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As vendas de PC despencaram 20% no Q3: a crise da memória que ninguém viu vir

As vendas de PC despencaram 20% no Q3: a crise da memória que ninguém viu vir

O mercado de computadores pessoais passou por sua queda mais brutal em três anos. No terceiro trimestre de 2026, foram apenas 62,7 milhões de unidades enviadas globalmente — um recuo de 20,1% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os dados preliminares da IDC são mais um sintoma de um problema estrutural que começou a se agravar desde o início do ano e que, longe de ser um efeito passageiro, deve se aprofundar ainda mais nos próximos trimestres.

O que torna esse cenário diferente de quedas anteriores — como as causadas pela pandemia em 2023 — é que o declínio não se deve ao excesso de inventário. Pelo contrário: é o resultado direto de preços inflacionados em componentes essenciais, de uma escassez real de memória DRAM e armazenamento SSD, e de uma reordenação estratégica da cadeia de suprimentos que deixou o terceiro trimestre completamente faminto por volume.

O efeito "pull-in" e a quebra da sazonalidade

Durante o primeiro semestre de 2026, a indústria de PCs agiu com o que especialistas chamam de "pull-in": compradores e distribuidores estocaram antecipadamente para escapar de aumentos de preço previstos. O resultado foi que as vendas no primeiro semestre cresceram 3,2% em relação ao ano anterior, enquanto o segundo trimestre já mostrou o custo dessa estratégia — uma queda de 4%, a primeira em mais de dois anos. Mas foi apenas no terceiro trimestre que o efeito colateral se revelou completo.

"O que estamos vendo é consequência do forte pull-in do primeiro semestre", explicou Jitesh Ubrani, diretor de pesquisa para dispositivos de consumo da IDC. "Vendas e canais abasteceram-se antecipadamente diante dos aumentos de preço, o que perturbou a sazonalidade habitual, em que o terceiro trimestre normalmente supera o segundo."

O padrão se quebrou completamente: o Q3 de 2026 registrou uma queda sequencial de 9,1% em relação ao Q2, invertendo o comportamento esperado do mercado. A indústria depende dessa dinâmica sazonal para manter a produção ativa durante o ano, e sua ruptura sinaliza que o mercado entrou em uma fase de incerteza.

A crise da memória DRAM

Em fevereiro de 2026, o preço da memória DRAM disparou cinco vezes em relação ao mesmo período do ano anterior. Não se tratou de um aumento gradual: foi uma escalada abrupta que afetou desde os módulos de memória de PCs de consumo até as linhas de produção de workstations e servidores. A razão principal é a corrida global por capacidade de memória, que migrou o foco da produção de semicondutores para o data center de IA, onde os grandes clusters de inteligência artificial consomem quantidades industriais de DRAM e HBM.

A IDC identificou essa restrição de oferta como um dos fatores centrais do declínio: "high price points driven by AI data center build out". A mesma memória que alimenta data centers de IA está esvaziando as prateleiras de PCs. Fornecedoras como Samsung, SK Hynix e Micron reorientaram capacidade de fabricação para DRAM de alta densidade e HBM, reduzindo drasticamente a oferta de memória DDR4 e DDR5 destinadas ao mercado de consumo.

O resultado prático foi que os fabricantes de PCs tiveram de repassar esses custos aos consumidores. A HP anunciou aumentos de 10 a 15% em dispositivos cliente; a Lenovo elevou seus preços em torno de 6%; a Microsoft Surface registrou um salto de 11%, com variações maiores nas configurações de 32GB e 64GB. Para muitos compradores, esses preços tornaram a reposição de máquinas familiares economicamente inviável.

Os perdedores e os resilientes

A queda não afetou todos os fabricantes igualmente. A HP Inc. foi a que mais sofreu, com um recuo de 30,9% nas vendas. A Dell acompanhou com -25,4% e a Lenovo, líder de mercado, caiu 22,4% — acima da média, mas protegida pela escala de sua cadeia de suprimentos e pelo portfólio mais diversificado, que inclui infraestrutura de dados e soluções de IA.

A Apple foi a grande exceção: com apenas 7,1% de queda e um ganho de 1,7 ponto percentual de participação de mercado, demonstrou que o ecossistema Mac — particularmente os MacBooks mainstream — mantém um apelo forte mesmo em cenários de preços elevados. A ASUS teve uma queda mais moderada de 13,0%, enquanto a Acer registrou -11,2%.

A Apple provavelmente se beneficiou da percepção de valor: seus produtos têm uma expectativa de vida mais longa e um ciclo de substituição menos frequente, o que mantém a base de clientes fiéis mesmo quando os preços de concorrentes disparam.

O que esperar para o Q4 de 2026 e 2027

A visão não é otimista. A Counterpoint Research estima que os envios globais podem despencar mais 27% no quarto trimestre de 2026, e que o mercado deve permanecer amplamente estagnado em 2027. O associado diretor David Naranjo da Counterpoint é direto: "com os envios globais esperando cair 27% no Q4 de 2026 e permanecerem amplamente estagnados em 2027, a estabilização não deve ser confundida com recuperação".

A IDC mantém uma postura similar. Ubrani alerta que "as condições macroeconômicas estão piorando" e que "a perspectiva para os próximos trimestres pode piorar antes de melhorar". A Gartner vai na mesma direção, com a pesquisadora Namrata Banerjee observando que "a indisponibilidade de dispositivos de menor custo tornou as compras de reposição menos acessíveis para consumidores, enquanto as empresas concentraram gastos em investimentos direcionados, como workstations e PCs com IA, em vez de implantações generalizadas".

Alguma luz no fim do túnel? Os canais de venda estão começando a considerar promoções para limpar estoques acumulados, o que poderia gerar algum alívio temporário de preços no curto prazo. Mas a tendência geral é de que os preços permaneçam bem acima dos níveis de um ano atrás — e isso vale para a maior parte da linha de produtos, não apenas para configurações de ponta.

O que a crise de memória revela é uma consequência mais ampla da transição da indústria de semicondutores para a era da inteligência artificial: quando a demanda por capacidade de memória excede em muito a capacidade de produção existente, os mercados de consumo sentem o impacto com brutalidade. O preço de um módulo de RAM adicional em seu desktop não é apenas uma questão de fornecedor — é um espelho de um mundo que está reconfigurando toda a indústria de eletrônicos em torno de um novo tipo de computação, e que espera, com ansiedade, que essa fase de escassez passe.

Fontes: The Verge, IDC, Gartner

✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação