O招股 de Anthropic para sua oferta pública inicial (IPO) não revela apenas números financeiros — ele expõe uma verdade física que a indústria de inteligência artificial prefere manter nos bastidores. Em um documento de 318 páginas submetido à Securities and Exchange Commission (SEC), a empresa admite explicitamente que alguns de seus data centers planejados utilizarão turbinas de gás natural localizadas no próprio local para gerar eletricidade, e classifica o suprimento de energia como um dos principais riscos ao seu negócio.
A menção ao gás natural não é acidental nem marginal. A palavra "energy" aparece 14 vezes na seção de riscos do documento, enquanto "climate" ou "climate change" surge quatro vezes. O que está em jogo é estrutural: Anthropic estima que precisará de data centers de 2 gigawatts (GW) em 2027 e de 5 GW até 2028 para treinar seus modelos frontier. Diversas outras empresas de IA dos Estados Unidos estão competindo pelos mesmos recursos energéticos, e a projeção é que a demanda total por IA frontier nos EUA alcance 20 a 25 GW até 2028 — aproximadamente o dobro da demanda de pico de eletricidade de Nova York.
A estratégia Anthropic Direct
Para reduzir sua dependência dos provedores de cloud concorrentes (principalmente Amazon e Google Cloud), Anthropic está implementando uma estratégia chamada "Anthropic Direct", que consiste em estabelecer seus próprios data centers. A empresa tem compromissos futuros de pagamento fixo ou mínimo garantido de aproximadamente US$ 567 bilhões, sendo US$ 265,6 bilhões apenas em leases de equipamentos e data centers. Desses, US$ 125,2 bilhões representam aluguéis de lease por cinco anos, sem juros.
No modelo Anthropic Direct, parceiros terceirizados garantem o terreno, a energia e a infraestrutura, enquanto Anthropic assume o controle operacional. Mas essa transição para data centers dedicados tem um custo energético que a empresa não esconde: competição por suprimento elétrico e por locais com capacidade energética suficiente está "acelerando custos" e gerando "atrasos significativos na construção".
O paradoxo do gás natural
A ironia é estrutural. Anthropic, assim como outras empresas de IA, se posiciona publicamente como defensora da sustentabilidade. No entanto, o S-1 revela que a empresa reconhece abertamente que a infraestrutura de IA que constrói depende fortemente de combustíveis fósseis. O documento afirma:
"Nossa estratégia depende de parceiros de energia e data center que compartilham nossos valores ambientais." A seguir, porém, admite que "a falta de acesso a energia, água ou outras infraestruturas críticas" pode "atrasar significativamente a expansão".
O contexto setorial é ainda mais revelador. Segundo dados da BloombergNEF, os data centers dos EUA poderiam consumir mais gás natural do que Alemanha e Japão combinados até 2035 — cerca de 18 bilhões de pés cúbicos por dia. Em setembro de 2026, o Google e a Amazon anunciaram planos para novas usinas de gás natural que contornam a rede elétrica tradicional, entregando eletricidade diretamente aos data centers.
A própria Anthropic publicou em outubro de 2026 seu relatório "Build AI in America", que propõe acelerar o licenciamento de usinas de energia geotérmica, gás natural e nuclear como parte de uma estratégia nacional de infraestrutura. Em outro post, a empresa prometeu cobrir aumentos de preço de eletricidade que consumidores enfrentam devido aos seus data centers — mas o documento de risco deixa claro que a empresa não consegue controlar o mercado de gás natural.
Riscos financeiros e regulatórios
O S-1 detalha riscos concretos: aumentos de custos de combustível, atrasos na entrega de equipamentos, regulação ambiental mais rigorosa, e resistência de comunidades locais. A empresa cita explicitamente "calamidades naturais, como incêndios florestais na Califórnia" como ameaça à infraestrutura energética.
O que torna essa revelação particularmente significativa é o timing: Anthropic está se preparando para entrar na bolsa de valores com uma avaliação estimada de US$ 2,5 trilhões (considerando a rodada de US$ 1,25 trilhao da OpenAI). Investidores institucionais, fundos de pensão e gestores ESG estão analisando minuciosamente esses documentos. A empresa admite que "pode enfrentar escrutínio aumentado" de investidores e comunidades locais, mas não oferece um plano claro para mitigar essa dependência.
A pergunta que permanece não é se a IA vai consumir energia — isso é fato consumado —, mas quem vai pagar a conta quando o gás natural se esgotar ou os preços dispararem. Anthropic está construindo a infraestrutura mais ambiciosa da história da computação, e o combustível que a move ainda é o mesmo que queimava nas fábricas do século XIX.
Fontes: Heatmap, Fortune, AI Parabellum
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