanismo de correção atômica que operava desde 1972 por um sistema de "segundo bisiesto horário" — uma mudança que, em termos práticos, significa que relógios atômicos e o tempo astronômico poderão divergir até uma hora antes de qualquer nova compensação.
O que é um leap second e por que ele existe
O segundo bisiesto foi introduzido em 1972 como um mecanismo de sincronização entre dois sistemas de medição de tempo fundamentalmente diferentes. Por um lado, existe a hora atômica internacional (TAI), baseada na vibração do átomo de césio-133 — exatamente 9.192.882.340 oscilações por segundo. Por outro, há a hora astronômica (UT1), determinada pela rotação da Terra no espaço. O problema é que a Terra não é um relógio preciso: seu eixo balança, sua rotação desacelera gradualmente devido às forças de maré da Lua, e eventos geológicos como terremotos podem alterar a velocidade de giro em frações de milissegundo.
Para manter a divergência entre a hora atômica (UTC) e a hora astronômica dentro de 0,9 segundo, a comunidade científica decidiu inserir um segundo extra — o leap second — sempre que necessário. Desde 1972, 27 segundos bissextos foram adicionados aos relógios globais. O mais recente ocorreu em 31 de dezembro de 2016. Cada inserção faz com que um minuto dure excepcionalmente 61 segundos.
Por que eliminar?
A resposta combina dois fatores: a imprevisibilidade da rotação terrestre e a dependência digital global de uma cronometragem estável.
A ameaça do "segundo bisiesto negativo"
Em 2020, a Terra completou 28 dias girando mais rápido do que o previsto pelos relógios atômicos. Em 29 de junho de 2022, o dia mais curto já medido na era dos relógios atômicos foi registrado — a rotação terrestre foi 1,59 milissegundo mais rápida do que 86.400 segundos atômicos. Se essa tendência continuar, os especialistas alertam para a possibilidade do primeiro segundo bisiesto negativo na história: em vez de adicionar um segundo, seria removido. Como nenhum sistema tecnológico jamais processou essa operação, o resultado seria imprevisível.
> "A remoção de um segundo poderia resultar em uma falha major em redes de telecomunicações, redes elétricas ou sistemas de navegação por satélite", disse Setnam Shemar, principal cientista de cronometragem do Reino Unido, ao Financial Times.
Impacto em sistemas digitais
As implicações vão muito além da curiosidade científica. Mercados financeiros, redes de telecomunicações, sistemas GPS e infraestrutura elétrica dependem da sincronização precisa de UTC. Leap seconds já causaram interrupções em sistemas operacionais e serviços online. A Meta, anteriormente Facebook, foi uma das vozes mais firmes pela eliminação: em 2022, seus engenheiros descreveram o leap second como "uma prática arriscada que faz mais mal do que bem".
A nova regra: de um segundo a uma hora
A solução adotada pela CGPM é radical em sua simplicidade. Em vez de inserir segundos irregulares, o tempo coordenado universal (UTC) poderá divergir do tempo astronômico até 3.600 segundos — uma hora completa. Essa divergência só será corrigida quando atingir esse limiar, por meio de um mecanismo chamado "segundo bisiesto horário" (leap hour). Segundo Noël Dimarcq, chefe do comitê de tempo e frequência do BIPM, isso deve garantir um fluxo ininterrupto de tempo por "vários séculos".
Na prática, o efeito será semelhante a "viver em horário de verão permanentemente", segundo Emily Akkermans, curadora de tempo no Royal Observatory de Greenwich. A mudança é essencialmente precaucionária: os especialistas acreditam que levará muito tempo até que a divergência chegue a exigir uma correção, mas preferem agir antes do primeiro salto reverso.
O que isso significa para você
Para o dia a dia, a notícia não altera nada imediata. O relógio do seu celular continuará funcionando da mesma forma. Os horários de chegada de trens, voos e reuniões permanecem inalterados. A diferença é fundamentalmente técnica: entre o relógio atômico e a posição real do Sol no céu, a discrepância crescerá lentamente ao longo das próximas décadas.
Para profissionais de astronomia, geodésia e aplicações baseadas em satélites, contudo, a mudança exige atenção. Esses campos dependem do conhecimento preciso da rotação terrestre. Com a dissociação entre UTC e o tempo astronômico, eles precisarão calcular separadamente a divergência crescente sempre que necessário.
O futuro do cronômetro mundial
A reunião do BIPM em Versalhes também abriu caminho para inovações que vão muito além da eliminação do leap second. Foram solicitadas propostas para uma nova definição do segundo — necessária porque relógios ópticos estão agora significativamente mais precisos do que o relógio de césio que define o padrão atual. Além disso, agências internacionais foram convidadas a considerar como definir um padrão universal de tempo para a Lua.
> "As mudanças terão um impacto profundo na medição do tempo futura, tanto na Terra quanto em outros planetas", afirmou Dimarcq.
A era do segundo bisiesto chega ao fim. O que se inicia é um capítulo em que a precisão atômica e a rotação terrestre deixam de ser cósincronizadas — e a humanidade decide, pela primeira vez, que a consistência do tempo digital vale mais do que a elegância de manter os relógios atômicos alinhados com o movimento do planeta.
Fontes: CNN, New Scientist, Euronews
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