Nos bastidores da corrida sem precedentes da tecnologia por capacidade de inteligência artificial, uma resistência silenciosa, porém obstinada, está ganhando força. E o campo de batalha não está nos corredores do Congresso — está nas reuniões de zoning municipal, nas votações do conselho distrital e, cada vez mais, nas próprias urnas.
Dados os números, o fenômeno está longe de marginal. Segundo um survey conjunto da PBS News, NPR e Marist, realizado entre 14 e 15 de setembro de 2026 com 1.280 eleitores registrados, 58% dos americanos acreditam que a construção de novos data centers por empresas como Amazon, Google, Meta, Microsoft e OpenAI terá efeito predominantemente negativo no país. Quando a pergunta é recortada para o âmbito local — construção na própria comunidade —, a oposição salta para 65%, com 43% se declarando fortemente contrários. Apenas um quarto dos eleitores apoia a construção de data centers.
Esse padrão de NIMBYism — "not in my backyard", ou "não em meu quintal" — tem implicações diretas nas eleições legislativas de meio de mandato de 2026. Pelo menos 39 medidas de referendo em oito estados foram colocadas nas urnas em novembro, contra a instalação de data centers. Somente no Ohio, 21 medidas locais estão sendo votadas. Em cidades como Monterey Park, na Grande Los Angeles, uma campanha cidadã conseguiu primeiro uma moratória do conselho municipal e depois a aprovação popular de uma proibição total — o que catapultou organizadores comunitários ao próprio conselho em novembro.
O paradoxo da infraestrutura invisível
Em Brooklyn, onde a presença física de data centers é praticamente inexistente, o debate ganhou contornos surpreendentemente acalorados. Em um evento organizado pela Newsreel, empresa de mídia fundada pelo ex-repórter da Forbes Jack Brewster, com o objetivo de promover discussões sobre as midterm sem distrações digitais, um painel dedicado a data centers se tornou o segundo tópico mais recorrente nas perguntas submetidas pelos participantes.
"Em comunidades rurais, a reação vem da sensação de ser substituído", disse Brewster ao TechCrunch. "Num lugar como Brooklyn, trata-se mais de quem lucra com isso." Quando a repórter da TechCrunch Dominic-Madori Davis perguntou ao público presente quem apoiava a construção de data centers, a resposta foi vaias.
A ironia é que, segundo especialistas, os data centers são uma infraestrutura cada vez mais onipresente nas cifras digitais dos americanos, mas invisível nas suas ruas. O Departamento de Energia dos EUA registrou que os data centers responderam por 4,4% do consumo elétrico americano em 2023, uma cifra projetada para atingir entre 6,7% e 12% até 2028, segundo a Energy Information Administration.
Do zoning para as urnas: como a oposição se organizou
A oposição aos data centers emergiu como um dos raros temas que unem comunidades conservadoras e progressistas. Nos condados rurais da Luisiana e da Pensilvânia, fazendeiros se opõem ao consumo de água e à poluição de áreas de cultivo. Em subúrbios progressistas de Nova Jersey e do Ohio, ativistas ambientais questionam o uso de geradores de emergência a gás natural e o aumento do tráfego de caminhões.
Em Linden (Nova Jersey), o prefeito Derek Armstead e o conselho municipal anunciaram uma proibição total de data centers de IA em todas as zonas de uso do solo, citando consumo de eletricidade, água, poluição, ruído e emissões de gases de efeito estufa. Em El Segundo (Califórnia), um desenvolvedor retirou a proposta de um data center de cinco andares após pressão massiva da comunidade. Em Augusta Township (Ohio), 957 assinaturas foram coletadas para forçar um referendo sobre zoning de data centers.
Segundo o Data Center Watch, quase US$200 bilhões em projetos de data centers foram atrasados, travados ou bloqueados no primeiro semestre de 2026 devido à oposição política e comunitária. O número é revelador: a mesma corrida por infraestrutura que impulsiona a avaliação de trilionários da tecnologia está encontrando resistência em cada nível da governança local.
O que a ciência diz sobre os impactos
Os argumentos da oposição são embasados por pesquisas acadêmicas em crescimento. Um estudo de 2026, conduzido por pesquisadores de universidades americanas, quantificou o impacto dos data centers nos sistemas de água pública — identificando que um data center de porte médio pode consumir até 50 milhões de galões de água por dia, equivalente ao consumo de uma cidade de 40.000 habitantes. Outro estudo da LBN (Lawrence Berkeley National Laboratory) mapeou que a pegada hídrica dos data centers da região do Vale do Silício já supera a de cidades como San Francisco.
Um artigo publicado em maio de 2026 em revista revisada por pares documentou o efeito de ilha de calor urbana causado por data centers, medindo elevações de temperatura ambiente de até 3°C nos arredores de instalações na Pensilvânia. Estudos da Southern Environmental Law Center identificaram que os geradores de emergência a diesel de data centers emitem até 10 vezes mais poluentes locais do que a estimativa declarada pelos operadores.
A resposta da indústria
Os defensores dos data centers argumentam que as instalações geram milhares de empregos durante a construção — embora estudos mostrem que esses empregos são temporários. Empresas como Google e Microsoft divulgaram relatórios afirmando que seus data centers de última geração consomem "zero água" para refrigeração. A Microsoft alegou, em seu relatório de sustentabilidade de 2026, que sua tecnologia de resfriamento a ar elimina a necessidade de consumo de água potável.
O lobby pró-data centers também se intensificou. Super PACs, como o liderado por Mike Vlasto da Good Jobs First, argumentam que "cada comunidade vai fazer sua escolha" e que prevenir a construção em localidades que não querem data centers "não parece uma posição política sustentável".
O que vem a seguir
À medida que a inteligência artificial avança de experimento para infraestrutura crítica, o debate sobre data centers está se transformando em um dos temas centrais da política tecnológica dos EUA. A oposição que começou em reuniões de zoning municipal pode, nas midterm de 2026, definir se a corrida por infraestrutura de IA encontrará barreiras institucionais ou se continuará a avançar sem freios.
A pergunta que fica: se 65% dos eleitores americanos se opõem a data centers em suas comunidades, mas as empresas investem centenas de bilhões de dólares, quem decide o destino da infraestrutura digital dos próximos 20 anos?
Fontes: TechCrunch, PBS News, POLITICO
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