Na última quarta-feira, 22 de julho de 2026, a Monday.com — a plataforma israelense de gestão de trabalho que abriu capital em 2021 com valuation de US$ 7,6 bilhões — anunciou a demissão de 630 funcionários, o equivalente a 20% de sua força de trabalho global. O movimento, revelado pelos co-CEOs Roy Mann e Eran Zinman, foi oficialmente enquadrado como uma "reestruturação estratégica em torno de uma plataforma de trabalho com IA", e não como um corte de custos. Mas os números levantam questões incômodas.
A demissão em massa acontece em um momento em que a Monday.com projeta receita recorde e acaba de elevar sua projeção de margem operacional não-GAAP de 13% para 15%. Se a empresa está performando tão bem financeiramente, por que cortar um quinto do quadro de funcionários?
A conta que não fecha
A explicação oficial é que a Monday.com está se transformando em uma "AI Work Platform" — uma platação com assistentes de IA, construtor de aplicativos no-code e agentes automatizados que substituem processos manuais antes executados por equipes humanas. Em termos práticos, a empresa afirma que a IA permite fazer mais com menos pessoas. O problema é que a elevação da margem operacional sugere que, sim, parte significativa do "ganho de eficiência" virá da redução da folha salarial.
De acordo com o TechCrunch, a Monday.com não está sozinha. A publicação compilou uma lista com mais de 20 empresas de tecnologia que, em 2026, citaram a inteligência artificial como motivo oficial para demissões em massa — entre elas Snap, Block (de Jack Dorsey), Duolingo e Grammarly. O fenômeno já tem nome: o "AI-washing" de layoffs, onde a IA serve como justificativa palatável para cortes que, no fundo, são movidos por pressão de margem e expectativas do mercado financeiro.
O contexto macro: 122 mil cortes em 2026
Segundo dados do Layoffs.fyi, mais de 122 mil profissionais de tecnologia perderam seus empregos em 2026 até julho. Destes, uma parcela crescente tem a IA citada como fator determinante nas comunicações oficiais. A StartupFortune, em análise publicada na última sexta-feira, aponta que a Monday.com gastará entre US$ 45 milhões e US$ 55 milhões em indenizações e custos de reestruturação — valor que será mais do que compensado pela economia anual com salários.
A Techtimes, por sua vez, destacou que a inteligência artificial tem sido a principal razão declarada para cortes de empregos nos EUA por quatro meses consecutivos em 2026 — uma sequência sem precedentes nos registros de recolocação profissional.
A linha entre pivot e oportunismo
Defensores da estratégia argumentam que a Monday.com está, de fato, se reinventando. A empresa lançou uma suíte de agentes de IA que automatizam fluxos de trabalho inteiros — desde aprovações de projetos até alocação de recursos — e um construtor visual de aplicativos que promete reduzir a dependência de desenvolvedores internos. Produtos como o Monday AI Assistant e o Monday WorkForms integram modelos de linguagem diretamente na plataforma.
Críticos apontam que a demissão de 630 pessoas — incluindo engenheiros, designers e equipes de suporte — contradiz o discurso de que o pivot é sobre inovação e não sobre economia. Se a IA é tão transformadora, por que cortar justamente as pessoas que construiriam essa transformação?
O padrão se repete
A Block, de Jack Dorsey, cortou mais de 1.000 vagas em abril, citando IA. A Snap demitiu 529 funcionários em maio com o mesmo argumento. Em todos os casos, as empresas registraram melhora nas margens nos trimestres seguintes. Coincidência ou estratégia?
O que fica claro é que 2026 está consolidando um novo vocabulário corporativo: "reestruturação orientada por IA" virou shorthand para "estamos cortando custos e queremos que o mercado goste". A Monday.com pode até estar genuinamente construindo uma plataforma de IA de próxima geração. Mas, para os 630 profissionais que perderam seus empregos, a diferença entre "pivot" e "layoff" é puramente semântica.
Fontes: TechCrunch, Business Insider, TechTimes, StartupFortune, TechCrunch