Nos últimos dias, um bug no firmware das Ray-Ban Meta smart glasses levantou uma preocupação que muitos temiam desde o lançamento: os óculos passaram a gravar áudio e ativar o assistente Meta AI sem que o usuário tivesse dito "Hey Meta" ou mesmo ativado a palavra-chave. O problema foi reportado por múltiplos usuários em outubro de 2026 e já foi corrigido pela Meta — mas a correção não apaga a questão central. Um dispositivo vestível, vendido como ferramenta criativa e acessibilidade, tem se comportado como uma câmera de vigilância disfarçada de acessório de moda.
O bug, conforme detalhado pelo Android Headlines e corroborado pelo Gizmodo, afetava não apenas um caso isolado. Usuários relataram que os óculos gravavam conversas em ambientes domésticos, escritórios e até ruas, sem qualquer indicação visual de que estavam ativos — a menos que a gravação fosse intencional via comando de voz. Um usuário chegou a reportar o mesmo problema com três pares distintos de óculos. Quando a gravação acontecia sem o wake word ativo, a luz LED branca piscava normalmente, mas a natureza do evento — sem intervenção do usuário — tornava o indicador praticamente inútil como aviso para quem está ao redor.
A Meta confirmou o bug ao Android Authority e anunciou que havia sido corrigido via atualização de firmware. A empresa, porém, não forneceu detalhes técnicos sobre a causa raiz nem sobre a extensão do patch. Quando questionada sobre como os usuários poderiam gerenciar os registros de voz acumulados durante os episódios não intencionais, a empresa apenas apontou para as configurações de privacidade do app, onde é possível revisar e deletar logs de interação com o Meta AI. A resposta foi genérica e não endereçou a pergunta fundamental: por que o dispositivo grava sem comando?
Esse incidente não existe no vácuo. Ele é mais um capítulo em uma linha contínua de problemas de privacidade envolvendo as Ray-Ban Meta. Desde o início de 2026, a situação se deteriorou. Em maio, o escritório do Attorney General do Texas, liderado por Ken Paxton, lançou uma investigação formal sobre as Meta AI Glasses, com um Civil Investigative Demand exigindo que a empresa produza documentos sobre o uso de dados privados e captura de geometria facial de terceiros.
A investigação do Texas foi motivada por relatos de que trabalhadores da empresa terceirizada Sama, localizada no Quênia, tinham acesso a vídeos de momentos íntimos registrados pelos óculos — banhos, uso do banheiro, atividades privadas — e que o borramento automático de rostos, prometido como proteção, nem sempre era aplicado. Paxton já havia garantido um acordo de US$ 1,4 bilhão com a Meta em julho de 2024 sobre tecnologia de reconhecimento facial ilegal e agora buscava aplicar o mesmo escrutínio a um produto diferente.
Em setembro, o cenário só piorou. Uma ação coletiva de 230 páginas, arquivada em um tribunal federal na Califórnia do Norte, reuniu mais de 70 plaintiffs — usuários das óculos e pessoas registradas por eles — acusando a Meta de fraude publicitária, publicidade enganosa e violação de leis de proteção ao consumidor em múltiplos estados. Uma das demandantes, identificada como PL18 no processo, relatou que havia colocado os óculos sobre o balcão do banheiro e que, dias depois, fotos de membros da família usando o banheiro e tomando banho começavam a aparecer na galeria do app, em gravações que ninguém no lar havia solicitado. Outro usuário, PL01, descreveu ter usado o assistente Meta durante "um momento íntimo na privacidade do seu quarto" e descoberto posteriormente que múltiplas interações privadas também haviam sido capturadas.
O processo também busca bloquear a implementação de uma funcionalidade chamada "Name Tag" internamente pela Meta — um sistema de reconhecimento facial que permitiria às óculos coletar geometria facial de pessoas não consentidas, criando identificadores biométricos a partir de imagens do Facebook e Instagram. A ação descreve o Name Tag como "uma invasão distópica da privacidade que ninguém pediu".
O paradoxo comercial é quase surreal. Apesar de todas as denúncias — chamadas de "pervert glasses" pela imprensa, proibidos em convenções como a DEF CON, banidos em escolas e tribunais em diversas jurisdições — as vendas das Ray-Ban Meta continuam subindo. A Meta já comercializou mais de 7 milhões de pares, e Zuckerberg os chamou de "os dispositivos vestíveis que mais cresceram na história". Segundo dados de mercado, as óculos representam mais de 80% de todas as vendas de smart glasses e AI glasses no mundo. Um colaborador anônimo da Meta disse ao BBC que "tecnologia como essa é fundamentalmente uma invasão de privacidade e vai enfrentar cada vez mais rejeição pública" — e ele próprio trabalhava para a empresa.
A própria resposta da Meta ao problema revela uma contradição estrutural. Em julho de 2026, a empresa lançou uma atualização que desativava a câmera se a LED de gravação fosse coberta ou danificada — uma proteção única entre câmeras consumer. Mas a atualização não abordava o áudio. No mês seguinte, em plena Meta Connect 2026, a empresa anunciou as Ray-Ban Meta Audio Glasses: óculos com o mesmo design e ecossistema, mas sem câmera. A empresa disse que os áudio-glasses eram o resultado de anos de desenvolvimento. Observadores apontaram que o timing era estranho: a versão sem câmera chegou logo após uma onda de backlash sobre vigilância, e sem nenhuma melhoria nos controles de privacidade das versões com câmera.
A questão que permanece não é se os óculos são tecnicamente bons — a maioria dos testes elogia qualidade de áudio, resolução de vídeo e integração com o ecossistema Meta. A questão é se um produto que grava pessoas sem que elas saibam, que envia gravações de momentos íntimos para anotadores terceirizados, que foi alvo de investigação governamental e ações coletivas, pode ser chamado de "produto de consumo" quando a conveniência do usuário não está em conflito direto com a privacidade de terceiros — porque está. E enquanto a Meta continua a vender milhões de unidades por ano, a única proteção para quem está ao redor continua sendo uma luzinha LED que alguém pode cobrir, danificar ou ignorar.
Fontes: Android Headlines, Los Angeles Times, BBC News, Gizmodo, Office of the Texas Attorney General
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