Binance reinicia saques em fases após o maior hack do setor: 95% dos fundos já foram recuperados
A exchange de criptomoedas Binance anunciou no domingo, 1º de novembro, o início da primeira fase de restauração dos saques de usuários, marcando o primeiro passo concreto de recuperação após o roubo de cerca de 6,3 bilhões de dólares registrado na quinta-feira anterior. O ataque, atribuído pela FBI ao grupo norte-coreano TraderTraitor — a mesma facção responsável pelo hack de 1,5 bilhão de dólares na Bybit em fevereiro de 2025 — continua sendo o maior roubo de ativos digitais já registrado na história do setor.
O que mudou
Os saques foram reabertos progressivamente entre as 06:00 e 09:00 UTC, começando com Bitcoin e estendendo-se a ativos em outras 15 blockchains, incluindo Ethereum, BNB Smart Chain, Tron, Solana, XRP, Zcash, Dogecoin, TON, Polygon, Avalanche, Arbitrum, Base e Optimism. Cada rede e ativo individual passou por verificações de segurança e estabilidade antes de ser liberado, com a exchange anunciando via X que a prioridade foi definida com base nos dados de demanda dos usuários da semana anterior.
Ao menos 4,6 bilhões de dólares em saques foram processados nas primeiras horas da reabertura, segundo a própria Binance, enquanto cerca de 1 bilhão de dólares em depósitos continuou operando normalmente durante todo o período de suspensão dos saques.
A cobertura dos fundos
Um ponto central da comunicação da exchange foi a confirmação de que 95 por cento dos ativos roubados já foram repostos com recursos próprios da empresa, um avanço em relação aos 90 por cento anunciados no dia anterior. Essa reposição incluiu uma aplicação parcial do SAFU (Secure Asset Fund for Users), o fundo de reserva de emergência que a Binance mantém especificamente para incidentes como este — uma reserva de bitcoin e capital próprio que a plataforma acumula ao longo dos anos para situações de crise.
Os dez tokens listados (BTC, ETH, USDT, BNB, SOL, USDC, XRP, USD1, RLUSD e ZEC) já estão com cobertura total de 100 por cento e podem ser verificados no snapshot de prova de reservas publicado pela empresa. Os 5 por cento restantes correspondem a tokens fora do top dez por liquidez, cuja recuperação exige aquisição via mercado e canais OTC, um processo significativamente mais demorado dado o volume necessário.
O co-fundador e co-CEO da Binance, Richard Teng, classificou o ataque de "complexo" em comunicado anterior, revelando que envolvia um laptop comprometido de um engenheiro DevOps e malware projetado para apagar rastros de sua atividade — uma tática que torna a investigação significativamente mais difícil.
A resposta do FBI e as ramificações geopolíticas
A FBI confirmou na sábado, em comunicado oficial conjunto com o USSS (Secret Service) e o IRS-CI (Investigação Criminal do Serviço de Receita Interna), que o grupo TraderTraitor — parte do conhecido Lazarus Group, a mesma organização responsável pelo ataque à Sony Pictures em 2014 — estava efetivamente por trás do hack. A agência listou mais de 60 endereços de ETH, BTC e SOL associados aos atacantes e pediu que empresas do setor privado, operadores DeFi, exchanges instantâneas e firmas de análise blockchain bloqueassem transações com esses endereços.
Segundo a FBI, os ladrões estavam convertendo os ativos roubados principalmente para Ethereum (ETH), com expectativa de que o dinheiro seria lavado adicionalmente através de serviços DeFi e swaps instantâneos — uma cadeia de lavagem que pode levar semanas ou meses para ser totalmente rastreada.
O contexto é alarmante: entre 2016 e o início de 2026, atores ligados à Coreia do Norte roubaram cerca de 6,75 bilhões de dólares em criptomoedas ao longo de 263 incidentes documentados, segundo dados da CertiK compilados pela pesquisadora independente Taylor Monahan. A análise da CertiK concluiu que a Coreia do Norte industrializou o roubo de criptomoedas como um mecanismo central de receita estatal, com os fundos desviados financiando programas de armas de destruição em massa e mísseis balísticos — uma fonte de receita fora do orçamento que complementa as exportações de defesa para a Rússia, documentadas pela inteligência sul-coreana entre 2022 e 2025.
O impacto no mercado e nos usuários
O anúncio do hack causou quedas brutais nas principais criptomoedas na sexta-feira: Bitcoin despencou quase 5 por cento, Ethereum caiu quase 6 por cento e o BNB, token nativo da Binance, perdeu cerca de 10 por cento. A reabertura dos saques trouxe relativa estabilidade, mas a incerteza sobre o ritmo da recuperação completa e a possibilidade de novos vetores de ataque continuam pressionando o mercado.
A questão que fica é se a indústria de criptomoedas está preparada para um novo padrão de ameaça: quando um Estado-nação opera como ator de hacking cripto em escala industrial, com recursos estatais, disfarce de agentes e ferramentas sofisticadas de lavagem via DeFi, a segurança de exchanges centralizadas deixa de ser apenas um problema técnico e passa a ser, efetivamente, uma questão de segurança geopolítica global.
Fontes: CoinDesk, FBI, Cointelegraph
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