A Amazon deu um passo significativo em sua estratégia de conectividade via satélite ao protocolar na última sexta-feira, 24 de julho de 2026, um pedido de autorização à FCC (Federal Communications Commission) para implantar até 5.105 satélites de nova geração projetados para oferecer conectividade celular direta a dispositivos móveis comuns — sem necessidade de antena ou hardware especial. O pedido, revelado por múltiplas fontes nesta segunda-feira, representa a tentativa mais ambiciosa da empresa de competir diretamente com a Starlink da SpaceX no emergente mercado de internet via satélite para celulares.
A nova constelação, operada pela subsidiária Amazon Leo (antigo Project Kuiper), usará o espectro de radiofrequência recém-adquirido com a compra da Globalstar por US$ 11,6 bilhões em abril de 2026. A aquisição, aprovada pelos acionistas da Globalstar em junho, deu à Amazon acesso às bandas L e S — espectro globalmente licenciado e ideal para comunicações diretas com dispositivos móveis. Diferente dos satélites de banda larga da constelação Kuiper original (que exigem terminais dedicados), estes novos satélites serão otimizados para se comunicar diretamente com celulares 4G e 5G comuns.
O momento do pedido não é casual. A SpaceX já oferece o serviço "Direct to Cell" da Starlink em parceria com operadoras como T-Mobile nos EUA, e a AST SpaceMobile — outra concorrente — tem seus próprios satélites em órbita teste. A Amazon entra nesse mercado com uma vantagem importante: o espectro da Globalstar já é usado por dispositivos de emergência e rastreamento em todo o mundo, o que pode acelerar a aprovação regulatória. Além disso, a empresa já tem 3.236 satélites Kuiper autorizados pela FCC para banda larga, dos quais centenas já estão em órbita — oferecendo uma base de infraestrutura que as concorrentes não têm.
A proposta da Amazon é ambiciosa não apenas pelo número de satélites, mas pela abrangência dos serviços planejados. Segundo documentos da FCC obtidos pela imprensa, a constelação D2D (direct-to-device) oferecerá inicialmente mensagens de texto e chamadas de emergência, evoluindo posteriormente para voz, dados e IoT industrial. A empresa afirma que o sistema permitirá que operadoras móveis estendam sua cobertura para áreas remotas atualmente sem sinal — um mercado estimado em mais de 400 milhões de pessoas globalmente.
A implantação está prevista para começar em 2028, mas o cronograma depende de aprovação regulatória e testes de qualificação de hardware. A FCC terá que avaliar questões complexas, incluindo coordenação de espectro com satélites existentes, potencial de interferência com serviços terrestres, e mitigação de detritos espaciais. A Amazon argumenta que seus satélites serão projetados para desorbitar em no máximo cinco anos após o fim da vida útil, seguindo as melhores práticas do setor.
O movimento também tem implicações geopolíticas. A capacidade de conectar qualquer celular comum diretamente via satélite tem aplicações óbvias em defesa, resposta a desastres e segurança nacional. Com a SpaceXAI (braço de IA da SpaceX) também atuando no setor e a AST SpaceMobile tendo contratos com o Departamento de Defesa dos EUA, a Amazon precisa demonstrar que pode entregar capacidade comparável. A aquisição da Globalstar — cujo espectro é usado por dispositivos de emergência tipo SPOT — alinha-se perfeitamente com essa narrativa.
A questão que fica é se a Amazon conseguirá executar no prazo prometido. Seu histórico com o Project Kuiper é misto: os primeiros protótipos enfrentaram atrasos e custos maiores que o previsto, e a empresa ainda não oferece serviço comercial de banda larga via satélite. Se a Amazon conseguir lançar a constelação D2D até 2028, ela terá feito em dois anos o que a SpaceX levou quatro para construir. Se não conseguir, o espectro da Globalstar e os 5.105 satélites autorizados serão ativos valiosos — mas subutilizados.
Fontes: SatNews, CNBC, ISPreview UK, About Amazon