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EA fecha BioWare, lenda dos RPGs, após 30 anos — Mass Effect 5 é cancelado

EA fecha BioWare após 30 anos: o fim de uma era nos RPGs

A Electronic Arts anunciou nesta quarta-feira, 21 de outubro, o fechamento da BioWare, o estúdio que definiu o gênero de RPG por mais de três décadas. A decisão, acompanhada pelo cancelamento do próximo projeto de Mass Effect e pela extinção do escritório de Edmonton, no Canadá, representa uma das perdas mais significativas da indústria de jogos digitais.

A comunicação oficial, publicada nas redes sociais pelo estúdio, foi direta: "Após mais de três décadas de aventuras compartilhadas, a BioWare está se encerrando e o desenvolvimento inicial do próximo projeto de Mass Effect está sendo interrompido". A mensagem foi assinada pelos co-presidentes da EA, Cam Weber e David Tinson, que escreveram uma carta interna descrevendo a decisão como parte de uma reavaliação "deliberada" do portfólio da empresa.

O peso de 31 anos de história

Fundada em Edmonton, Alberta, em 1995 por Greg Zeschuk, Ray Muzyka e Trent Clarkson, a BioWare emergiu de uma pequena equipe independente para se tornar uma das forças mais influentes no desenvolvimento de jogos. Seu catálogo inclui títulos que moldaram gerações de jogadores: Baldur's Gate (1998), Neverwinter Nights (2002), Star Wars: Knights of the Old Republic (2003), a trilogia de Mass Effect (2007–2012), Dragon Age: Origins (2009) e inúmeros outros.

O estúdio foi pioneiro em sistemas de diálogo ramificados, mecânicas de relacionamento com personagens companheiros e estruturas morais orientadas a escolhas — elementos que depois se tornaram padrão em toda a indústria, influenciando desde The Witcher até títulos japoneses de RPG. Essa contribuição técnica e narrativa é o que torna seu encerramento um evento de peso muito maior do que números simples de demissão sugeririam.

Segundo o Bloomberg, cerca de 400 funcionários serão afetados pelas demissões em toda a EA — aproximadamente 3% da força de trabalho global. Desse total, cerca de 50 eram funcionários da BioWare, que operava com menos de 100 pessoas após cortes sucessivos desde 2024.

A dívida de US$ 20 bilhões por trás do fechamento

A decisão não pode ser compreendida fora do contexto da compra alavancada que tornou a EA privada em agosto de 2026. Um consórcio liderado pelo Fundo do Patrimônio Público da Arábia Saudita (PIF), com participação da Silver Lake e da Affinity Partners de Jared Kushner, adquiriu a empresa por US$ 55 bilhões, assumindo cerca de US$ 20 bilhões em dívida.

Segundo o GamesIndustry.biz, a estrutura de capital criada pela operação impõe pressão constante para reduzir custos e aumentar a eficiência. O Bloomberg reportou que a EA havia informado aos investidores que planejava economizar até US$ 700 milhões anualmente, parcialmente através do corte de custos de pesquisa e desenvolvimento.

A BioWare não era a única área afetada. A Variety reporta que a EA também reduziu equipes no estúdio de Skate (que permanecerá ativo, mas com uma equipe menor) e cancelou o "Project Lotus", um jogo de The Sims que estava em desenvolvimento inicial. Além disso, equipes de Respawn e DICE estão sendo consolidadas para trabalhar juntas no próximo Star Wars: Battlefront 3, sinalizando uma concentração de recursos em franquias licenciadas e de baixo risco.

Da ambição ao esquecimento: a trajetória de quedas

A queda da BioWare não foi súbita. Ela se construiu ao longo de vários anos. Em 2019, Anthem, o tiro ao vivo ambicioso do estúdio, encontrou resistência do público e foi descontinuado em janeiro de 2026. Em 2024, Dragon Age: The Veilguard saiu das metas de venda da EA, levando a um corte ainda maior de pessoal que reduziu o estúdio de mais de 200 funcionários em 2023 para menos de 100 em 2025.

Mesmo assim, o futuro parecia brilhante: o próximo jogo de Mass Effect estava em desenvolvimento desde 2020, com teasers mostrando uma narrativa ambientada centenas de anos após os eventos de Mass Effect 3. Veteranos da trilogia original lideravam o projeto. O cancelamento inesperado deixa fãs e profissionais sem saber o que acontecerá com as franquias.*

O que acontece com Mass Effect e Dragon Age agora?

A EA detém os direitos sobre ambas as franquias, mas não anunciou planos para transferi-las para outros estúdios. O cenário oferece dois caminhos plausíveis: as séries podem permanecer em hiato indefinido enquanto a empresa prioriza títulos esportivos e live-service, ou os direitos podem ser vendidos a outro estúdio — interna ou externamente — seguindo o padrão de outras franquias adormecidas da EA, como o recente projeto de Homem de Ferro assumido pelo Motive Studio.

Mark Darrah, ex-produtor executivo de Dragon Age, sugeriu em declarações públicas que os estúdios e propriedades intelectuais restantes da EA podem ser desmembrados e vendidos. Ele especulou que a nova estrutura de propriedade poderia estar intencionalmente configurada para um desmembramento maior — talvez vendendo toda a EA Entertainment para um gigante como a Sony, mantendo a EA Sports separadamente.

O que isso significa para os RPGs?

A BioWare era mais do que um estúdio: era uma referência cultural. Seu fechamento sinaliza uma mudança mais ampla nas prioridades da indústria de jogos, onde franquias esportivas repetíveis e live-service de baixo custo são preferidos a projetos narrativos de alto orçamento e retorno incerto. No mercado atual, um RPG single-player de sucesso pode vender milhões de cópias na lançamento, mas não oferece o fluxo de receita contínua que os investidores modernos exigem.

A pergunta que fica é: sem BioWare para liderar a próxima geração de RPGs narrativos, quem vai preencher o vazio deixado por três décadas de inovação? A indústria já viu estúdios menores tentarem — e falharem — em manter viva a chama. O futuro dos RPGs narrativos pode depender de um novo modelo de financiamento, talvez inspirado em estúdios privados como a Valve, que operam longe da pressão dos acionistas e podem investir décadas em um único projeto.

Fontes: Ars Technica, GamesIndustry.biz, GamesBeat

✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação