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Adam Mosseri diz que a rejeição à IA só vai aumentar — e os dados confirmam

Adam Mosseri diz que a rejeição à IA só vai aumentar — e os dados confirmam

Na última semana, Adam Mosseri, chefe do Instagram, deu ao podcast Colin and Samir uma declaração que pode soar surpreendente vindo de um executivo de tecnologia: a hostilidade pública em torno da inteligência artificial não vai desacelerar. Pelo contrário. "Não está só piorando", disse Mosseri, "vai continuar piorando". Para ele, a raiz do problema não é a tecnologia em si, mas "o medo de ficar para trás".

O que torna essa frase particularmente reveladora é o momento em que é dita. Mosseri não fala como um cético, mas como um insider que observa o terreno mudar sob seus pés. E a pergunta que vale a pena fazer é: ele está vendo o que ninguém mais quer ver, ou a indústria simplesmente preferiu ignorar os sinais?

O que o CEO do Instagram realmente disse

No podcast, Mosseri foi direto ao responder perguntas sobre a onda de estudantes vaiando CEOs de tecnologia durante as cerimônias de formatura universitária nos Estados Unidos. O fenômeno começou a se intensificar em maio de 2026, quando executivos como Sundar Pichai (Google), Eric Schmidt (ex-Google) e Cathie Duncan (ex-CEO da Inflection AI) foram apupados em discursos de graduação por mencionarem IA de forma otimista.

Mosseri reconheceu que a hostilidade não se limita a jovens e criativos — embora esses sejam os grupos mais visíveis — e que a tendência se espalhou para setores que historicamente eram mais receptivos à tecnologia. Ele também levantou uma questão incômoda sobre o conteúdo gerado por IA no próprio Instagram: "Tem muito conteúdo de IA excelente, mas também muito lixo de IA. Nós classificamos o conteúdo de IA tão bem quanto classificamos o conteúdo não gerado por IA? Provavelmente não."

A confissão sobre a qualidade da classificação algorítmica é interessante porque toca num ponto que a Meta, e muitas outras empresas, evitam admitir abertamente: o modelo sabe que o conteúdo gerado por IA tem menor qualidade, mas a plataforma não quer — ou não pode — penalizá-lo, porque a IA é o futuro do investimento da empresa.

Os dados de opinião pública

O que Mosseri diz em uma frase, os números confirmam em escala. Um recente levantamento conjunto do The Washington Post, ABC News e Ipsos com mais de 2.500 adultos americanos mostrou que 57% dos norte-americanos consideram a IA "ruim" para a sociedade, contra 42% que a veem como "boa". Entre os que têm opinião forte, a disparidade é gritante: 17% classificam a IA como "extremamente ruim", enquanto apenas 2% a consideram "extremamente boa".

Os números variam por faixa etária e linha política. Jovens (até 30 anos) são mais críticos: 65% veem a IA como ruim, contra 53% dos maiores de 40 anos. Entre democratas, 63% são negativistas; entre independentes, 58%; entre republicanos, 51%. É um padrão que desmonta a narrativa de que a oposição à IA é um movimento elitista ou puramente criativo — atravessa gerações e espectro político.

Um levantamento da Quinnipiac University Poll em setembro de 2026 mostrou que 73% dos americanos consideram a IA uma ameaça séria à sobrevivência humana. O mesmo poll apontou que 72% se opõem à construção de data centers em sua comunidade — um salto de 65% no levantamento anterior de março. Ou seja: a oposição não só existe como se fortalece.

A CNN também reportou em setembro que 9 em cada 10 americanos estão "mais preocupados do que entusiasmados" com a possibilidade de a IA superar a inteligência humana. E o Annenberg Public Policy Center revelou em agosto que 68% dos americanos acreditam que o governo fez "pouco demais" para regular a IA — número estável desde a primavera.

O paradoxo dos criadores

O que Mosseri tocou em seguida foi talvez o ponto mais sensível para o futuro da IA: a questão dos empregos. "Eles estão preocupados com a perda de emprego", disse ele, "com a IA substituindo o que quer que seja que você faça, se você é um criador de conteúdo, engenheiro ou matemático".

Essa não é uma preocupação hipotética. Um relatório da McKinsey de 2025 estimou que até 30% das horas de trabalho nos países ocidentais podem ser automatizadas até 2030, com impacto particular em funções de entrada. Dados do Bureau of Labor Statistics dos EUA mostram que as contratações para funções de nível introdutório em tecnologia já caíram 18% em comparação com 2022.

O paradoxo é que os criadores que mais usam IA (designers, escritores, roteiristas, músicos) são também aqueles mais ameaçados por ela. O mesmo Mosseri que admite o "lixo de IA" também precisa manter a plataforma crescendo — e a IA é a única aposta real de crescimento do Instagram, que viu o tempo médio de uso estagnar desde 2023.

A indústria prefere ignorar

A reação de Sundar Pichai ao ser vaiado em Stanford foi reveladora. Em vez de ouvir os estudantes, Pichai disse que eles "vão conviver com o impacto da tecnologia" — uma linha que soou como desdém para muitos observadores. Sarah Kreps, professora de Cornell que estuda reações sociais a novas tecnologias, resumiu em uma frase: "Esses executivos não estão lendo a sala".

Mas há uma nuance importante. A rejeição não é irracional — é contextual. Segundo Brian Merchant, jornalista e crítico de tecnologia, "Eu também vaiaria com força a perspectiva dessa próxima revolução industrial se eu fosse um jovem de vinte e poucos anos, desempregado, com aspirações de carreira maiores do que inserir prompts em um LLM". É uma descrição precisa de como é se formar em tecnologia em 2026.

O que Mosseri captou com precisão é que a raiz emocional dessa hostilidade não é o anti-tecnologismo, mas o medo genuíno de obsolescência. Quando você passou anos construindo uma carreira em criatividade ou análise, e de repente descobre que a ferramenta que seu empregador está comprando pode fazer 60% do seu trabalho por uma fração do custo — a raiva não é um defeito de caráter, é uma resposta racional.

O que vem a seguir

A pergunta que se coloca não é se a hostilidade vai melhorar, mas o que a indústria fará a respeito. Até agora, a resposta tem sido a mesma: acelerar. Mais modelos, mais capacidades, mais implantação. Mas essa estratégia pressupõe que o mercado vai aceitar o que a indústria entrega — e os dados de opinião sugerem o contrário.

Enquanto isso, o próprio Mosseri trabalha para uma empresa cuja receita publicitária depende diretamente de engajamento na plataforma. Se mais pessoas são hostis à IA, menos elas interagem com conteúdo gerado por IA. Se a qualidade do conteúdo cai (como ele mesmo admitiu), o engajamento cai. O ciclo se fecha.

A tensão entre a estratégia corporativa e a percepção pública não é nova em tecnologia. A indústria farmacêutica enfrentou um problema semelhante nos anos 2000 quando a confiança pública em novos medicamentos começou a cair — e descobriu que não adianta ter o produto melhor se o público não quer usá-lo. O desafio da IA será o mesmo: convencer uma população que já decidiu que não quer, por que deveria mudar de ideia.

Fontes: The Verge, Futurism, POLITICO, The Guardian, Business Insider

✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação