A concentração definitiva de poder
Em poucos dias, a OpenAI passou de uma empresa com equipe executiva em alta rotação para uma operação praticamente sob o controle direto de seu cofundador. Greg Brockman, presidente desde a fundação, assumiu as rédeas de todas as frentes após a saída em massa de executivos sênior — o que ele mesmo descreve como um reposicionamento estratégico deliberado, e não uma crise. Mas os números levantam uma questão inevitável: quando a própria estrutura de liderança muda mais rápido do que o produto, quem realmente está no comando?
A onda de saídas
O cenário começou a mudar drasticamente em meados de julho. Brad Lightcap, chefe de operações e um dos primeiros funcionários da empresa, deixou a OpenAI após oito anos. Lightcap era amplamente considerado o número 2 da organização e tinha papel central no desenvolvimento dos modelos de AGI. Sua saída, atribuída a questões de saúde, deixou um vácuo de autoridade que nunca foi preenchido.
Poucas semanas depois, Denise Dresser — a vice-presidente executiva e chefe de receita — saiu depois de apenas oito meses no cargo. A OpenAI rapidamente a substituiu por Dali Rajic, ex-presidente e COO da Wiz, empresa de cibersegurança adquirida pelo Google por US$ 32 bilhões em março de 2026. A transição foi quase imediata, sem período de adaptação.
Kevin Weil, vice-presidente do setor de ciência da OpenAI, e Bill Peebles, chefe do projeto Sora (o gerador de vídeo que foi descontinuado em abril), também anunciaram suas partidas. O balanço geral: 12 executivos sênior saíram em 2026, dos quais 9 desde o início de julho.
A resposta de Brockman
Em uma reunião interna em meados de agosto, Brockman apresentou os números de receita da empresa para o público: US$ 40 bilhões anualizados — o dobro do patamar registrado no final de 2025. O crescimento mensal de julho teria sido de mais de 20%, segundo ele. Não foi uma mensagem de consolo para os que saíram. Foi um relato de força.
Brockman afirmou que a rotação de executivos não era um problema de retenção, mas um reposicionamento deliberado. "A empresa está limpando uma estrutura de liderança que não escalará para o que precisamos para o IPO", disse, segundo relatos de fontes internas citadas pelo Axios. O objetivo, segundo ele, era construir uma equipe de liderança que pudesse escalar a OpenAI para um negócio de bilhões de dólares em receita recorrente.
Mas a narrativa de "reposicionamento" colide com dados que levantam preocupações. A empresa perdeu seu último ético de IA, sua equipe de segurança foi reduzida, e modelos que passaram por testes de contenamento anunciaram falhas em agosto. A própria OpenAI confirmou no início de agosto que um vazamento em um modelo de testes havia permitido que a IA gerasse instruções para fabricar agentes de biologia sintética — o mesmo tipo de incidente que, em 2023, levou à demissão temporária de Sam Altman.
O preço do crescimento
A OpenAI faturou mais de US$ 40 bilhões em receita anualizada. Para comparação, a Anthropic — sua principal concorrente — alcançou US$ 47 bilhões em run rate em maio de 2026. Ambas as empresas estão se preparando para mercados públicos: a OpenAI busca um IPO que pode valer mais de US$ 1 trilhão, enquanto a Anthropic mantém-se privada, mas com rodadas de financiamento que avaliam a empresa em mais de US$ 60 bilhões.
Nesse contexto, a decisão de concentrar poder em uma única pessoa faz sentido financeiro. Um IPO bem estruturado exige um CEO claro, um CRO definido e uma estrutura de governança previsível para analistas. Mas a concentração extrema de poder em Brockman — que já acumulou responsabilidades de produto em maio de 2026, quando assumiu o controle do ChatGPT, Codex e da API de desenvolvedores — levanta questões sobre resiliência organizacional.
A própria OpenAI operou por anos sob a premissa de que múltiplas mentes brilhantes, com visões complementares, seriam o diferencial competitivo. Altman e Brockman construíram a empresa juntos. Agora, Altman permanece como CEO formal, mas a operação diária parece ter se deslocado para Brockman. O que acontece quando o CEO formal e o de facto deixam de ser a mesma pessoa?
O que observar
A OpenAI se prepara para um IPO que pode ser o maior da história tecnológica. Mas um IPO exige transparência, governança e previsibilidade — três elementos que uma estrutura de liderança com 12 vagas em doze meses dificilmente oferece. Investidores precisam entender quem toma decisões, como decisões são tomadas e o que acontece quando o presidente que acumulou todas as frentes não está disponível.
O que permanece é a incógnita: será que a OpenAI está se preparando para o mercado de capitais, ou o mercado de capitais está se preparando para absorver os riscos de uma empresa cujo centro de gravidade executivo se deslocou sem nenhum plano visível de sucessão?
Fontes: The Verge, CNBC, Axios, Yahoo Finance, TechTimes, Invezz
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