IA no campo: quando a confiança em chatbots custa resgates
Nos últimos meses, equipes de resgate do norte dos Estados Unidos e do Canadá têm atendido a um padrão crescente de chamadas envolvendo pessoas que planejaram expedições ao ar livre inteiramente com a ajuda de chatbots de inteligência artificial. O que começou como casos isolados — um grupo de três jovens resgatados no Monte Shasta, na Califórnia, depois de seguir conselhos imprecisos do Gemini do Google; um adolescente de 16 anos resgatado no Canadá após ter seguido uma rota técnica sugerida pelo Claude da Anthropic — se consolidou em uma tendência alarmante. Parques nacionais e florestas federais reportam aumento expressivo no número de visitantes que buscam informação de IA antes de iniciar trilhas.
O caso mais emblemático ocorreu em setembro de 2026 no Monte Shasta, uma montanha de 4.322 metros no nordeste da Califórnia. Três jovens universitários de 20 anos usaram o Gemini para planejar sua ascensão. O chatbot sugeriu que trouxessem muito pouca comida e água, recomendou carboidratos simples em vez de gorduras — argumentando que estas "levam muito tempo para digerir" — e não alertou adequadamente sobre a importância de tempos de retorno rigorosos. O grupo chegou ao cume às 19h, começou a descer no escuro, um deles tropeçou e machucou o joelho, e passaram a noite em um cânion no Canyon Mud Creek. O xerife do condado de Siskiyou, Jeremiah LaRue, foi categórico: as pessoas estão "confiando em excesso na IA" e precisariam "falar com pessoas reais que sabem como caminhar".
Mas o Monte Shasta não é um caso isolado. No mesmo período, um adolescente de Vancouver, Bryce Gowryluk, de 16 anos, usou o Claude para planejar uma subida em Crown Mountain, uma montanha próximo a Vancouver, na Colúmbia Britânica. O chatbot sugeriu a trilha Crown Gully, uma escalada técnica de classe 4. O jovem acabou preso na base do último headwall da rota Widowmaker — uma via de escalada 5.9 com terreno muito mais exigente do que o esperado. Uma operação de resgate com helicóptero foi necessária. Embora o próprio adolescente tenha dito depois que também consultou Google Maps e AllTrails, o papel da IA foi central nas narrativas e levantou questionamentos sobre até onde a confiança automatizada pode levar.
O fenômeno da "rendição cognitiva"
Chris Flathmann, professor de computação centrada no ser humano na Universidade da Carolina do Sul, cunhou um termo para descrever esse comportamento: "rendição cognitiva". Segundo Flathmann, quando os humanos trabalham profundamente com sistemas de IA, podem acabar desistindo do pensamento crítico. "Quando a IA se passa por especialista em um tópico desconhecido, você não pode contestá-la, porque não tem a expertícia para isso", explicou. E uma vez que você para de pensar criticamente, "é difícil recomeçar", especialmente em uma situação estressante no campo, onde a tomada de decisão rápida é essencial.
Esse fenômeno não é novo na história da tecnologia recreativa. Há cerca de uma década, redes sociais como o Instagram começaram a ser apontadas como fator em acidentes no campo — turistas seguindo fotos de locais perigosos sem considerar condições reais. Antes disso, o Google Maps já havia sido responsabilizado por orientações de navegação equivocadas que levavam caminhantes a trilhas erradas. A IA generativa é apenas a última ferramenta em uma linha contínua de tecnologias que oferecem conveniência em troca de agência.
Números preocupantes
Os dados disponíveis sugerem que o uso de IA para planejamento de atividades ao ar livre está crescendo exponencialmente. Chip Jenkins, superintendente do Parque Nacional de Grand Teton, no Wyoming, reportou que o percentual de visitantes que usam IA para informações de viagem subiu de zero para 26% em um ano. "Estou adivinhando que essa curva não vai achatar", disse Jenkins ao High Country News. Em Grand Teton, houve um aumento marcado no número de pessoas que relataram usar IA para planejamento de viagens.
Apesar disso, os números de resgate ainda não refletem um aumento generalizado. No Monte Shasta, o escritório do resgate de Nick Meyers faz em média uma dúzia de resgates por ano, e 2026 parece ser um ano médio. No Wyoming, as chamadas de resgate caíram de 466 em 2025 para 312 até o momento em 2026, contra 377 no mesmo período de 2024. Mas os especialistas alertam que a correlação entre uso de IA e acidentes pode levar meses ou anos para se materializar em dados estatísticos — o que não diminui o valor dos alertas que as equipes de resgate já estão emitindo.
O que diferencia a IA de redes sociais ou aplicativos de navegação é a natureza persuasiva de suas respostas. Chatbots como Gemini, Claude e ChatGPT são projetados para soar com confiança e autoridade, mesmo quando fornecem informações incorretas. Eles "alucinam" — apresentam informações fabricadas como factuais — e tendem a dizer aos usuários exatamente o que querem ouvir. Um modelo pode gerar rotas detalhadas e conselhos de suprimentos que soam plausíveis, mas que são extraídos de threads do Reddit e vídeos desatualizados do YouTube, ou até serem inteiramente inventados.
A recomendação das equipes de resgate é consistente: nunca confie exclusivamente em IA para planejamento de trilhas ou montanhismo. Consulte fontes oficiais (estações de guardas-florestais, centros de avalancha), use múltiplos métodos de navegação e, acima de tudo, mantenha o senso crítico. A conveniência da IA não vale a vida de alguém.
Fontes: High Country News, PCMag, New York Times
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