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EA fecha BioWare após três décadas e cancela próximo Mass Effect

Após mais de trinta anos, a Electronic Arts encerrou a BioWare — o estúdio que definiu o gênero de RPGs narrativos e deixou uma marca indelevel na cultura dos videogames. A notícia, que circou o mundo gamer no início desta quarta-feira (22), foi confirmada pelo próprio estúdio em suas redes sociais e reforçada em um memorando interno divulgado pela empresa.

A BioWare, sediada em Edmonton, Canadá, foi fundada em 1995 e rapidamente se tornou sinônimo de storytelling imersivo no meio digital. Títulos como Baldur's Gate, Neverwinter Nights, Star Wars: Knights of the Old Republic, a trilogia original de Mass Effect e a série Dragon Age não foram apenas sucessos de vendas — foram experiências que moldaram gerações inteiras de jogadores e elevaram o RPG a patamares narrativos que poucos ousavam imaginar.

Mas a história do estúdio, longe de terminar em grandeza, segue um padrão que tem se repetido pela indústria nos últimos anos: ascensão, declínio gradual e, finalmente, liquidação. E desta vez, a liquidante não são as forças do mercado nem os fãs desiludidos — é a própria empresa que comprou o estúdio em 2007.

O que aconteceu

Segundo reportagem da Bloomberg, a EA está eliminando aproximadamente 400 cargos, o que representa cerca de 3% do total de sua força de trabalho. Destes, cerca de 50 eram funcionários da BioWare — e todos serão afetados. O cancelamento do próximo Mass Effect, que estaria em fase de desenvolvimento inicial, foi confirmado como consequência direta do encerramento.

Cam Weber e David Tinson, líderes da EA, justificaram o movimento em um memorando amplamente divulgado, afirmando que "nossa indústria está mudando rapidamente. Os jogadores têm mais escolhas do que nunca para seu tempo e atenção, a competição está se intensificando e algumas de nossas maiores oportunidades de crescimento estão além dos mercados, plataformas e modelos de negócios nos quais a EA tradicionalmente se destacou".

O memorando também revelou que a EA está fundindo os estúdios Respawn e DICE para focar em um futuro jogo de tiro em primeira pessoa, além de comprometer-se a investir fortemente em Apex Legends, Battlefield, EA Sports, Marvel's Iron Man, o novo Star Wars Jedi, The Sims e Skate.

O contexto de um estúdio em declínio

A BioWare nunca esteve em boa saúde financeira nos últimos anos. Seu último grande lançamento, Dragon Age: The Veilguard, de 2024, recebeu críticas geralmente positivas, mas foi envolto em polêmica que muitos analistas atribuem a um movimento de organização online focado em prejudicar títulos com representações diversas. O jogo vendeu abaixo das expectativas da EA.

Antes disso, Mass Effect: Andromeda, lançado em 2017, encontrou recepção mista — apesar de sua narrativa elogiada, as falhas técnicas e a animação facial caricata mancharam a experiência. Mas o ponto mais baixo veio em 2019, quando a BioWare tentou se reinventar como criadora de um jogo de serviço ao vivo com Anthem. O shooter cooperativo, que buscava replicar o sucesso de franquias como Fortnite e Overwatch, foi um fracasso monumental. Seus servidores foram desligados permanentemente em janeiro de 2026.

Mesmo assim, havia esperança. Em 2025, a EA havia reestruturado a BioWare para focar em um único projeto de cada vez, com a promessa de que esse projeto seria o próximo Mass Effect. O estúdio parecia ter encontrado o caminho de volta. Em vez disso, o caminho foi fechado.

O que isso significa para os fãs

Para os milhões de jogadores ao redor do mundo, a notícia é devastadora. Mass Effect é mais do que uma franquia — é uma das três grandes sagas de ficção científica do século XXI, ao lado de Halo e The Legend of Zelda. Dragon Age, com seus quatro jogos principais e inúmeras expansões, revolucionou o RPG de fantasia medieval ao introduzir escolhas morais complexas e personagens memoráveis.

Os jogadores já possuem todos os jogos da BioWare e continuarão podendo baixá-los e jogá-los. Mas o futuro das franquias está em aberto. Mark Darrah, produtor executivo da BioWare entre 1997 e 2021, sugeriu em entrevista que a EA pode estar "mais propensa" a vender os direitos de Mass Effect e Dragon Age, já que o estúdio que os criou não existe mais. Por outro lado, Darrah alertou que a nova propriedade — composta pelo Fundo Soberano da Arábia Saudita (PIF), a Silver Lake Partners e a Affinity Partners, fundada pelo filho do presidente Donald Trump, Jared Kushner — poderia simplesmente "enterrar as franquias em um cofre".

A questão é que, com a venda de 55 bilhões de dólares da EA ao consórcio liderado pelo PIF, fechada em agosto de 2026, a nova proprietária tem tudo a ganhar com a preservação dos IPs e tudo a perder com a negligência. Por outro lado, a BioWare já demonstrou que não precisa de um estúdio dedicado para que um IP floresça — basta criatividade, orçamento e vontade.

O legado

A BioWare será lembrada como o estúdio que provou que videogames podem contar histórias tão profundas e emocionantes quanto qualquer livro ou filme. Mass Effect, com sua trilogia de escolhas reais com consequências permanentes, é frequentemente citada como a maior saga de RPG já criada. Dragon Age: Origins, lançado em 2009, é considerado por muitos críticos o maior RPG de todos os tempos.

Mas o legado da BioWare também inclui lições dolorosas sobre o que acontece quando um estúdio genial é submetido às pressões de um publisher focado em lucros de curto prazo. Anthem foi o erro que quebraram. Andromeda foi o erro que perdoaram. Veilguard foi o erro que tentaram disfarçar. E agora, o erro final: assumir que um estúdio pode ser reerguido sem os recursos e a confiança que ele precisa.

O que resta é uma pergunta que os fãs de Mass Effect já conhecem bem: quando as vozes do sistema se apagam, o que resta de nós? A resposta, neste caso, está em 28 anos de jogos que mudaram o mundo. E, embora o estúdio tenha fechado, esses jogos não vão a lugar nenhum. Eles são imortais — assim como os mundos que criaram.

Fontes: PCMag, The Associated Press, GamesRadar

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