Instagram lança «Features»: vídeos de até 90 minutos numa jogada directa contra o YouTube
O Instagram começou a testar, nos Estados Unidos, um formato de vídeo horizontal de até 90 minutos chamado «Features», numa mudança estratégica que posiciona a plataforma como competidora directa do YouTube em conteúdo de longa duração. A funcionalidade, anunciada num vídeo de seis minutos pelo próprio chefe do Instagram, Adam Mosseri, amplia um teste já em curso com criadores brasileiros e marca a maior expansão do Instagram para além do vídeo curto desde o abandono do IGTV em 2022.
Uma inversão de posição
Mosseri foi claro: durante anos, defendeu que o longo-formato não pertencia ao Instagram. «Durante muito tempo, tenho sido contra a implementação de vídeo de longa duração no Instagram», admitiu no vídeo de anúncio. A mudança de posição deve-se, segundo ele próprio, à insistência de Tessa Lyons, vice-presidente de produto da Meta para o Instagram, que convenceu a liderança a reconsiderar a relação entre os formatos curto e longo.
«O Reels continua a ser parte central do Instagram. Mas quando queres aprofundar a relação com os criadores que adoras e o conteúdo que produzem, consegues fazer isso no Instagram», afirmou Lyons. A noção subjacente é que os dois formatos não competem — complementam-se. Um Reels viral pode funcionar como porta de entrada; o «Feature» oferece o espaço para conteúdo episódico, podcasts, entrevistas e especiais de comédia que os criadores já produziam no YouTube por obrigação, não por escolha.
A mecânica do ecossistema
O «Features» não existe isoladamente. Acompanha-se de duas ferramentas relacionadas. A primeira, «Clips as Reels», permite aos criadores gerar até oito Reels a partir do mesmo vídeo longo; cada Reels contém um link que redireciona o espectador para o vídeo completo. A segunda é o hub episódico, uma secção dedicada no perfil do criador que agrupa Reels conectados num formato semelhante às playlists do TikTok — e que está a ser testada sob a designação «Series» desde a primavera de 2026 nos Estados Unidos, Índia e México, com expansão prevista para mais países até ao fim do ano.
Juntas, estas funcionalidades criam um ecossistema de vídeo em camadas: o conteúdo curto gera alcance e descoberta; o conteúdo longo gera retenção e profundidade. É o mesmo raciocínio que levou o YouTube a construir um algoritmo que equilibra Shorts e vídeos tradicionais, mas aplicado ao Instagram pela primeira vez.
A expansão para a televisão
Paralelamente, o Instagram para TV foi lançado na Apple TV nos Estados Unidos — seguindo versões já disponíveis para Samsung TV, Amazon Fire TV e Google TV. A aplicação de televisão incorpora automaticamente o conteúdo «Features», transformando o Instagram numa presença simultânea em ecrã pequeno (smartphone) e ecrã grande (televisão), algo que até agora o YouTube fazia de forma mais madura.
Esta expansão para televisões domésticas é estratégica: segundo dados da Meta, o tempo médio de visualização em ecrãs grandes é significativamente maior do que em dispositivos móveis. Ao posicionar o «Features» como conteúdo nativo para TV, o Instagram tenta capturar uma fatia do tempo de visualização que os utilizadores dedicam a canais no YouTube durante sessões mais longas.
O problema da monetização
Aqui reside a maior diferença entre as plataformas. O YouTube Partner Program paga aos criadores 55% da receita publicitária gerada pelos seus vídeos, tendo já distribuído mais de 100 mil milhões de dólares desde a sua criação. O Instagram não possui um modelo equivalente de partilha de receita por visualização.
A monetização nativa do Instagram limita-se a subscrições, badges ao vivo, ferramentas de conteúdo marcado e funcionalidades de compras. A maior parte do rendimento dos criadores no Instagram provém de acordos de marca e comissões de afiliados, negociados fora da plataforma. A Meta afirma estar «a explorar formas para os criadores ganharem dinheiro a partir de marcas, fãs e do próprio Instagram, incluindo incentivos baseados em desempenho», mas uma porta‑voz disse ao TechCrunch que «ainda é cedo para partilhar um modelo de monetização a longo prazo».
Enquanto isso, o Instagram está a pagar directamente a alguns criadores para produzir conteúdo de formato longo durante a fase de teste, segundo o Variety — uma abordagem de subsídio que pode ser sustentável durante a fase de experimentação, mas que levanta questões sobre a escalabilidade quando a Meta decidir expandir o teste a nível global.
O que observar
O teste actual limita-se a um grupo pequeno de criadores nos Estados Unidos, com réplica no Brasil. Nenhum cronograma de lançamento alargado foi anunciado. Mas o que o Instagram está a testar revela uma direcção clara: a plataforma quer que os criadores migrem parte do seu conteúdo para o Instagram de forma permanente, não como complemento ao YouTube, mas como substituto.
Se o Instagram conseguir resolver a monetização — mesmo que de forma inicial e fragmentada — e se os criadores de podcasts e comédia adoptarem o «Features» como formato primário, a consequência mais directa será a erosão do que é provavelmente a vantagem mais sólida do YouTube: o catálogo de criadores que já construíram carreiras inteiras na plataforma. O YouTube tem a receita. O Instagram tem os utilizadores e o tempo de ecrã.
A pergunta que fica é se os criadores vão arriscar a migração para uma plataforma que ainda não sabe como os pagar — ou se o YouTube conseguirá responder antes que o «Features» se torne o novo padrão para quem produz conteúdo de longa duração nas redes sociais.
Fontes: TechCrunch, The Verge, NetInfluencer
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