OpenAI consegue apenas US$ 11 bi de US$ 30 bi-alvo — valuation cai para US$ 1,25 trilhão
Na última sexta-feira, 30 de outubro, OpenAI atingiu um marco que poucos esperavam ver numa empresa avaliada em mais de um trilhão de dólares: cortou o alvo de sua rodada de financiamento em dois terços e aceitou uma desvalorização de US$ 150 bilhões em apenas onze dias. O que começou como uma corrida para antecipar o IPO da concorrente Anthropic terminou como um exercício de realismo de mercado.
De acordo com a Wall Street Journal, a empresa obteve compromissos de aproximadamente US$ 11 bilhões — menos de metade do alvo inicial de US$ 30 bilhões anunciado em 19 de outubro. A Financial Times, em reportagem paralela, confirmou que o alvo foi reduzido para cerca de US$ 20 bilhões, com valuation de US$ 1,25 trilhão, abaixo dos US$ 1,4 trilhão que a empresa havia apresentado aos investidores no início do mês.
Mas o número mais revelador não é o corte na valuation. É a expectativa de que o first close — a primeira parcela de capital comprometido — venha ainda abaixo de US$ 20 bilhões. Alguns investidores já haviam reduzido suas alocações antes do deadline, segundo pessoas com conhecimento do processo.
O que aconteceu nos últimos onze dias
Em 6 de outubro, o Nasdaq 100 atingiu um recorde histórico. Desde então, caiu 7,8%, com uma queda adicional de 2,9% na própria sexta-feira 30. Big Tech foi punida pelos mercados por suas projeções de capex em IA: Meta atualizou suas estimativas para US$ 135-145 bilhões em gastos em 2026, e suas ações despencaram 6,98% em um único dia.
OpenAI entrou nessa tempestade exatamente quando os investidores institucionais começaram a questionar a matemática por trás de US$ 740 bilhões combinados em capex de Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft. Não era só nervosismo de mercado — era uma reavaliação estrutural do retorno sobre investimentos em infraestrutura de IA.
Em 19 de outubro, a Reuters noticiou que OpenAI buscava US$ 30 bilhões a valuation de US$ 1,4 trilhão. Em 30 de outubro, a FT reportou o corte. Onze dias. US$ 150 bilhões evaporados na proposta.
A resistência dos investidores
O corte de valuation não foi apenas uma reação ao Nasdaq. Segundo a WSJ e a FT, os investidores rejeitaram abertamente o prêmio de US$ 548 bilhões que OpenAI tentava cobrar sobre a oferta de tender de agosto (US$ 852 bilhões). Quando executivos da empresa abordaram BlackRock e o fundo estatal dos Emirados Árabes MGX no início de outubro com um preço fixo de US$ 1,4 trilhão, o mercado institucional disse não.
Esse é o primeiro caso documentado em que a OpenAI foi forçada a negociar sua valuation para baixo durante uma campanha ativa de fundraising. Em uma empresa que construiu sua narrativa em escassez artificial e demanda ilimitada, admitir internamente que o preço estava errado é um dado incomum.
A questão fundamental é que os investidores estão indigestos com mega-rounds encadeados. OpenAI já recebeu US$ 64,6 bilhões do SoftBank em três tranches (concluídas em 1º de outubro). A rodada atual seria uma quarta injeção massiva de capital — e os mesmos fundos eram supostamente chamados a contribuir com uma fatia significativamente maior.
Anthropic: o fator competitivo
A pressa original de OpenAI tinha uma razão clara: Anthropic espera fazer seu IPO em meados de novembro, com estimativas de valuation entre US$ 1,5 trilhão e US$ 2 trilhão. Anthropic reportou receita de H1 2026 de US$ 16,3 bilhões e perdeu US$ 80,7 bilhões — números que, apesar das perdas, sinalizam uma empresa em fase de crescimento acelerado com caminho claro para o mercado público.
OpenAI precisa fechar sua rodada antes que Anthropic comece a negociar no Nasdaq, porque os dois laboratórios disputam o mesmo pool de capital. Se Anthropic listar a US$ 1,5 trilhão, a valuation de US$ 1,25 trilhão da OpenAI será lida não como desconto, mas como confirmação de que há um teto para a valorização de empresas de IA no cenário atual.
Já o Financial Times reportou que investidores do Anthropic argumentam por uma valuation mais próxima de US$ 1,5 trilhão em vez dos US$ 2 trilhão desejados, citando resultados do terceiro trimestre. OpenAI, ao se ajustar para US$ 1,25 trilhão, acaba fornecendo a esses céticos um comparável externo.
O que o primeiro close diz ao mercado
Um first close abaixo do alvo não significa que a rodada falhou. Empresas usam essa estratégia para mostrar momentum, ancorar investidores e dar a fundos hesitantes um prazo. Feches posteriores podem adicionar capital nos mesmos termos ou em condições ajustadas.
Mas um primeiro close significativamente inferior ao anunciado — e uma redução de 33% no alvo original — sinaliza algo que o mercado financia na próxima rodada: a percepção de que a demanda real é menor que a demanda declarada. E isso tem implicações diretas para a própria timeline de IPO da OpenAI, que a CFO Sarah Friar confirmou estar planejada para 2027.
A questão que fica
Se uma empresa como a OpenAI, com receita crescendo rapidamente e produtos usados por milhões diariamente, precisa reduzir seu alvo de fundraising em dois terços em apenas duas semanas, o que isso diz sobre o teto de valuation para toda a indústria de IA? Quando os maiores laboratórios do setor começam a encontrar resistência de investidores — e os mercados públicos punem os maiores compradores de infraestrutura de IA — o sinal não é de que a tecnologia está errada. É de que a matemática do retorno, em escala, ainda não se fecha. A pergunta que fica: quando Anthropic listar em novembro, o mercado vai premiar US$ 1,5 trilhão ou vai exigir prova de que o dinheiro gasto gerou o retorno esperado?
Fontes: Wall Street Journal, CoinDesk, Shattered.io
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