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Google congela programa de bug bounty de código aberto por causa de submissões geradas por IA

Google congela seu programa de bug bounty de código aberto por inundação de envios de IA

Em 1º de outubro, o Google suspendeu a recepção de novos relatórios de vulnerabilidades no seu Open Source Software Vulnerability Rewards Program (OSS VRP), anunciando via post oficial nas redes sociais que a pausa se estende até o primeiro trimestre de 2027. A razão, conforme a própria empresa descreveu, é "um aumento significativo em submissões automatizadas, a grande maioria delas inválidas". O que aconteceu nos bastidores é um reflexo direto do que especialistas em segurança vêm alertando há mais de um ano: a geração automática de relatórios por modelos de linguagem está degradando seriamente a qualidade dos programas de bug bounty, e o OSS VRP do Google se tornou o último ponto visível dessa pressão.

O OSS VRP é um dos programas mais importantes de segurança de código aberto do mundo. Diferente do programa principal de VRP — que cobre os produtos proprietários do Google, como Search, YouTube e Cloud — o OSS VRP é especificamente voltado a projetos de software livre mantidos por terceiros, incluindo bibliotecas, frameworks e ferramentas que alimentam a infraestrutura da internet. O Google paga pesquisadores externos por vulnerabilidades reais encontradas em milhares de projetos open source, desde o Chromium até o Kubernetes. Em 2025, o Google pagou mais de US$ 17 milhões em recompensas via VRP, com 747 pesquisadores ativos. O programa open source responde por uma fatia significativa desse montante.

O problema começou quando pesquisadores descobriram que era possível automatizar a submissão de relatórios de bug bounty usando LLMs. Ferramentas como Claude, Gemini e modelos especializados foram configurados para analisar código-fonte, identificar padrões de vulnerabilidade e gerar relatórios em formato compatível com o VRP. No início, esses sistemas produziam resultados mistos — alguns relatórios eram válidos, mas muitos continham erros, condições de gatilho incorretas ou até vulnerabilidades que nunca existiram. O que antes era um esforço humano artesanal virou uma linha de produção automatizada.

O Google não foi específico sobre os números absolutos de submissões, mas fontes do setor indicam que a proporção de relatórios inválidos saltou de uma taxa já alta para mais de 90% nos últimos meses. Isso significa que para cada relatório genuíno, os revisores do OSS VRP precisaram descartar uma dúzia ou mais relatórios gerados por IA — muitos deles contendo o que o Google chamou de "alucinações", ou seja, descrições de explorações que parecem plausíveis superficialmente mas são tecnicamente impossíveis quando examinadas de perto.

A resposta do Google não foi surpreendente. Além da suspensão, o programa endureceu os requisitos de evidência para certos tipos de relatório, especialmente falhas de corrupção de memória em projetos de alta prioridade. A ideia é filtrar os bots: exigir provas mais rigorosas tornará a produção automática de relatórios válidos mais difícil, já que a IA ainda tem dificuldade em gerar provas funcionais coerentes sem acesso ao ambiente real de execução.

Mas a medida levanta uma questão mais ampla. Programas de bug bounty dependem da confiança de que os pesquisadores que os alimentam são humanos e dedicados. Se a barreira de entrada cai para zero — qualquer pessoa pode rodar um script local contra um repositório open source e enviar relatórios automaticamente — o modelo econômico do bug bounty desmorona. O Google pagou US$ 17 milhões em 2025 para compensar pesquisadores humanos que dedicaram centenas de horas à descoberta de vulnerabilidades. Se a maioria dessas descobertas puder ser replicada por um script rodando à noite, o valor da recompensa diminui para o participante humano.

Há um contraste irônico aqui. O mesmo Google que desenvolveu um "caçador de bugs baseado em IA" que encontrou mais de 20 vulnerabilidades reais em 2025 — um feito noticiado amplamente como progresso em segurança automatizada — agora está paralisado pelos resultados do uso indiscriminado de IA por terceiros. A tecnologia que o Google construiu para si mesma está sendo usada por outros de forma que sobrecarrega sua própria infraestrutura de segurança. O caso do pesquisador que ganhou US$ 500 mil em 90 dias usando Claude como motor de pentest automatizado ilustra exatamente esse paradoxo: a IA pode encontrar bugs, mas em escala massiva ela encontra mais fantasmas que vulnerabilidades reais.

O que observamos é uma transição inevitável. À medida que os modelos de IA melhoram, os programas de bug bounty terão que se adaptar — seja com verificação obrigatória de identidade, seja com desafios que exigem interação humana complexa, seja com a criação de um novo modelo de recompensa que diferencie entre descoberta assistida por IA e descoberta genuína. A suspensão temporária do OSS VRP é apenas o primeiro capítulo dessa reengenharia.

Fontes: TechCrunch, BleepingComputer, CyberSecurityNews

✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação