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O pendrive com leitor de impressão digital da Lenovo que não criptografa nada

A promessa de segurança que era só marketing

Quando a Lenovo lançou a linha ThinkPlus com um leitor de impressão digital integrado, o discurso de vendas era claro: criptografia AES-256 em hardware, proteção biométrica contra acesso não autorizado, arquivo seguro para quem carrega dados sensíveis. O consumidor que comprou um ThinkPlus FU100 acreditava que, sem a digital registrada, os arquivos estavam inacessíveis. A realidade, descoberta por um pesquisador de segurança, era bem mais simples — e mais desconfortável: era um cartão SD comum dentro de uma carcaça plástica com um sensor biométrico que, no máximo, ligava ou desligava a conexão USB do dispositivo.

A revelação veio às claras em outubro de 2026, quando Xusheng Li, engenheiro de engenharia reversa da Vector 35 e desenvolvedor de ferramentas de debug, publicou um relato detalhado em seu blog HackingPassion, acompanhado de uma apresentação na conferência RE//verse de março de 2026. O que Li encontrou ao abrir o FU100 não foi nenhum circuito de criptografia dedicado — foi um cartão SD soldado a uma placa de circuito pequena, com dados em texto puro, sem nenhuma camada de proteção. O leitor de impressão digital fazia exatamente uma coisa: decidia se o controlador USB se comunicava com o computador ou permanecia em silêncio. Numa analogia simples, é como colocar uma tranca na porta de um cofre que deixa o interior perfeitamente exposto.

A descoberta e a resposta da Lenovo

Li relatou a falha à Lenovo em 2 de agosto de 2025. A resposta inicial da empresa, conforme documentado pela Tech Prolonged, foi surpreendentemente primitiva: em vez de corrigir a falha de design, a Lenovo simplesmente colou epoxy sobre o cartão SD para impedir que alguém o removesse fisicamente. Essa correção, descrita pela própria empresa na advisory LEN-210545 como uma fragilidade que permite leitura de dados por alguém com acesso físico, não resolve o problema de raiz — só tornava o dispositivo ainda mais difícil de abrir, dando uma ilusão falsa de segurança.

A advisory oficial, publicada em 13 de janeiro de 2026 e classificada como de gravidade alta, abrangia quatro modelos: ThinkPlus FU100, FU200, TU800 e o SSD externo TSD303. Três CVEs foram atribuídos. O CVE-2025-13453 descrevia a vulnerabilidade principal — qualquer pessoa com acesso físico ao dispositivo podia ler os dados armazenados. O CVE-2025-13454 concernia ao software companheiro da Lenovo, que expunha informações sensíveis do dispositivo a qualquer usuário local logado. O CVE-2025-13455 era ainda mais grave: permitia que um usuário já autenticado adicionasse uma nova impressão digital sem a aprovação do proprietário.

A solução final proposta pela Lenovo também foi inusitada. Em vez de um update de firmware ou software para download, a empresa instruiu os usuários a entrarem em contato com sua linha de atendimento na China, onde um verificador de número de série decidia se o drive seria substituído ou atualizado presencialmente. A empresa recomendou backup e limpeza do drive antes do procedimento.

O caso do TSD303: dados criptografados, senha em texto puro

O SSD externo ThinkPlus TSD303 apresentava um cenário diferente, porém igualmente preocupante. Diferentemente do FU100, ele de fato criptografava os dados. O ponto fraco estava no mecanismo de autenticação. Quando o programa da Lenovo no computador interrogava o drive para obter a senha, o drive retornava a senha correta através do cabo USB em texto puro. O programa então comparava esse valor com o que o usuário digitava. O pacote USB capturado pelo Li mostrava a senha de teste em texto legível nos últimos bytes do pacote — qualquer pessoa com um dispositivo de sniffing USB poderia interceptar e ler a senha.

A Lenovo enviou três versões de correção para Li testar. Na primeira, três meses após o relato inicial, o drive passou a enviar um bloco criptografado no lugar da senha em texto puro. Li rastreou o código com o debugger e descobriu que o bloco vinha de SM4, um bloco de cifra similar ao AES, e sua chave era derivada de algo que parecia um timestamp. Em seus testes, a chave era 2021012700000000 — um valor fixo e previsível.

Na segunda correção, em dezembro de 2026, o check de senha foi movido para o próprio drive. Numa terceira correção, descobriu-se que a chave AES-256 era um valor fixo de 32 bytes embutido no executável do software companheiro — a senha do usuário não tinha nenhuma parte na geração da chave. Copiar o programa era suficiente para abrir arquivos bloqueados sem saber a senha.

O follow-up com IA: cinco fabricantes quebrados em minutos

O que poderia ter sido apenas um caso isolado de produto defeituoso se transformou em um estudo de caso sobre a segurança de dispositivos de armazenamento criptografados quando Li voltou ao assunto em outubro de 2026. Desta vez, usou o OpenAI Codex, conectado à sua ferramenta de engenharia reversa, e deu um único prompt: "esta é uma ferramenta de criptografia de arquivos, analise seu sistema criptográfico e veja se é seguro".

Em aproximadamente sete minutos, o Codex encontrou a chave fixa no executável do software da Lenovo. O programa gravava a senha do usuário nos logs de diagnóstico. Verificava senhas com MD5. Criptografava blocos de 16 bytes um por um, sem vetor de inicialização — o que significava que blocos de entrada idênticos produziam saídas idênticas. A opção SM4 usava outra chave fixa. No modo rápido, arquivos maiores que 1.024 bytes eram parcialmente criptografados — formatos como PDF, ZIP, PNG, JPEG, WAV e MPEG ficavam vulneráveis.

A seguir, Li estendeu a análise a outros quatro fabricantes. O Codex precisou de cerca de 10 minutos para quebrar o Netac, 26 minutos para o KakaSoft e também para o Nexopy. O Nexopy, que vendia drives Copy Secure com proteção "em hardware", usava Triple-DES para proteger os arquivos, mas a chave estava em um arquivo de configuração que qualquer cópia do programa visor podia abrir, porque o app carregava um certificado fixo de 32 bytes embutido.

Li resumiu o problema em uma frase: dez dispositivos compartilhavam o mesmo kit de falhas. Seis enviavam a senha em texto puro pela USB, dois mantinham dados não criptografados em cartões microSD, e dois enviavam a senha de forma que ainda permitia recuperá-la. Os nomes dos outros fabricantes estavam ofuscados nos slides — o que, ironicamente, reforçava a gravidade: o problema não era um caso isolado, era um padrão de indústria.

Por que isso importa

A segurança por obscuridade nunca foi verdadeira segurança. O que diferencia um sistema criptográfico de verdade é que a proteção resiste mesmo quando o atacante conhece o algoritmo, o firmware e o software companheiro — a segurança depende exclusivamente da chave, que só o proprietário legítimo conhece. O FU100 falhava em todos os níveis. A senha era interceptável. A chave de criptografia, se existia, era fixa e copiada do executável. Os dados em si, no caso do FU100, nem eram criptografados.

O problema se agrava pelo fato de que pendrives com biometria ou senha são vendidos exatamente para o público que mais precisa de proteção — profissionais que manuseiam documentos confidenciais, médicos com prontuários, advogados com contratos. Se a confiança no dispositivo é a única barreira, a segurança dissolve-se tão logo alguém tenha o drive em mãos.

Os especialistas em segurança recomendam uma regra simples: conte um leitor de impressão digital ou tela de senha em um pendrive apenas como uma porta de entrada, a menos que o fabricante demonstre que a chave de criptografia depende desse fator de autenticação. Para arquivos que realmente importam, use criptografia de sua própria autoria — VeraCrypt, BitLocker To Go ou gpg com AES-256 — antes de colocar qualquer coisa no dispositivo.

A pergunta que fica é se a indústria de segurança consumer ainda precisa que um pesquisador individual, com ajuda de IA, descubra que seus produtos prometem mais do que entregam — ou se é hora de os fabricantes assumirem que segurança não é um sticker na caixa.

Fontes: Tom's Hardware, Tech Prolonged, HackingPassion

✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação