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A NASA quer resgatar o Hubble do espaço — e contratou a indústria privada para isso

Depois de três décadas no espaço, o telescópio Hubble está perdendo altitude de forma lenta e irreversível. Sem propulsão para manter sua órbita, o telescópio vai cair de volta à Terra entre 2033 e 2034 — e dessa vez, não há ônibus espacial para salvá-lo. Mas a NASA mudou de ideia.

Em 29 de outubro, a agência espacial publicou um Pedido de Informações (RFI, na sigla em inglês) convidando empresas privadas a apresentarem conceitos para três tipos de missão: elevar o Hubble para uma órbita mais alta (pelo menos 600 km de altitude), realizar serviços de manutenção para aprimorar suas capacidades científicas, ou conduzir uma reentrada controlada segura na atmosfera terrestre. Qualquer missão precisaria ocorrer até 2032 — o que deixa um prazo de roughly cinco anos para planejar, financiar e executar uma operação que nunca foi tentada nesse formato.

A virada é significativa. Em 2022, Jared Isaacman — então um turista espacial bilionário — ofereceu pagar a maior parte de uma missão tripulada para rebooster o Hubble a bordo de uma nave Dragon da SpaceX. A NASA também pediu ideias à indústria naquele ano e recebeu oito propostas. Em 2024, porém, decidiu não dar seguimento a nenhuma delas. Agora, sob a administração Isaacman como administrador da agência, o cenário mudou radicalmente.

"O Hubble ainda tem ciência importante pela frente, e devemos explorar cada oportunidade razoável para mantê-lo produzindo pelo tempo possível", disse Isaacman em comunicado. "Se há maneiras inovadoras e custo-efetivas de estender a vida de um ativo já em órbita, devemos fazê-lo em nome do contribuinte americano e da comunidade científica."

O problema da órbita decrescente

O Hubble orbita a cerca de 470 km de altitude. Nesse nível, a atmosfera residual da Terra exerce arrasto suficiente para degradar gradualmente a órbita. Diferente de satélites maiores, o telescópio não possui propulsores para realizar manobras de reboost. A última elevação orbital foi realizada durante o voo do ônibus espacial Columbia em 2002, que elevou o Hubble para aproximadamente 583 km. A última visita em 2009 — a quinta e última missão do programa — não incluiu reboost.

Seguindo a trajetória atual, a probabilidade de reentrada descontrolada é de 10% em setembro de 2032, sobe para 50% em dezembro de 2033, e o Hubble é pesado o suficiente para representar um risco pequeno, mas real, a populações terrestres caso entre em decomposição sem controle.

O telescópio Swift, menor e já em decadência acelerada, está prestes a queimar na atmosfera — um lembrete do que acontece quando a tecnologia espacial evolui e os ativos antigos são abandonados. Mas o Hubble não é um satélite comum: são 11 toneladas de instrumentação científica que revolucionou a astronomia desde seu lançamento em 1990.

Três caminhos, nenhum fácil

O RFI da NASA abre três caminhos, e cada um apresenta desafios técnicos distintos:

1. Reboost orbital: uma nave precisaria se acoplar ao Hubble, elevar sua órbita para pelo menos 600 km e garantir que a manobra não danifique o telescópio. O desafio inclui a fragilidade dos espelhos e instrumentos internos — o Hubble foi projetado para manutenção por astronautas, não para captura robótica.

2. Serviço para aprimoramento: além de manter o Hubble funcionando, a missão poderia instalar novos instrumentos ou substituir componentes degradados, estendendo tanto a altitude quanto a vida útil científica. Isso exigiria desenvolvimento de hardware compatível com o design de 1990 — décadas de incompatibilidade tecnológica a superar.

3. Reentrada controlada: caso nenhuma missão de extensão seja viável, a alternativa é guiar o Hubble para uma queima atmosférica segura, minimizando riscos a populações. Esta seria a opção mais barata, mas também a que representaria o fim definitivo de 36 anos de descobertas científicas contínuas.

O contexto político e financeiro

O que torna esta notícia tão interessante é o timing. Isaacman não apenas mudou a abordagem da NASA sobre o Hubble — ele está posicionando a agência como um vetor de negócios espaciais comerciais. A diferença entre 2024 e 2026 é abismal: em vez de avaliar propostas e rejeitá-las por custo, agora a administração busca ativamente investimento privado para manter ativos orbitais.

O RFI não compromete orçamento algum. A NASA não garantiu dinheiro para pagar uma missão. Isso coloca o ônus nas empresas: quem quer salvar o Hubble precisará estruturar o investimento próprio, esperando retorno futuro em contratos ou credibilidade para operações comerciais.

A SpaceX já demonstrou interesse em operações de reabastecimento orbital — a startup DeltaView levantou financiamento para hardware de reabastecimento em órbita, e a Katalyst Space recebeu $30 milhões da NASA para desenvolvimento de serviço orbital. O ecossistema de serviços espaciais comerciais está se formando, e o Hubble seria o primeiro teste em grande escala.

Isaacman espera que a resposta atraia principalmente empresas de robótica espacial, não astronautas. Uma visita tripulada é cada vez menos provável: a SpaceX planeja descontinuar a nave Crew Dragon em 2030, e a NASA já transferiu seus voos tripulados para a Boeing. O futuro do Hubble, se houver um, será robótico.

O prazo para respostas se encerra em 30 de novembro. A pergunta que fica é se a indústria espacial comercial tem realmente a maturidade técnica e o apetite financeiro para assumir um ativo tão icônico — ou se o Hubble terá o mesmo destino de outros telescópios que a humanidade abandonou ao espaço, silenciosamente consumidos pela órbita decrescente.

Fontes: NASA Science, SatelliteProme, The Next Web

✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação