A revelação veio em um relatório entregue à Securities and Exchange Commission nesta sexta-feira (14), mas o que parecia à primeira vista um exercício de diversificação de carteira escondia algo muito mais ambicioso: a transformação de Nvidia, durante anos sinônimo inabalável de design de chips para inteligência artificial, em participante acionista de seus próprios clientes mais importantes. Jensen Huang, CEO da empresa, não precisou fazer perguntas nem negociar condições especiais — a simples posse de ações de Intel e SpaceX já colocava o gigante de Santa Clara dentro do ciclo de apostas que sustentava o ecossistema de computação do seu fundador mais ambicioso, Elon Musk, e de uma das maiores recoveries de capital na história dos semicondutores.
A participação em SpaceX, avaliada em cerca de US$ 21 bilhões no fim do segundo trimestre, nasceu de uma rota indireta. Em janeiro de 2026, a Nvidia desembolsou US$ 10 bilhões na rodada de captação Series E da xAI, o empreendimento de inteligência artificial de Musk. Dois meses depois, em fevereiro, a SpaceX completou uma fusão com a xAI em uma operação que valorizou a entidade combinada em US$ 1,25 trilhão. Toda a equity da xAI virou ações da SpaceX, e a posição da Nvidia se converteu em aproximadamente 122,8 milhões de ações da Classe A da empresa espacial. Quando a SpaceX entrou na Bolsa em 12 de junho de 2026 — com um IPO que levantou US$ 85,7 bilhões, o maior da história — as ações da Nvidia valeram cerca de US$ 21 bilhões, ou cerca de 33% da carteira divulgada da empresa. O preço da ação SPCX, porém, tem sido volátil: fechou em US$ 140 na última sexta-feira, o que reduz a posição da Nvidia para cerca de US$ 17,2 bilhões.
A outra metade da aposta — US$ 30 bilhões em Intel — tem origem diferente. Em setembro de 2025, Huang e Lip-Bu Tan, então recém-nomeado CEO da Intel, anunciaram um acordo que enviou ondas de choque pelo mercado de semicondutores: a Nvidia compraria US$ 5 bilhões em ações recém-emitidas da Intel a US$ 23,28 por ação, totalizando 214,776 milhões de novas ações. O acordo exigia aprovação antitruste e a FTC liberou a operação em 18 de dezembro de 2025. Em 26 de dezembro, a Intel fez um private placement que fechou quatro dias após a aprovação regulatória. A Nvidia se tornou, do dia para a noite, um dos maiores acionistas individuais da empresa rival.
O retorno financeiro foi espetacular. No fim de março de 2026, a posição valia cerca de US$ 9,5 bilhões, segundo registros anteriores. Em 30 de junho, com a ação da Intel cotada a cerca de US$ 140, o mesmo pacote de 214,8 milhões de ações valia aproximadamente US$ 30 bilhões — um ganho não realizado de cerca de US$ 25 bilhões em menos de sete meses. Mesmo após o oferecimento adicional de US$ 20 bilhões da Intel, fechado em 12 de agosto, o valor da posição da Nvidia recuou para cerca de US$ 22 bilhões, mas ainda assim a converteu na maior posição revelada da Nvidia. Intel também anunciou em agosto que a Nvidia e a Intel desenvolveriam chips conjuntos para data centers e PCs, em uma parceria que daria à Nvidia acesso à tecnologia de packaging avançado e fabricação da Intel enquanto fornecia à empresa de Portland o respaldo do seu principal cliente.
O que torna esta combinação de apostas verdadeiramente singular é que ambas as empresas — SpaceX e Intel — comprometeram-se a usar exclusivamente hardware da Nvidia como fornecedor de chips. No calling de resultados do segundo trimestre da SpaceX, realizado em 4 de agosto e que marcou a primeira chamada obrigatória de resultados da empresa como companhia pública, Musk anunciou que a SpaceX construiria toda a sua infraestrutura de IA em hardware Nvidia. "Nós decidimos construir exclusivamente com Nvidia, porque achamos que a arquitetura Vera Rubin é a melhor", disse Musk. "Somos exclusivos com a Nvidia". O anúncio provocou queda de 6% nas ações da AMD no mesmo dia, enquanto a Nvidia subiu cerca de 3-4%, sinalizando que os investidores compreenderam o peso do compromisso.
A dimensão comercial desse compromisso é gigantesca. O segmento de IA da SpaceX faturou US$ 2,56 bilhões no segundo trimestre — um salto de 312% em relação ao trimestre anterior. Musk disse que a empresa espera operar mais de 2 gigawatts de capacidade de processamento até o fim de 2026, escalando para cerca de 10 gigawatts até o fim de 2027. Todo esse poder computacional está comprometido com hardware Nvidia. O Colossus 1, centro de dados em Memphis, Tennessee, abriga mais de 220.000 GPUs Nvidia e já gera receita de aluguel de terceiros: o contrato do Anthropic cobre toda a capacidade por cerca de US$ 1,25 bilhão por mês, e um acordo com o Google cobre 110.000 GPUs Nvidia por US$ 920 milhões mensais de outubro de 2026 a junho de 2029. Musk também anunciou planos para o Starmind, uma rede de satélites que implantaria GPUs Nvidia em órbita, estendendo a parceria para além da atmosfera terrestre.
Para os acionistas da Nvidia, incluindo fundos de índice como os que rastreiam o S&P 500, a dinâmica de risco é clara: se a Intel ou a SpaceX não performarem, a Nvidia leva o golpe duas vezes — como fornecedora de chips cujo faturamento encolhe e como investidora cujo patrimônio desaba. Huang transformou a Nvidia de fornecedora unilateral em stakeholder financeiro de seus maiores clientes, dobrando a exposição à infraestrutura de IA sem anunciar publicamente essa mudança estrutural. No total, a Nvidia tem cerca de US$ 50 bilhões concentrados em duas empresas que dependem dela para processamento e que, ao mesmo tempo, são acionistas indiretos do próprio ecossistema Nvidia. A pergunta que resta é se Jensen Huang calculou com precisão o risco dessa teia ou se está apostando que o crescimento exponencial do ecossistema de IA tornará qualquer oscilação passageira.
Fontes: CNBC, Fortune, TechTimes
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