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Europa quer triplicar data centers até 2030, mas a energia é o gargalo

O dilema energético da ambição digital europeia

A Europa está diante de um paradoxo cada vez mais difícil de resolver: a Comissão Europeia quer triplicar a capacidade de data centers em cinco a sete anos, num esforço para fortalecer a independência tecnológica e a soberania digital do continente. Mas a infraestrutura elétrica existente já está mostrando sinais severos de sobrecarga nos principais centros de dados — Frankfurt, Londres, Amsterdã, Paris e Dublin (o chamado cluster FLAP-D), que concentravam 25% da capacidade global em 2015, hoje respondem por apenas 15%.

O problema não é apenas teórico. Dublin e Amsterdã já foram obrigados a pausar novos projetos, citando a falta de disponibilidade na rede elétrica e a incapacidade de integrar novas cargas de grande porte. Na Irlanda, os data centers consumiram 22% de toda a eletricidade do país em 2024, contra apenas 5% em 2015. A pressão levou a um congelamento plurianual de novas conexões na área de Dublin, e apenas recentemente o governo irlandês publicou um Large Energy Action Plan para tentar habilitar o desenvolvimento de instalações intensivas em energia — mas os críticos argumentam que o setor está minando as metas climáticas nacionais.

Na Holanda, a oposição de moradores locais e agricultores, citando emissões de nitrogênio e danos ambientais, forçou o cancelamento do projeto massivo da Meta em Zeewolde. Amsterdã impôs restrições de zoneamento e pausas em novos desenvolvimentos.

A escala do desafio

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers são responsáveis por cerca de 1,5% — ou 415 terawatt-hora (TWh) — do consumo total de eletricidade mundial. As projeções indicam que esse consumo deve mais que dobrar para 945 TWh até 2030, impulsionado principalmente pelo crescimento da computação acelerada intensiva em energia, usada majoritariamente para fins de inteligência artificial.

Na União Europeia, os data centers consumiram cerca de 68 TWh em 2024. Impulsionados pela IA, espera-se que esse número chegue a 114 TWh até 2030 — mais de 3% de toda a demanda elétrica da UE, segundo a IEA. A participação da IA nesse consumo deve saltar de 14% em 2025 para 27% em 2027.

O tempo de espera para garantir uma conexão à rede elétrica varia de dois a dez anos, dependendo do país. Nos hubs FLAP-D, as filas para obter uma conexão chegam a sete a dez anos. Segundo a ACER (Agência Europeia de Cooperação de Reguladores de Energia), os custos diretos de congestionamento da rede chegaram a EUR 4,3 bilhões em 2024 — sem incluir os custos indiretos, como as consequências econômicas dos atrasos nos projetos.

Com base na análise da IEA, a capacidade implícita pela carteira de projetos é de aproximadamente 130% da capacidade instalada hoje. Porém, até 2030, a capacidade instalada na Europa deve crescer apenas 70% comparada a 2024, em parte devido a atrasos e restrições locais como o congestionamento da rede. Em outras palavras: a promessa de triplicar a capacidade esbarra na realidade de que a infraestrutura de transmissão não consegue acompanhar o ritmo.

A resposta regulatória

Em 21 de setembro de 2026, a Comissão Europeia propôs um esquema comum de classificação para data centers, visando aumentar a transparência sobre seu uso de energia e apoiar sua integração sustentável no sistema energético europeu. O esquema cobrirá data centers individuais com capacidade acima de 500 kW e incluirá indicadores sobre contribuição para a rede, reutilização de calor residual, adição de capacidades de energia limpa e flexibilidade.

O impacto potencial é significativo: reutilizar cerca de metade de todo o calor residual dos data centers europeus equivale à demanda total de aquecimento de 4 milhões de lares na Europa. As primeiras etiquetas de sustentabilidade para data centers individuais devem aparecer em 2027, com uma revisão do esquema prevista para o final de 2028.

A Comissão também lançou uma consulta pública sobre padrões mínimos de desempenho para data centers, com publicação da proposta legislativa prevista para o segundo trimestre de 2027.

O caminho adiante

A IEA recomenda um conjunto coordenado de políticas: simplificar pipelines de projetos, melhorar a gestão de filas de conexão à rede, priorizar áreas com capacidade de rede disponível, adotar conexões não firmes (onde usuários aceitam curta-entrega sob condições específicas) e investir em tecnologias de rede inteligente. Baterias em local também podem aliviar a dependência da rede em períodos de alta demanda.

O relatório do Parlamento Europeu, publicado em setembro de 2026, vai além: alerta que a expansão dos data centers gera tensões sociais crescentes, com comunidades enfrentando o impacto direto da infraestrutura intensiva em energia. Na Itália e França, células anarquistas já reivindicaram ataques de incêndio em instalações, citando oposição aos vínculos entre tecnologia, pesquisa e guerra. Em abril de 2026, autoridades em Roma prenderam um suspeito acusado de planejar ataques terroristas anti-tecnologia.

A pergunta final não é se a Europa vai expandir seus data centers — a pressão geopolítica pela soberania digital e pela competitividade em IA é inegociável. A questão é se a Europa conseguirá expandi-los sem sacrificar suas metas climáticas ou esgotar a capacidade das redes elétricas que já estão no limite. O modelo de crescimento linear dos últimos dez anos simplesmente não se sustenta quando o gargalo não é a tecnologia, mas a energia.

A Europa precisa repensar não apenas onde construir, mas como alimentar o que já construiu.

Fontes: IEA, Parlamento Europeu, European Commission

✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação