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Boom Supersonic: o avião supersônico que virou para a energia da IA

Boom Supersonic: o avião supersônico que virou para a energia da IA

Em outubro de 2026, a Denver, Colorado, ganhou uma fábrica que não fabrica chips nem servidores, mas turbinas a gás. A Boom Supersonic, empresa que há anos tenta ressuscitar os voos supersônicos comerciais, anunciou a inauguração de sua nova instalação dedicada à produção do Superpower — uma versão estacionária de sua turbina Symphony, projetada para alimentar data centers de inteligência artificial. A mudança de rota é ambiciosa, mas os sinais não são bons: o CEO da United Airlines, Scott Kirby, afirmou em outubro que a data de entrega do Overture em 2029 "não vai acontecer" e que "vai levar muito mais tempo". Antes disso, a Crusoe — sua primeira cliente no ramo de energia — havia abandonado um contrato de US$ 1,25 bilhão.

A dupla aposta da Boom

A Boom Supersonic foi fundada em 2014 por Blake Scholl, veterano da SpaceX, com a missão de devolver ao céu a velocidade que o mundo pareceu ter abandonado com o Concorde. Em 2024 e 2025, a empresa voou com seu avião demonstrador XB-1, tentando provar que é possível sobrevoar o continente norte-americano em regime de "cruzeiro sem estrondo" — um conceito técnico que depende do fenômeno do corte de Mach, no qual as ondas de choque são refratadas para cima em altitudes específicas.

Em junho de 2026, a Administração Federal de Aviação (FAA) propôs uma regra que anularia décadas de proibição de voos supersônicos comerciais sobre o território dos EUA, seguindo uma ordem executiva do presidente Trump. O marco regulatório parecia favorável. A Boom anunciava que certificaria o Overture e carregaria seus primeiros passageiros pagantes até 2029, com acordos condicionais com United Airlines, American Airlines e Japan Airlines.

Mas a Boom não estava contando apenas com os céus. No mesmo ano, a empresa lançou o Superpower — uma turbina estacionária que compartilha cerca de 80% das peças com a Symphony, a turbina aérea do Overture. A ideia era brilhante na teoria: vender turbinas de gás natural para data centers de IA, usar o fluxo de caixa para financiar o desenvolvimento do avião. A Crusoe, um startup de data centers que fornece poder computacional para o OpenAI, assinou como primeira cliente, concordando em comprar 29 turbinas de 42 MW por US$ 1,25 bilhão, com entregas previstas para 2027.

O primeiro cliente se retira

Em setembro de 2026, a Crusoe abandonou o plano. Scholl anunciou em suas redes sociais que a parceria havia sido desfeita porque "as turbinas não fazem mais parte do mix primário de energia em curto prazo da Crusoe". A Crusoe, por sua vez, respondeu que "os planos energéticos não mudaram" — apenas que eles ainda pretendem usar turbinas, "mas não as da Boom". O porta-voz Andrew Schmitt disse que a Crusoe "se mantém flexível, escolhendo as soluções energéticas adequadas para cada site".

A perda do cliente inaugural é um golpe significativo. A Boom havia levantado US$ 300 milhões em dezembro de 2025 principalmente para comercializar o negócio de turbinas. Scholl disse à TechCrunch que a empresa ainda espera entregar cerca de 250 MW do Superpower no próximo ano para outros clientes e atingir 1 GW em 2028.

"Não vai acontecer em 2029"

Scott Kirby, CEO da United Airlines, foi ainda mais direto. Em entrevista ao podcast Office Hours: Business Edition publicada em 28 de outubro de 2026, ele classificou o cronograma da Boom como irrealista.

"A '29 é o cronograma oficial deles. Não vai acontecer em 2029. Vai levar muito mais tempo", disse Kirby ao podcast, conduzido por Monica Langley. A United foi uma das primeiras clientes da Boom, mas Kirby não cancelou sua participação — apenas deixou claro que não está mais convencido do prazo.

A afirmação de Kirby carrega peso particular. Ele não é um analista externo, mas um cliente que já investiu na promessa da Boom. A United, a American Airlines e a Japan Airlines possuem acordos condicionais para comprar o Overture, com depósitos não reembolsáveis — mas sem valores divulgados. Se a United duvida, a incerteza sobre o cronograma se multiplica para os demais parceiros.

O dilema da energia para IA

A mudança da Boom para turbinas de data centers não é apenas uma questão corporacional — é um sintoma de algo maior. A demanda por energia dos data centers de IA está crescendo em um ritmo sem precedentes. A Crusoe levantou US$ 3,9 bilhões em setembro de 2026 para construir "pequenas fábricas modulares de IA", e a própria Boom está tentando vender sua turbina como a solução energética desses empreendimentos.

O paradoxo é que a mesma corrida por infraestrutura de IA que alimenta promessas de supercomputação também cria novas demandas por energia. As turbinas a gás natural ainda são a tecnologia mais disponível para gerar energia em grande escala em tempo real, mas enfrentam resistência de investidores e reguladores preocupados com emissões.

A Boom está no centro dessa tensão. Seu avião supersônico precisa de um motor que voe a mais de Mach 1,7; sua turbina estacionária precisa do mesmo motor, mas parado, alimentando servidores. São dois mercados em duas indústrias completamente diferentes, compartilhando o mesmo núcleo tecnológico.

O que observar

O Overture é um avião que tenta reescrever 60 anos de história da aviação supersônica, que começou e terminou com o Concorde. A turbina Superpower é um produto que tenta provar que a infraestrutura de energia para IA precisa de novas soluções além da eletricidade da rede. Ambas as apostas dependem do mesmo motor.

O ano de 2027 será decisivo para a Boom: se conseguir entregar qualquer unidade do Superpower e manter parceiros energéticos, terá prova de que o negócio de turbinas sobrevive. Se falhar, o Overture perde sua fonte de financiamento secundário e o próprio cronograma de 2029 pode se tornar uma década inteira no futuro.

Fontes: TechCrunch, Mondo News, Forbes

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