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Montana avança para se tornar polo de tratamentos experimentais e testa o limite do 'right to try'

O estado norte-americano de Montana deu um passo importante na quinta-feira para consolidar seu plano de se tornar um polo de medicina experimental. A expansão da lei de "right to try" — o direito de pacientes terminais a acessarem tratamentos ainda não aprovados pela FDA — entrou em uma nova fase, com as primeiras terapias prestes a serem analisadas pelos comitês criados para revisá-las. Em maio de 2025, o governador sancionou a lei que permitiu que clínicas oferecessem tratamentos não aprovados pela agência reguladora americana, e agora a engrenagem regulatória local começa a girar.

A ideia por trás da legislação é sedutora na superfície. Pacientes com doenças graves e sem opções aprovadas teriam a chance de tentar algo experimental, sob supervisão de um conselho de revisão criado especificamente para isso. Os defensores argumentam que a burocracia da FDA, por mais bem-intencionada que seja, custa tempo que pacientes terminais simplesmente não têm. Para eles, a autonomia individual de arriscar o próprio corpo deve prevalecer sobre a proteção paternalista do Estado.

Mas o desenho montanês vai muito além do direito de um paciente individual buscar uma terapia. A lei de 2025 criou um licenciamento para "centros de tratamento experimental" — essencialmente, uma infraestrutura comercial para vender tratamentos não aprovados. É a diferença entre permitir que alguém arrisque a própria vida e criar um mercado onde empresas têm incentivo financeiro para vender produtos sem passar pelos testes de segurança e eficácia que definem a medicina moderna. isso o apelido "Velho Oeste" grudou no projeto.

O caso levanta uma tensão central que vai muito além de Montana. A história da medicina está cheia de tratamentos que pareciam promissores e depois se revelaram inúteis ou nocivos — e a FDA existe exatamente para filtrar isso. Ao mesmo tempo, o sistema tem falhas reais: doenças raras são negligenciadas, e pacientes terminais muitas vezes só descobrem alternativas depois que é tarde. O "right to try" tenta corrigir uma dor legítima, mas ao fazê-lo, aposta que o risco individual é uma moeda aceitável para pagar a conta de um sistema que ainda não sabe distinguir esperança de charlatanismo.

A pergunta que fica é o que acontece quando a primeira morte ligada a um desses centros se tornar manchete nacional — ou quando, ao contrário, um paciente tratado em Montana se curar de algo que a medicina oficial considerava incurável. Nos dois cenários, a experiência vai informar como outros estados, e talvez outros países, encaram o equilíbrio entre autonomia individual e regulação. Montana se tornou, queira ou não, um experimento de laboratório sobre os limites da medicina liberalizada.

Vale lembrar que Montana não é um caso isolado, mas o mais radical de uma onda que se espalha por vários estados americanos, cada um com versões próprias de ampliar o acesso a terapias não aprovadas. O que distingue o modelo montanês é a institucionalização: não se trata apenas de permitir, mas de criar um ecossistema com centros licenciados e conselhos de revisão, o que confere um verniz de legitimidade a um processo que, em outros lugares, é tratado como exceção pontual. Os defensores enxergam nisso a democratização do acesso; os críticos, uma flexibilização perigosa dos padrões de segurança que protegem exatamente os pacientes mais vulneráveis. A verdade, provavelmente, está em algum lugar no meio — e é por isso que Montana funciona tão bem como estudo de caso do que acontece quando uma sociedade decide priorizar a autonomia individual sobre o consenso regulatório.

Fontes: MIT Technology Review, Duane Morris, LifeSpan.io, NBC Montana

✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação