A Recursive apresenta Flint: quando a IA constrói o próprio modelo
A startup Recursive Superintelligence, que em maio levantou US$ 650 milhões com uma avaliação de US$ 4,65 bilhões, publicou nesta quarta-feira (21) seu primeiro modelo: o Flint, um sistema de código aberto projetado para rodar localmente em laptops e construído com a ajuda maciça do seu próprio motor de pesquisa automatizada, a Eureka Machine. A proposta é ambiciosa e a mensagem clara: a Recursive acredita que a melhor maneira de avançar inteligência artificial é com a própria IA construindo a próxima versão.
O que é o Flint
O Flint é um modelo de linguagem de 40 bilhões de parâmetros com arquitetura mista de especialistas (MoE — mixture of experts). Para cada token gerado, apenas 2,5 bilhões de parâmetros são ativados, o que permite que o modelo rode em hardware convencional sem depender de servidores remotos. Na prática, isso significa que um desenvolvedor pode usar o Flint offline, manter seu código privado e evitar as taxas de uso que serviços de IA em nuvem cobram por quantidade de tokens processados.
No MacBook Pro com chip M4 Pro da Apple, o Flint gera aproximadamente 131 tokens por segundo — cerca de duas vezes mais rápido do que modelos comparáveis como o Google Gemma 4 e o Nvidia Nemotron 3.5 Lightning, que produziram entre 58 e 69 tokens no mesmo hardware. Com a GPU Nvidia RTX Spark, o modelo ultrapassa 150 tokens por segundo.
Em benchmarks de codificação agêntica, o Flint se posiciona como o melhor modelo MoE com menos de 50 bilhões de parâmetros totais em testes como SWE-Bench Pro v2, Terminal-Bench 2.1 e SWE-Bench Verified. Em um teste padrão, apenas o modelo Alibaba Qwen3.8 27B superou o Flint.
A Eureka Machine
O que torna o Flint particularmente relevante não é apenas o que ele faz, mas como foi criado. A Recursive não usou seu próprio modelo para escrever código de outra IA — ela usou um sistema automatizado de pesquisa científica, a Eureka Machine, para conduzir praticamente todas as etapas do desenvolvimento do modelo. Desde a definição da arquitetura até a otimização dos kernels de inferência para Apple Silicon e Nvidia, a Eureka Machine propôs ideias, executou experimentos e usou os resultados para decidir qual direção testar em seguida.
Segundo a empresa, a Eureka Machine contribuiu com a forma esparcida do modelo (uma arquitetura ainda mais eficiente), com técnicas de low-bit quantization que reduziram o tamanho do modelo em 71% sem perda significativa de qualidade, e com kernels personalizados que aceleram as operações de projeção, MoE, atenção e processamento de prompts.
A equipe humana da Recursive é descrita como "pequena" e afirma ter construído o modelo do zero em menos de quatro meses, com a Eureka Machine assistindo praticamente todas as etapas. A empresa já firmara um acordo de US$ 410 milhões com a Amazon Web Services para obter capacidade de computação — e, segundo o CEO Richard Socher, esse acordo era "mais sobre conta de agentes do que sobre cabeças de funcionários".
O contexto: auto melhoramento recursivo
A Recursive é uma das várias empresas entrando no campo do auto melhoramento recursivo (RSI — recursive self-improvement), a ideia de que uma IA pode ser treinada para construir uma IA melhor, que por sua vez constrói ainda outra. A proposta é controversa: alguns pesquisadores alertam que, se a IA começa a se aprimorar sem controle humano direto, o sistema pode sair dos trilhos. A Recursive argumenta exatamente o oposto: o controle humano é mantido em todas as etapas, e os humanos podem parar o processo a qualquer momento.
O OpenAI também vem usando agentes de IA para acelerar sua própria pesquisa — o próprio Socher citou que, em agosto, os agentes de IA da OpenAI estavam acumulando 3,1 dias de trabalho por cada dia humano. Mas a Recursive vai mais longe: a ideia não é apenas acelerar o processo humano, é substituir gradativamente a necessidade dele.
O que isso significa para o futuro
O lançamento do Flint representa um teste público do conceito de RSI. Se a Recursive conseguir demonstrar que cada nova versão do modelo torna a Eureka Machine um pesquisador melhor — e que a próxima versão é construída de forma significativamente mais rápida e eficiente que a anterior — a startup terá validado uma estratégia que muitos na indústria consideram a via mais promissora (e mais perigosa) para alcançar superinteligência.
Enquanto isso, para os desenvolvedores que querem usar um assistente de código local sem depender de APIs caras, o Flint é uma opção gratuita e open-source sob licença Apache 2.0. Ele já está disponível no Hugging Face e funciona com llama.cpp, Ollama, Unsloth, LM Studio, vLLM e SGLang.
A pergunta que fica: se a Recursive está certa, e a Eureka Machine realmente começa a construir modelos melhores sozinha, quantos anos de pesquisa humana tradicional ela vai conseguir comprimir?
Fontes: TechCrunch, Wired, Recursive
✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação