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Chatbots estão levando hikingres para o erro, com consequências perigosas

Nos últimos meses, um padrão preocupante tem emergido das trilhas e montanhas de todo o mundo: pessoas ficando perdidas, feridas ou em situação de risco depois de seguir conselhos de assistentes de inteligência artificial. O que começou como casos isolados e quase virais — como o adolescente canadense resgatado pelo helicóptero, ou os três jovens californianos que precisaram de ajuda no Monte Shasta — hoje se revela como um fenômeno sistêmico que preocupa pesquisadores, equipes de resgate e autoridades de parques.

O caso que mais repercutiu ocorreu na província britânica da Colúmbia, no Canadá, onde Bryce Gowryluk, de 16 anos, foi resgatado pelo helicóptero após ficar preso em uma cornija na rota técnica conhecida como Widowmaker Arete, na Montanha Crown. O jovem havia consultado o chatbot Claude, da Anthropic, para planejar sua viagem — pedindo uma lista de equipamentos e validação de que a rota era adequada ao seu nível. O que não ficou amplamente noticiado é que Gowryluk também usou Google Maps e o aplicativo AllTrails para navegar. Ele mesmo reconheceu o erro de navegação: "Foi meu erro; esse foi o meu erro", disse ao The New York Times. Mas a história viralizou com a narrativa de que o chatbot o havia "forçado" a subir uma rota técnica de escalada para a qual não estava preparado.

Paul Markey, gerente de resgate do North Shore Rescue, deixou claro: "A coisa principal é: não confie cegamente na IA como ferramenta de planejamento de rotas", advertindo que os chatbots e aplicativos de navegação não substituem treinamento adequado, experiência e bom senso. O adolescente carregava equipamento adequado para hiking, mas não para o terreno técnico de escalada que encontrou.

O padrão se repetiu de forma igualmente dramática no Monte Shasta, na Califórnia. Três jovens de 20 anos de Roseville consultaram o Gemini, da Google, para planejar sua subida. A IA os orientou a levar muito menos comida e água do que precisavam, classificando a rota como fácil quando era extenuante. Eles escalaram durante oito horas planejadas — mas a ascensão se tornou uma jornada multi-dia quando chegaram ao cume às 19h, horas após o horário recomendado de retorno (meio-dia). Na descida, sem iluminação adequada, entraram no cânion Mud Creek e um deles caiu e feriu o joelho. Passaram a noite na montanha até que equipes de resgate os encontraram no dia seguinte.

O xerife Jeremiah Larue do condado de Siskiyou não teve ambiguidade: "Foi uma falha crítica", disse em comunicado. A IA tende a dar informações favoráveis que fazem o usuário se sentir invencível, e isso causa problemas quando algo pode ser extremamente perigoso. "A IA pode ser uma boa ferramenta, mas não deve ser usada como especialista. Fale com pessoas reais."

A escalada desses incidentes é preocupante. Chip Jenkins, superintendente do Grand Teton National Park no Wyoming, relatou que a porcentagem de visitantes que usam IA para informações de viagem saltou de zero para 26% em apenas um ano. "Acho que essa curva não vai achatar-se", afirmou.

Nick Meyers, diretor do Centro de Alpinismo e Avalanche do Monte Shasta, confirmou que houve pelo menos três incidentes em 2026 nos quais hikingres ou campistas foram enganados pela IA ou confiaram demais nela. Um deles, uma mulher, armou sua barraca perto de um sinal de "Proibido Acampar", insistindo que tinha direito ao local porque a IA lhe dissera que podia. Outro caso envolvia um homem vagando em um início de trilha com um mapa gerado por IA que mostrava características proeminentes no lado errado de uma montanha vizinha.

O fenômeno que Chris Flathmann, professor de computação centrada no ser humano na Universidade Clemson, chama de "rendição cognitiva" é central para entender por que esses incidentes são tão frequentes. Quando humanos trabalham com sistemas de IA, eles podem ficar tão imersos que abandonam o pensamento crítico. Quando a IA finge ser especialista em um tópico não familiar — como terreno de montanha — o usuário não consegue identificar que está errado, porque não possui a expertise necessária. E uma vez que você para de pensar criticamente, é difícil recomeçar, especialmente em situações estressantes ao ar livre.

A pesquisa acadêmica corrobora essa observação. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Irvine e publicado na revista Nature Machine Intelligence demonstrou que os seres humanos tendem a superconfiar em recomendações geradas por IA, mesmo quando essas recomendações contradizem evidências visuais diretas. A confiança não diminui quando o usuário sabe que a IA pode estar errada — pelo contrário, em vários experimentos, a confiança aumentou quando a IA forneceu informações com tom autoritativo.

Os chatbots também têm uma tendência peculiar: dizer ao usuário o que ele quer ouvir, e fazê-lo com autoridade, independentemente de as fontes que consultam serem confiáveis. Claude ou ChatGPT podem responder a uma consulta com direções extensas e conselhos que soam plausíveis mas foram raspados de threads do Reddit e vídeos desatualizados do YouTube — e podem ser inteiramente fabricados.

O que torna a IA particularmente perigosa no contexto de aventuras ao ar livre é que ela não possui nenhum mecanismo interno para sinalizar incerteza. Um chatbot que classifica uma trilha como "fácil" quando na verdade é extenuante soa tão autoritativo quanto um que acerta. A diferença é que, enquanto um guia humano honesto diria "não tenho certeza" quando não sabe, a IA inventa a resposta.

A OECD (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) já emitiu alertas semelhantes sobre viajantes enganados por destinos inexistentes — como o "Cânion Sagrado de Humantay" no Peru — levando a perdas financeiras e riscos físicos. O problema não se restringe a hikingres: viajantes que usam chatbots para planejamento de viagem enfrentam riscos semelhantes em contextos urbanos e rurais.

A questão é que a IA está na fronteira de duas realidades. De um lado, é uma ferramenta poderosa de planejamento: pode ajudar a organizar equipamentos, prever condições climáticas e descobrir trilhas novas. De outro, não entende terreno, altitude, condições meteorológicas em tempo real ou a diferença entre um caminho cênico, um vale não mantido ou uma escarpa de escalada Classe 4.

À medida que a IA se integra cada vez mais em wearables e dispositivos portáteis — smartwatches, fones com assistente embutido, óculos de realidade aumentada — a fronteira entre o planejamento e a execução se dissolve. O usuário médio já não separa claramente quando está "planejando" com IA e quando está "seguindo" a IA. E no mundo real, onde a diferença entre um erro de planejamento e um erro de execução pode significar a vida ou a morte, essa distinção é a mais importante que existe.

Fontes: Wired, High Country News, Business Insider

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