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Samsung bate recorde de lucro com chips de IA, mas divisão de celulares amarga prejuízo

A Samsung Electronics apresentou na quinta-feira (30) seus resultados do segundo trimestre de 2026 com uma história dupla e reveladora. Do lado da memória, o faturamento foi estratosférico: o lucro operacional cresceu cerca de 1.800% na comparação anual, sustentado pela demanda insaciável por chips de servidor para IA, que empurrou a margem da divisão de semicondutores para perto de 70%. Foi o terceiro trimestre consecutivo de recorde para a empresa. Do lado dos produtos acabados, porém, o cenário é o oposto: as divisões de celulares, redes, TVs e eletrodomésticos despencaram para o prejuízo, atingidas pelo custo maior de componentes e pela demanda global fraca.

A leitura mais imediata é que a Samsung virou, na prática, uma empresa de semicondutores que também fabrica celulares — e não o contrário. O lucro que move os números trimestrais vem dos data centers, não das vitrines de consumo. Quando o mercado de memória de alto desempenho cresce, o lucro acompanha; quando o consumidor segura o bolso, são as divisões que vendem para ele que sangram. Essa divisão interna é a mesma que se vê em toda a cadeia de IA: o dinheiro se concentra nas camadas de infraestrutura e escorrega das camadas de produto.

Há um elemento de ironia histórica nesse resultado. Há poucos anos, a Samsung era vista como a fabricante que dominava a memória e o mercado de smartphones; agora, as duas frentes seguem trajetórias opostas. O mesmo custo dos chips de memória que explode o lucro da divisão de semicondutores encarece os componentes usados nos próprios celulares da Samsung, comprimindo a margem do negócio que deveria se beneficiar do mesmo portfólio. A empresa, em certo sentido, está pagando a si mesma mais caro.

Esse efeito não é exclusivo da Samsung — é sistêmico. A escassez de memória elevada pela demanda de IA inflou os preços de DRAM e NAND, e fabricantes de dispositivos em todo o mundo, inclusive rivais, enfrentam o mesmo aperto de custos. A diferença é que a Samsung está dos dois lados do balcão, o que torna sua posição mais complexa: ela é ao mesmo tempo beneficiária e vítima da crise. No curto prazo, o lucro da memória domina; mas se o boom de IA esfriar, a queda será sentida com força no mesmo trimestre.

A pergunta que fica é se essa estrutura é sustentável a longo prazo. Uma empresa que depende de um ciclo de memória superaquecido para bater recordes precisa se perguntar o que acontece quando o ciclo normaliza — e as divisões de consumo, que já estão no vermelho, terão de sustentar o peso sozinhas. Talvez a lição mais profunda seja que a IA não está apenas mudando o que a Samsung vende, mas reescrevendo a identidade da própria empresa. O desafio agora é saber se ela consegue transformar esse lucro passageiro em uma posição duradoura.

O resultado também reacende a discussão sobre o papel de uma gigante diversificada numa era dominada por empresas focadas. Enquanto a divisão de memória colhe os frutos de um boom que parece não ter fim, as divisões de consumo mostram como é difícil competir quando o custo dos insumos dispara e o consumidor adia trocas. Para os investidores, o paradoxo é fascinante: a Samsung de hoje é mais previsível como fabricante de componentes do que como marca de eletrônicos. A longo prazo, a questão estratégica é se a empresa vai apostar mais peso na infraestrutura de IA — onde está o dinheiro — ou se vai tentar reerguer o negócio de consumo que já foi sua vitrine mundial. Decisões como essa definem não apenas o próximo trimestre, mas a identidade da companhia para a próxima década.

Fontes: Yonhap News, Quartz, Channels Television, XenoSpectrum

✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação