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Investigação revela rede de 400+ apps disfarçados com ferramentas de deepfake sexual

Investigação revela rede de 400+ apps disfarçados com ferramentas de deepfake sexual

Uma investigação do WIRED, publicada hoje (2/11), expôs uma rede maciça e sofisticada de mais de 400 aplicativos e domínios interconectados que se apresentam como serviços comuns — geradores de retratos de animais de estimação, aplicativos de aulas de idiomas, coaches de fitness por IA — mas que, sob certas condições, carregam uma interface oculta capaz de gerar imagens e vídeos sexualmente explícitos e violentos a partir de fotos enviadas pelos usuários.

O que torna o caso particularmente grave não é apenas a escala, mas a arquitetura de evasão: os aplicativos passavam pelas revisões da Apple e do Google com conteúdo inofensivo, e depois, por meio de verificações do lado do servidor, alteravam dinamicamente o conteúdo carregado, substituindo o material aprovado por ferramentas de deepfake sexual. Um dos gatilhos identificados é o simples ato de baixar o aplicativo após clicar em um anúncio desses apps nas plataformas da Meta.

A rede por trás da fachada

A análise dos pesquisadores de segurança, incluindo Maël Le Touz, da Infoblox, que mapeou quase 500 domínios vinculados, e Paul Bouchaud, que encontrou 27 apps ativos no Google Play em setembro com mais de 350 mil downloads combinados, revelou um padrão de operação industrializada. A partir do final de 2025, a rede estava registrando dezenas de novos domínios por semana — cerca de 30, em um ponto.

Um dos aplicativos mais emblemáticos é o Viefur, que se autodenomina gerador de retratos de animais de estimação. Na interface principal, o usuário pode enviar uma foto de um hamster e vê-lo vestindo bermuda na praia. Por trás disso, porém, o aplicativo oferece templates com cenários como "estupro no quarto" e "facão na garganta", onde um homem segura uma faca ao pescoço de uma mulher.

O código JavaScript dos sites da rede contém, facilmente acessível, informações sobre toda a operação: lista de todos os domínios e apps criados pelos desenvolvedores, detalhes dos pacotes dos aplicativos, chaves de criptografia, rastreadores de publicidade do Facebook e muito mais. É como se os próprios operadores tivessem deixado a planta da casa dos crimes espalhada pela mesa.

A conexão chinesa

A investigação ligou a rede a desenvolvedores de língua chinesa e a uma entidade registrada em Hong Kong chamada KeLing Technology Limited. A conexão é sustentada por evidências concretas: hospedagem na China, comentários em chinês no código-fonte e marcas d'água de softwares chineses de edição de vídeo nos materiais promocionais. A KeLing não respondeu às solicitações de comentário do WIRED.

A Meta revelou que havia banido a KeLing de sua plataforma de publicidade já em 2025 e, posteriormente, tomou medidas contra contas, páginas e anúncios associados aos domínios da rede — um total de 11.600 contas de anúncio, milhares de páginas e 209 apps. Mas, segundo o WIRED, anúncios e aplicativos semelhantes continuavam aparecendo mesmo ao final da reportagem.

Como as plataformas reagiram

Após o contato com o WIRED, a Apple removeu 19 aplicativos da App Store, incluindo o Viefur. Um porta-voz da Apple, Adam Dema, explicou que os aplicativos cumpriam as regras durante a revisão inicial, mas que os desenvolvedores alteraram o site do qual o app buscava conteúdo após a aprovação, substituindo o material aprovado por pornografia.

A Apple afirmou ter suspendido dezenas de milhares de apps ao longo do último ano por táticas semelhantes de "bait-and-switch" (isca e troca). Em outubro, a empresa já havia fortalecido suas regras contra apps de nudificação e táticas de bait-and-switch, ampliando a proibição para além da App Store oficial, incluindo distribuição alternativa.

O Google, por sua vez, já havia removido a maioria dos aplicativos antes mesmo de ser contactado pelo WIRED. O app DiffAI, com mais de 100 mil downloads na Play Store, foi removido pouco antes da empresa ser contatada. O Google não respondeu à solicitação de comentário.

Um problema mais amplo

Este não é o primeiro caso de apps de deepfake sexual nas app stores. Em agosto de 2026, o WIRED reportou que a Meta rodou anúncios para um app chamado Kromix que promovia deepfakes sexualmente explícitos de mulheres reais, incluindo uma figura política proeminente. Em janeiro de 2026, a investigação do Tech Transparency Project revelou que Google e Apple hospedavam dezenas de apps de "nudificação".

O que distingue esta investigação é a escala industrial da operação. Não se trata de um desenvolvedor amador isolado, mas de uma operação organizada, com infraestrutura técnica robusta, monetização via Apple Pay e Google Pay, e promoção através de milhares de anúncios explícitos no Facebook e Instagram — alguns dos quais direcionavam diretamente para as app stores.

A pesquisa da Infoblox também identificou que os apps verificavam informações como localização e idioma do usuário antes de decidir qual versão da interface exibir. Essa abordagem de conteúdo dinâmico baseado no perfil do usuário é a mesma técnica usada por malwares para direcionar vítimas específicas.

O que observar

O caso levanta questões estruturais sobre o modelo de revisão de apps nas principais plataformas. A Apple afirma revisar todos os apps antes da publicação, mas a capacidade de modificar o conteúdo após a aprovação cria uma brecha que operadores sofisticados podem explorar indefinidamente. A pergunta que fica é se as atualizações nas regras da Apple e as remoções em massa são suficientes para conter uma rede que continua lançando novos domínios e aplicativos enquanto a reportagem era conduzida — ou se o modelo atual de revisão é simplesmente inadequado para lidar com apps que mudam de comportamento em tempo real.

Fontes: WIRED, 9to5Mac, Nuaico

✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação