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Amazon planeja rede global de satélites para celulares até 2028

No sábado, 26 de julho de 2026, a Amazon submeteu um pedido à Federal Communications Commission (FCC) dos EUA para construir uma nova constelação de 5.105 satélites em órbita baixa da Terra (LEO) projetada especificamente para conectar smartphones comuns diretamente do espaço — sem necessidade de hardware especial, antenas externas ou qualquer modificação no aparelho. O plano prevê que os primeiros satélites sejam lançados em 2028, numa escala que supera em quase 60% a constelação original do Projeto Kuiper.

É fundamental entender que esta não é o Projeto Kuiper, a constelação de banda larga da Amazon com cerca de 3.236 satélites que já tem 375 unidades em órbita. Esta é uma constelação separada, quase duas vezes maior, focada exclusivamente em conectividade direta ao dispositivo (direct-to-device ou D2D) — o mesmo tipo de serviço que a Starlink (SpaceX) testa com a T-Mobile desde 2024 e que a Apple já oferece via Globalstar para emergências no iPhone 14 e modelos posteriores.

A conexão com a Globalstar é justamente o elemento mais estratégico de todo o plano. No início de 2026, a Amazon anunciou a aquisição da Globalstar por US$ 11,57 bilhões — a mesma empresa que fornece o Emergency SOS via satélite para iPhones. O pedido à FCC deixa explícito que a nova constelação "usará o espectro da Globalstar" e que a Amazon planeja "colaborar com a Apple em futuros serviços de satélite usando a rede expandida". Isso significa que a Apple pode se beneficiar de uma constelação moderna de mais de 5.000 satélites para substituir a frota envelhecida de 24 satélites da Globalstar, ampliando drasticamente a capacidade dos serviços de satélite do iPhone.

Tecnicamente, os satélites da Amazon se diferenciam por processar sinais em órbita antes de retransmiti-los à Terra — um payload regenerativo que reduz latência, aumenta capacidade e permite beamforming flexível. Em vez de simplesmente amplificar e encaminhar (como satélites "bent-pipe" tradicionais), eles demodulam, roteiam e remodulam os sinais a bordo. Para desenvolvedores, isso significa latência mais baixa para aplicações em tempo real (voz, jogos, controle remoto) e maior capacidade por célula.

O pedido também solicita permissão para usar o espectro da Iridium fora dos EUA, colocando a Amazon em rota de colisão com a Rocket Lab, que está em processo de aquisição da Iridium. O espectro L-band é um dos ativos mais valiosos para comunicação direta ao dispositivo por sua capacidade de penetrar edifícios e funcionar em ambientes fechados. O modelo de parceria com operadoras segue o manual da Starlink/T-Mobile: usar o espectro licenciado das operadoras, suas relações com clientes e sistemas de cobrança. A Amazon compete com Starlink (já em beta com a T-Mobile), AST SpaceMobile (cinco satélites BlueBird testando com AT&T e Verizon) e Lynk Global. A escala de 5.105 satélites, se concretizada, supera todos eles, mas o espaço é implacável — 2029-2030 é um palpite mais realista para cobertura significativa.

O movimento da Amazon representa uma escalada significativa na corrida espacial comercial. Diferentemente da Starlink, que começou como um serviço de banda larga fixa e só depois adicionou capacidade móvel, a Amazon está projetando sua constelação D2D desde o início com o celular como alvo principal. Isso significa que a arquitetura de rede, os payloads dos satélites e as parcerias com operadoras já nascem desenhados para o consumidor comum. O acordo com a Apple adiciona uma camada extra de credibilidade: ter a empresa mais valiosa do mundo como cliente âncora dá à Amazon alavancagem financeira e regulatória que poucos concorrentes têm. A pergunta que fica é se a Amazon conseguirá executar o ambicioso cronograma de lançamentos — colocar mais de 5.000 satélites em órbita em três anos exigiria um ritmo industrial sem precedentes na história espacial.

Fontes: The Verge, Reuters, Ars Technica