A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) prepara proposta para desmontar as regras de emissão de metano impostas pela administração Biden em 2024, um movimento que os críticos estimam como responsável pela perda de 58 milhões de toneladas de metano e 590 mil toneladas de poluentes tóxicos até 2038. A proposta foi anunciada pelo presidente Donald Trump durante um comício no Texas, em Lubbock, na noite de terça-feira (27), em uma jugularada política que antecede as eleições legislativas de meio de mandato na próxima semana.
A proposta da EPA, cujo texto preliminar foi examinado pelo The Washington Sun, prevê três mudanças centrais: a eliminação do Programa de Superemissores de Metano, criado pela administração anterior para identificar e responder a grandes vazamentos; o relaxamento dos requisitos de inspeção de vazamentos e atualizações de equipamentos para poços de baixa produção (responsáveis por menos de 5% do suprimento nacional de petróleo e gás, mas que produzem mais da metade das emissões de metano do setor); e a flexibilização das restrições ao flare, a queima de gás natural em excesso, que em 2023 foi responsável por 5,6 bilhões de dólares em custos de saúde e impactos climáticos nos EUA, segundo pesquisa do Environmental Defense Fund (EDF).
O contexto político não é disfarçado. Trump anunciou a medida durante um comício de campanha em Lubbock, Texas — região chave do petróleo americano —, buscando estimular a produção doméstica e pressionar candidatos republicanos nas próximas eleições. Segundo o Reuters, o presidente afirmou que a medida "desbloquearia 210 milhões de barris adicionais de petróleo". A narrativa de Trump é de redução de custos para a indústria e estímulo à produção energética, mas o histórico da administração mostra um movimento sistemático de desmonte das proteções ambientais.
Desde março de 2025, quando a administração Trump anunciou que deixaria de fazer cumprir as regulamentações de metano, a indústria do petróleo e gás vazou, liberou ou queimou gás natural no valor de quase 7 bilhões de dólares, segundo o EDF. Esse período de ausência de fiscalização já equivaleria a mais da metade da economia anual do valor do gás natural nos EUA, sugerindo que o impacto financeiro da inação é colossal.
A oposição ao rollback vem de múltiplas frentes. Luke Metzger, diretor executivo da Environment Texas, afirmou que "essa rollback permitiria que as empresas de petróleo e gás cortassem custos enquanto as famílias pagam com a saúde". Metzger destacou que a poluição do ar gerada pelo petróleo e gás contribui para crises de asma e mortes prematuras, enquanto o metano aquece o planeta. "Os texanos que vivem perto dos poços, incluindo crianças em escolas creches próximas, merecem proteções mais fortes", disse.
Jon Goldstein, vice-presidente de Transição Energética do EDF, criticou a proposta como um "salvo-conduto para poluidores". "Em um momento em que os americanos estão enfrentando custos energéticos elevados, a EPA não deveria dar às empresas de petróleo e gás mais espaço para desperdiçar um recurso doméstico", afirmou Goldstein. "Já foram desperdiçados quase 7 bilhões de dólares em valor energético desde que o governo parou de fazer cumprir as proteções-chave do metano."
A proposta da EPA também ignora a experiência de estados que já implementaram regulações rigorosas. Colorado e Novo México são dois exemplos de estados produtores que adotaram regras semelhantes às da EPA de 2024 e continuam registrando aumento na produção de petróleo e gás. O Colorado tornou-se o primeiro estado a adotar integralmente as normas de metano da EPA de 2024, incluindo regras amplamente apoiadas pelas maiores associações comerciais do setor. Isso desmonta o argumento de que regulamentações ambientais prejudicam a produção — a evidência empírica sugere exatamente o oposto.
O que essa medida significa para o clima global? O metano é responsável por aproximadamente 30% do aquecimento global atual e tem um potencial de aquecimento 80 vezes maior que o dióxido de carbono em um período de 20 anos. Reverter as regras de metano é, essencialmente, conceder à indústria do fóssil carta branca para intensificar as emissões de um dos gases mais prejudiciais ao clima num momento crítico da ciência climática. Com as conferências globais sobre clima chegando e a pressão por reduções de emissões cada vez mais urgente, a decisão dos Estados Unidos — o segundo maior emissor de metano do mundo — envia um sinal devastador para os esforços internacionais de contenção.
O que permanece é a pergunta sobre se a pressão política de curto prazo, especialmente em contexto eleitoral, pode sobrepor-se às necessidades de longo prazo da saúde pública e do equilíbrio climático. Mas talvez a questão mais imediata seja outra: quantos milhões de toneladas de metano serão libertadas enquanto o texto final da proposta for discutido e contestado nos tribunais — e o preço que as comunidades próximas às plataformas de extração pagarão por isso.
Fontes: The Verge, Bloomberg, The Washington Sun, Environment America, Environmental Defense Fund
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