Pouco mais de um ano depois de assumir o cargo de chefe de produto do X, Nikita Bier anunciou que está deixando a posição. O ex-fundador de apps de sucesso viral, que ficou famoso por criar produtos como o TBH, afirmou em uma postagem na própria plataforma que era "hora de passar a tocha", mas que permanece na empresa na condição de conselheiro. A saída encerra um período curto, porém intenso, em que Bier foi a cara de algumas das mudanças mais visíveis — e mais controversas — feitas na rede social desde que Elon Musk a comprou.
Bier entrou no X em meados de 2025, em um movimento que a própria empresa tratou como uma aposta em alguém com histórico comprovado de entender o que faz um aplicativo crescer. Antes do X, ele havia vendido a startup TBH para o Facebook e depois criou o Gas, outro app viral voltado ao público adolescente. Essa biografia de "growth hacker" fez dele uma escolha natural para tentar destravar o crescimento do X num momento em que a plataforma enfrentava estagnação de usuários e pressão publicitária. Durante sua gestão, foram cerca de 30 lançamentos de produto, segundo relatos, incluindo desde reformulações na interface até mudanças na lógica de distribuição de conteúdo.
O anúncio de Bier, porém, não vem acompanhado de um projeto claro de sucessão. O X passa por um momento delicado: as tensões com anunciantes não desapareceram, e a plataforma segue tentando se reposicionar como um "superapp" de pagamentos e mídia. Perder o principal executivo de produto, mesmo que ele permaneça como conselheiro, levanta a questão de quem vai tocar a agenda de inovação a partir de agora. Musk tem um histórico de centralizar decisões de produto, o que torna o papel de um chefe de produto estruturalmente difícil — ele acabou tomando para si várias das decisões que normalmente seriam de Bier.
Há uma leitura mais ampla aqui, que vai além do X. O caso ilustra o desafio de contratar executivos de produto experientes para plataformas onde o dono é também o principal tomador de decisões criativas. Bier é conhecido por autonomia e por testar hipóteses rapidamente; em uma estrutura vertical como a do X, parte dessa autonomia é inevitavelmente limitada. Não é surpresa, portanto, que alguém com o perfil dele prefira voltar a um papel de conselheiro, com mais liberdade e menos responsabilidade operacional diária.
O que fica de positivo é a percepção de que o X conseguiu atrair talento de alto nível mesmo em meio ao ambiente turbulento pós-Musk. O desafio agora é outro: reter e dar espaço a esse talento. Se a saída de Bier for seguida por outras baixas na liderança de produto, a narrativa de que a plataforma é um ambiente difícil para construir carreira tende a se reforçar. outro lado, se Musk anunciar rapidamente um sucessor interno com perfil semelhante, a mensagem é de que há profundidade no time.
A pergunta que fica no ar é: quem herdará a responsabilidade de manter o X competitivo em um momento em que concorrentes como o Bluesky e até o Threads seguem roubando espaço? E, mais importante, o próximo chefe de produto terá autonomia real para decidir, ou continuará executando a visão do dono? A resposta vai definir se esta saída é um episódio isolado ou o começo de uma rotatividade maior na cúpula da empresa.
Fontes: The Verge, TechCrunch, Business Insider
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