A crise de lançamentos espaciais é 'mais grave' do que o esperado
Uma análise da consultoria Quilty Space confirma o que operadores do setor já sentiam na prática: o mundo, fora da China, enfrentará um déficit de cerca de 150 lançamentos entre agora e 2030. O número não é abstrato — por trás dele estão satélites de observação terrestre, constelações de internet e missões científicas empilhados em filas de espera que saltaram de 12 para até 36 meses.
O que o relatório mostra
O estudo da Quilty Space compara a demanda projetada de operadores de satélites e agências civis espaciais com a oferta de foguetes comerciais disponíveis. O resultado: um gap estrutural de aproximadamente 150 lançamentos. Se a demanda do setor de defesa dos EUA for incluída — o relatório não considera ainda a explosão recente de pedidos da Space Force — o déficit pode dobrar, estendendo a crise até o final da próxima década.
O ano de 2028 será o ponto crítico. A partir daí, o quadro deve se aliviar gradualmente conforme novos foguetes entram em operação, mas o tempo de maturação é longo e incerto.
Por que a crise chegou agora
A situação é o resultado de múltiplas pressões sobrepostas. A primeira é a decisão da SpaceX de descontinuar a Falcon 9 como serviço comercial. Desde sua estreia em 2010, o foguete reutilizável dominou o mercado, responsável por mais de 80% de toda a massa lançada em órbita. A empresa parou de aceitar reservas para além de 2028, concentrando-se na transição para o Starship. O problema é que o Starship, apesar de ter atingido órbita pela primeira vez em 28 de setembro, será priorizado nos próximos anos para o próprio Starlink — que faturou US$ 11,4 bilhões em 2025, perto de dois terços da receita total da SpaceX — e para projetos de data centers orbitais de IA.
A guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, retirou do mercado ocidental cerca de um quinto da capacidade global de lançamento, incluindo foguetes Soyuz e muitos lançamentos comerciais que dependiam do cosmodromo de Baikonur. A Europa, com seus Ariane, e a Índia, com o PSLV, lançam apenas algumas vezes por ano — capacidade insuficiente para preencher a lacuna.
Já o New Glenn (Blue Origin), o Vulcan (United Launch Alliance), o Neutron (Rocket Lab), o Terran R (Relativity) e o Nova (Stoke Space) — todos projetados para preencher exatamente esse vazio — enfrentam atrasos de desenvolvimento que se estenderam por anos. O New Glenn, que a Blue Origin nunca havia financiado com capital externo em 26 anos, abriu sua primeira rodada de investimentos em 2026 e já estava oversubscribed, com retorno de voo programado para o final do ano. O Vulcan, que finalmente voou em seu debut, ainda não alcançou a cadência necessária.
O paradoxo do sucesso da SpaceX
Matt Hausman, ex-engenheiro da SpaceX na Universidade de Illinois, observou que a crise de capacidade é em parte resultado do próprio sucesso da SpaceX. Ao reduzir o custo de lançamento por um fator de dez ou mais, a empresa tornou muito mais acessível para empresas menores entrarem no espaço. O efeito foi uma explosão de demanda por satélites que nenhum provedor de lançamento sozinho conseguia acompanhar.
O resultado foi um mercado que se tornou investível exatamente pela escassez. O setor de lançadores captou US$ 7,8 bilhões em 2026 pela Pure Launch — recorde histórico — com 58 rodadas de investimento vinculadas ao tema. A Space Capital reportou que, apenas no terceiro trimestre, US$ 92,5 bilhões foram injetados no setor, tornando 2026 o primeiro ano a ultrapassar US$ 100 bilhões em investimento total.
A resposta da indústria
Empresas estão adotando estratégias cada vez mais drásticas. Alguns executivos estão recorrendo a "estratégias custosas para garantir que possam voar", incluindo desenvolver seus próprios foguetes ou potencialmente adquirir uma empresa de lançamento, conforme reportou o Wall Street Journal. Os preços dos lançamentos já começam a subir.
A Europa surpreendeu positivamente: a Isar Aerospace atingiu órbita a partir de Andøya em 5 de setembro, tornando-se o primeiro foguete comercial a decolar do solo europeu ocidental, enquanto o Ariane 6 voou sua primeira missão geoestacionária em agosto. Um foguete europeu já está reservado até 2028 — e está atendendo quem precisa de uma carona.
Na China, o Long March 10B recuperou um booster em mar durante o voo inaugural em julho, e o Zhuque-3 foi aterrissado em agosto. A Índia teve seu primeiro foguete privado em órbita com a Skyroot. Nenhum desses provedores deve permanecer como empresa de lançamentos pura por muito tempo.
O que observar
A crise de lançamentos é um caso raro de mercado que transforma escassez estrutural em incentivo de investimento em escala. A pergunta central é qual provedor preencherá o vácuo em 2028-2030: a China, com sua capacidade integrada de defesa e civil; a Europa, com o Ariane e novos entrantes comerciais; ou os EUA, com Neutron, Nova e outros? Se o governo dos EUA alcançar a meta de 1.000 lançamentos e reentradas por ano até 2030 — aproximadamente cinco vezes a taxa atual — o setor terá que escalar numa velocidade sem precedentes na história aeroespacial.
O que parece um problema de logística de foguetes está se revelando um teste de capacidade industrial que define se o espaço do século XXI será um recurso abundante ou um bem escasso, e quem controla esse recurso controlará a infraestrutura de comunicação, observação e segurança do planeta nos próximos cinquenta anos.
Fontes: Ars Technica, New Scientist, Space Capital
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