Adam Mosseri, chefe do Instagram, admitiu algo que poucos executivos de tecnologia ousam declarar em voz alta: a resistência pública à inteligência artificial está apenas começando. Em entrevista ao podcast Colin e Samir, lançado na semana passada, ele não só reconheceu que a ira sobre IA vai crescer — como explicou por que a plataforma não está fazendo quase nada para conter isso.
A declaração direta foi clara. "Não é só estar piorando, vai continuar piorando", disse Mosseri, referindo-se ao sentimento de ansiedade, frustração e raiva que sente crescendo nas indústrias criativas e na população em geral. "Acho que vamos ver mais frustração e raiva, parte fundamentada, parte infundada, nos próximos dois anos, e isso vai tornar a vida difícil para muita gente, não só quem trabalha na indústria."
O que torna essas declarações particularmente interessantes é o contexto. Mosseri não estava falando em um painel acadêmico ou em uma audiência de investidores — estava no podcast mais ouvido do universo de criadores de conteúdo, discutindo a estreia dos vídeos em tela larga e formato longo no Instagram. A pergunta sobre IA veio como tópico natural, num momento em que a plataforma está empurrando criadores a produzir mais conteúdo de uma vez só.
Mas foi exatamente nesse cruzamento — produto, política e sentimento do público — que a entrevista se tornou um dos momentos mais honestos de um executivo de Big Tech sobre IA em 2026.
O paradoxo de Mosseri
Há um contraste direto entre o que Mosseri diz sobre IA e o que o Instagram faz na prática. Em outubro, ele confirmou que a plataforma começou a exigir que contas com personagens gerados por IA se auto-identifiquem. "Acho importante as pessoas saberem se o que estão vendo é real ou não", declarou. Mas também afirmou que "não é prático tentar banir conteúdo de IA".
Esse "não é prático" resume dois anos de estratégia do Instagram em relação à IA. A plataforma não proíbe. Não rótula em escala. Não reduz a entrega de conteúdo gerado por IA no feed — pelo contrário, o algoritmo do Instagram já entrega conteúdo de IA tanto quanto qualquer outro, sem penalidade alguma.
Em matéria separada do The Verge, Mosseri disse que está "trabalhando ativamente em como lidar" com fakes de IA, mas a frase soa cada vez mais como um placeholder estratégico do que uma direção clara. O que ele realmente disse, em detalhes, foi que o problema de roubo de material de comédia por personagens de IA é uma das reclamações mais frequentes nas mensagens diretas da equipe — e que "originalidade" é a resposta principiada, ou seja, trechos copiados seriam tratados como conteúdo não-original, e portanto menos impulsionados.
O que isso revela é uma empresa que reconhece o problema, mas não quer resolver de verdade. Se banir fosse impossível e rótulos automáticos geravam falsos positivos — Mosseri citou o próprio caso de um carrossel dele marcado erroneamente como IA —, por que não investir em detecção melhor? Por que não reduzir a visibilidade de conteúdo claramente gerado por IA, mesmo sem o banir?
A resposta parece estar nas métricas. O Instagram mede sucesso em tempo gasto, engajamento e shares. Conteúdo de IA gera engajamento. Milhões de canais no YouTube já usam ferramentas de IA, e o YouTube, por sua vez, admite que 20% do conteúdo mostrado a contas novas é "vídeo de IA de baixa qualidade" — mas também que alguns canais de IA ganham milhões por ano em views. O Instagram está na mesma encruzilhada: o conteúdo de IA preenche o feed, mantém as pessoas rolando, e os anunciantes pagam por atenção, independentemente de quem ou o que criou a imagem.
"Existe muita coisa boa de IA no Instagram", Mosseri admitiu, "mas também existe muita besteira de IA". A palavra que ele usa — "slop" — apareceu pela primeira vez num slide de final de ano da plataforma, e agora ele diz que o termo é usado "demais". É um movimento interessante de desdizer: primeiro cunhou o conceito, depois tentou minimizá-lo quando os criadores começaram a se sentir ameaçados por ele.
A questão que Mosseri levanta sobre os criadores é ainda mais reveladora. Ele disse que o programa de pagamentos por vídeo do Instagram é "ROI negativo" — a plataforma gasta muito mais do que recupera — e que escalá-lo "não faz sentido". Criadores que recebem dinheiro da plataforma "não produzem muito conteúdo extra", e quando produzem, muitas vezes é pior do que o que já postavam de graça. Sem esse salto, pagar criadores só transfere visualizações de um vídeo para outro.
É aqui que a crítica de Mosseri à IA se revela como uma defesa disfarçada do status quo. Se pagar criadores não funciona, e banir IA também não, então a solução é deixar o feed como está — cheio de besteira de IA, misturado com conteúdo bom de IA, e todo o resto. O problema não é a IA; o problema é que o algoritmo não reconhece qualidade ainda. Ou seja, a responsabilidade pela qualidade do feed recai sobre os criadores, e não sobre a plataforma.
A raiz do medo
Mosseri identificou algo que pesquisadores de mídia social já observam nos dados, mas raramente é declarado por um executivo: o medo de ser substituído. "Acha que tudo se resume a um medo de ser deixado para trás em alguma forma", disse ele, referindo-se àqueles que temem que a IA tome seus trabalhos — seja criador de conteúdo, engenheiro ou matemático.
Esse medo não é novo. Já apareceu em formaturas onde estudantes vaiavam CEOs de tecnologia, já apareceu em pesquisas mostrando que 40% dos apps empresariais terão agentes de IA embutidos até o final de 2026, e já apareceu em relatórios da IAB (Interactive Advertising Board) documentando o efeito da IA na economia criativa. Mas o que diferencia a reação de 2026 das ondas anteriores de preocupação com tecnologia é a intensidade. Não se trata mais de "a IA vai mudar o mercado de trabalho"; trata-se de "a IA já está mudando, e eu não sei como me adaptar".
Mosseri não oferece uma solução para isso. Não propõe programas de requalificação, não sugere limites éticos para o uso de IA na plataforma, e não propõe qualquer mecanismo de proteção para criadores. Em vez disso, ele resume a questão como um medo universal, quase filosófico, que não tem resposta prática — e então segue em frente.
O silêncio como política
O que a entrevista do Colin e Samir realmente revela não é o que Mosseri disse, mas o que ele não disse. Em 20 minutos de conversa, ele passou menos de 30 segundos falando explicitamente sobre IA. O restante foi sobre algoritmo, monetização, vídeo longo e a concorrência com o YouTube. A IA foi tratada como um tópico de política pública — algo que acontece fora da plataforma, sobre o qual a plataforma pode opinar, mas que não pode mudar.
É uma posição estrategicamente calculada. Se o público acha que o Instagram está cheio de "slop" de IA, a culpa é da IA, não da plataforma. Se os criadores sentem que estão sendo substituídos, a culpa é da tecnologia, não da ausência de um modelo de monetização justo. Se o algoritmo entrega besteira, a culpa é do algoritmo — e o algoritmo é algo que "está trabalhando" em melhorar, mas sem prazo.
No fim, o que Mosseri realmente disse foi que a resistência à IA vai piorar, que isso vai afetar muita gente, e que ele não sabe o que fazer a respeito. A mensagem implícita, porém, é clara: o Instagram vai continuar usando IA para preencher o feed, vai continuar entregando conteúdo de IA tanto quanto qualquer outro, e vai continuar esperando que os criadores se adaptem sozinhos.
A pergunta que fica: quando a plataforma finalmente reconhecer que o problema não é a IA, mas o que a IA faz com a plataforma, o que vai acontecer?
Fontes: The Verge, NetInfluencer, The Verge
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