A Nous Research, companhia por trás do agente de IA de código aberto Hermes, anunciou nesta quarta-feira (7) um round de investimentos de $90 milhões em sua Série B, avaliando a startup em $1,5 bilhão. O anúncio foi confirmado pela própria empresa em uma nota oficial publicada em seu site, que também revelou o lançamento do "Hermes for Businesses", uma versão dedicada ao mercado corporativo.
O anúncio marca um momento importante na corrida por agentes autônomos de IA. Desde seu lançamento em fevereiro de 2026, o Hermes Agent já foi clonado mais de 24 milhões de vezes e, segundo estimativas internas da empresa, responde por aproximadamente 2,5% de todos os tokens processados por IA no mundo. Esses números posicionam o Hermes como um dos projetos de agente de IA mais difundidos do ecossistema — e sua entrada no mercado empresarial promete ampliar ainda mais esse alcance.
Quem investe e de onde vem o dinheiro
A rodada foi liderada pela Robot Ventures, com participação de investidores como Nvidia, M12 (braço de capital de risco da Microsoft), Samsung, Union Square Ventures, Y Combinator e Menlo Ventures. Curiosamente, a própria Nous Research não nomeou um líder oficial na rodada e, em sua nota pública, o CEO Dillon Rolnick apenas listou os participantes sem hierarquia. O próprio Rolnick observou, em tom de satisfação, que "$90 milhões é modesto no atual cenário de captação de recursos", destacando que "a Nous sempre entregou mais com menos".
O valor total levantado pela startup, que foi fundada em 2023 por Jeffrey Quesnelle, Karan Malhotra, Ryan Teknium e Shivani Mitra, agora ultrapassa $158 milhões. Antes dessa rodada, a empresa havia arrecadado cerca de $70 milhões em rondas anteriores, incluindo investidores como Paradigm, North Island Ventures, OSS Capital e Balaji Srinivasan.
Hermes for Businesses: o que se sabe
O produto que mais interessa ao mercado corporativo é o "Hermes for Businesses". Segundo a própria empresa, a solução permitirá que as organizações escolham modelos de IA por preço e finalidade, mantenham o uso de IA privado e tenham posse completa do conhecimento institucional. O princípio declarado pela Nous é simples: "as pessoas que utilizam um sistema de IA devem controlá-lo".
Diferentemente das plataformas proprietárias de assistentes de IA — onde a empresa fica à mercê de um único fornecedor e de seus preços —, o Hermes for Businesses se propõe a oferecer um modelo multi-modelo, permitindo que as empresas alternem entre diferentes provedores conforme suas necessidades de custo e desempenho. Isso se encaixa em uma tendência mais ampla de que empresas que dependem exclusivamente de soluções fechadas de IA (como ChatGPT API ou Claude API) estão transferindo custos imprevisíveis para seus orçamentos de engenharia.
O contexto: agentes open-source como infraestrutura
A escolha de direcionar capital para agentes de código aberto não é mera questão ideológica. Em um cenário onde grandes players como OpenAI, Google e Anthropic operam com modelos fechados e modelos de preços baseados em consumo, a proposta de oferecer um agente autônomo com código aberto e multi-modelo representa uma alternativa direta de soberania tecnológica.
A lógica é análoga à que impulsionou a adoção do Linux nos datacenters nos anos 2000: quando a infraestrutura subjacente se torna crítica para operações essenciais, a capacidade de auditabilidade e controle passa a valer mais do que a comodidade de soluções proprietárias. O Hermes roda localmente, em servidores virtuais ou via nuvem, e permite que empresas mantenham seus dados offline ou em infraestrutura própria.
É interessante notar que a Nous não é a única atuando nesse espaço. Outras empresas de agentes autônomos — incluindo soluções como OpenClaw, que compete diretamente com o Hermes — também atraíram investimentos significativos. A diferença do Hermes para seus concorrentes é que seu modelo de código aberto já possui uma comunidade ativa de mais de 214.000 estrelas no GitHub e quase 40.000 forks, tornando-o um dos projetos mais populares em sua categoria.
O que observar nos próximos meses
Dois aspectos merecem atenção especial. Primeiro, a proposta de que o Hermes dirige 2,5% de todo o processamento de IA global é uma afirmação ambiciosa e, até o momento, sem verificação independente. Se comprovada, coloca a Nous em um patamar de uso comparable a plataformas que dominam nichos específicos — mas o número foi divulgado pela própria empresa e não por um analista de terceiros. Segundo, a ausência de um investidor líder declarado na rodada levanta a pergunta se a Nous está estrategicamente evitando que qualquer único parceiro detenha poder de veto significativo sobre suas decisões futuras.
A entrada da Nous no mercado corporativo será testada nos próximos trimestres. Empresas que hoje usam agentes de IA de terceiros podem decidir migrar para o Hermes for Businesses se a proposta de controle e privacidade for convincente. A pergunta que fica: os agentes de código aberto conseguirão conquistar a confiança de grandes corporações antes que os modelos fechados consolidem seu domínio absoluto no mercado empresarial? Ou o Hermes provará que, na era dos agentes autônomos, a transparência e o controle do código são, em si, um diferencial competitivo decisivo?
Fontes: TechCrunch, The Next Web, Nous Research
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