mais de quatro décadas, Io, lua de Júpiter, tem sido uma espécie de afronta às expectativas do Sistema Solar. É um mundo pouco maior que a Lua terrestre, orbitando perigosamente perto de um gigante gasoso — e, mesmo assim, abriga mais de 400 vulcões ativos que lançam fontes de lava e lagos de rocha derretida. Todo astrofísico entendia em teoria por que Io queima: uma disputa gravitacional entre Júpiter e suas luas vizinhas estica e comprime o satélite, e o atrito aquece seu interior. Mas ninguém jamais havia visto o calor subindo de verdade por baixo da crosta. Isso mudou nesta semana, quando a sonda Juno, da NASA, trouxe as primeiras medições de temperatura abaixo da superfície de Io.
Os dados vêm de duas aproximações, feitas em 30 de dezembro de 2023 e 3 de fevereiro de 2024. A Juno apontou seu Radiômetro de Micro-ondas (MWR) para Io — o mesmo instrumento construído para enxergar através das nuvens espessas de Júpiter. Para surpresa geral, as micro-ondas conseguiram penetrar de dois a seis metros abaixo da superfície rochosa da lua, revelando como o calor interno viaja pela crosta antes de chegar ao céu aberto. As leituras mostram temperaturas subindo mais de 22 graus Celsius em apenas alguns metros de profundidade, com algumas áreas de 10 a 20 graus mais quentes que a vizinhança. Os resultados foram publicados na quarta-feira (22) na revista JGR Planets.
Até então, os pesquisadores conheciam o calor de Io quase exclusivamente por observações no infravermelho, capazes de detectar apenas a temperatura da superfície mais externa. É como avaliar o aquecedor de uma casa encostando a mão no telhado. O MWR, em contraste, permite enxergar a canalização interna.
A física por trás do fogo de Io é elegante. Diferentemente da Terra, onde o vulcanismo é alimentado em grande parte pela decomposição radioativa dentro do planeta, Io é deformada continuamente pela gravidade. A força imensa de Júpiter altera a lua conforme ela percorre uma órbita levemente elíptica, e empurrões gravitacionais precisos de Europa e Ganimedes mantêm essa deformação em andamento. O resultado é o aquecimento por marés: a superfície de Io sobe e desce até 100 metros a cada órbita, gerando calor interno muitas vezes maior que o da Terra.
As novas observações também trouxeram uma surpresa sobre a pele da lua. Apesar das montanhas altas e dos vulcões inquietos, grande parte da superfície de Io é surpreendentemente lisa e composta por material de densidade muito baixa — mais parecido com pedra-pomes ou cinza vulcânica fofa do que com rocha sólida. Os cientistas acreditam que camadas de detritos expelidos pelas erupções renovam continuamente a superfície, soterrando terrenos antigos. O calor que sobe agora, suspeitam, vem do interior derretido de Io por uma crosta condutora ou de bolsões de lava em resfriamento presos logo abaixo do solo.
Pense em como um clipe de metal esquenta depois de dobrá-lo de um lado para o outro muitas vezes. Essa é a existência de Io, comprimida e esticada a cada órbita — só que em escala planetária, e o atrito nunca para.
A consequência mais prática vai muito além de Júpiter. Scott Bolton, investigador principal da Juno, lembra que, se um instrumento do tipo MWR fosse apontado para um vulcão na Terra, ele poderia revelar uma assinatura subterrânea semelhante — uma nova forma de monitorar a movimentação do magma e melhorar a previsão de erupções. A mesma técnica de micro-ondas poderia ser usada nas luas geladas do Sistema Solar, que podem esconder oceanos internos sob suas cascas.
Se as micro-ondas revelam calor oculto num mundo de fogo como Io, o que poderiam descobrir sob a crosta congelada de Europa ou Encélado — justamente os lugares onde poderia existir vida?
Fontes: Olhar Digital, NASA, Space.com, Gizmodo
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