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Warhound recebe US$ 200 milhões para criar cães de guerra geneticamente modificados

Warhound recebe US$ 200 milhões para criar cães de guerra geneticamente modificados

Uma joint venture entre a Colossal Biosciences, famosa pelos seus projetos de desextinção de mamutes-lácteos e lobos-dire, e a Anduril, gigante de tecnologias de defesa, acaba de emergir do anonimato com um ambicioso e controverso plano: gerar, clonar e aprimorar geneticamente uma nova geração de cães militares para as Forças Armadas dos Estados Unidos.

A startup chamada Warhound, anunciada em 22 de outubro de 2026, já levantou US$ 200 milhões em financiamento inicial — incluindo investimentos da Sequoia Capital, do 8VC, do Corner Ventures e da In-Q-Tel, braço de capital de risco da CIA. A rodada valuou a empresa em US$ 1,2 bilhão.

O problema que nenhum drone resolve

A premissa da Warhound é simples, mas não por isso menos urgente. Desde 1942, quando o Exército dos EUA criou o K-9 Corps, os cães de trabalho militar desempenham um papel insubstituível em missões de detecção de bombas, buscas e resgate, reconhecimento tático e proteção de patrulhas. Segundo dados da própria empresa, o programa atual conta com mais de 2.200 equipes de cães e seus manipuladores, mas depende de forma esmagadora — mais de 80% — de fornecedores europeus, principalmente da Holanda, Alemanha e França.

O problema é que o fornecimento europeu está a secar. A reprodução de cães de trabalho de elite, como o pastor belga Malinois e o pastor alemão, enfrenta problemas crônicos: displasia de quadril, predisposição a certos tipos de câncer, perda de visão prematura e uma taxa de abandono no treinamento de até 55%. Metade dos cães que chegam aos Estados Unidos a partir da Europa são considerados inadequados para o serviço depois de três anos de aquisição e treinamento. Pelo menos alguns dos que falham são sacrificados.

«Nós sabemos muito sobre genética canina», disse Ben Lamm, CEO da Colossal Biosciences, à Fortune. «Os humanos criaram cães por traços durante séculos, às vezes introduzindo mutações positivas e às vezes negativas. Podemos ir e remover as mutações que causam atrofia muscular ou displasia de quadril, ou melhorar os genes para agilidade ou até longevidade.»

A estratégia: biobanco, edição e clonagem

O plano da Warhound divide-se em três etapas. Primeiro, a empresa já coletou amostras de sangue de cães de alto desempenho — da polícia militar, forças de resposta de emergência e unidades de busca —, predominantemente Malinois belgas, alguns labradores e pastores. Essas linhagens celulares foram armazenadas em um biobanco.

A segunda etapa já começou. Cientistas da Colossal estão a editar os genes dessas linhagens, removendo as mutações associadas a doenças comuns e adicionando características que melhoram a saúde, a velocidade, a agilidade e, num futuro próximo, até a capacidade olfativa. Lamm mencionou à TechCrunch a possibilidade de incorporar genes de receptores olfativos de lobos, num eco direto do projeto de desextinção do lobo-dire da Colossal.

A terceira etapa é a clonagem. A Viagen, outra empresa do grupo Colossal, será a parceira na clonagem dos cães editados. As primeiras ninhadas devem nascer no início de 2027. O objetivo é que os cães já estejam em serviço dentro de dois anos.

A Anduril e o hardware: não são ciborgues

O lado tecnológico do projeto fica a cargo da Anduril, a empresa de defesa fundada por Palmer Luckey — o mesmo criador do Oculus Rift que, em 2024, levou a Anduril a um contrato de IA com a OpenAI para o Pentágono. A Warhound não planeja criar ciborgues. A ideia é equipar os cães com «armas cibernéticas avançadas»: coletes blindados com sensores que transmitem dados aos manipuladores, óculos de proteção para os olhos e ouvidos, e sistemas de consciência do campo de batalha integrados ao Eagle Eye, o capacete de realidade mista da Anduril.

«Se tornamos o cão mais seguro, mais saudável e melhor preparado para executar, ele vai desempenhar melhor em serviço ativo», explicou Lamm à TechCrunch. «As adições da Anduril tornam os cães mais seguros e saudáveis para além da genética — acima do cão, não dentro do cão.»

A parceria é simétrica: a Colossal detém equity na Warhound e licencia a tecnologia genética, enquanto a Anduril fornece o hardware. Luckey é sócio, mas não tem participação acionária na startup. O CEO é David Spirk, ex-Fuzileiro Naval, ex-chefe de dados do Pentágono e mais recentemente engenheiro na Palantir.

O peso ético e geopolítico

A Warhound opera sob orientação da American Humane Society, que vai ajudar a certificar o programa de treinamento — um detalhe que a empresa destaca repetidamente para garantir que os padrões de bem-estar animal sejam mantidos. Mas a própria ideia de «engenharia genética aplicada a cães militares» levanta questões que vão além do bem-estar animal: quem decide quais características são «melhoradas»? Como será o controle de exportação desses animais geneticamente modificados? E que impacto terá nas forças de segurança de países que não podem competir com um orçamento de US$ 200 milhões?

Lamm enfatizou que o objetivo é reconstruir o fornecimento doméstico dos Estados Unidos, não criar armas vivas. «A ideia é que, se fazemos o cão mais saudável e melhor, ele vai sobreviver melhor ao treinamento e ao serviço», disse. «Isso pode ser transformador para garantir que os cães passem pelo treinamento.»

O cenário geopolítico também conta. Com a China a expandir rapidamente o seu próprio programa de tecnologias de defesa e os aliados europeus a enfrentar escassez de reprodução de cães de trabalho, a corrida por suprimentos domésticos de cães militares pode tornar-se num novo teatro de competição tecnológica — não por satélites ou mísseis, mas por genomas.

O primeiro lote de cães editados e clonados deve nascer em janeiro de 2027. Se tudo correr como previsto, os primeiros «warhounds» estarão a patrulhar bases militares dos EUA em 2028. O que acontece quando o melhor amigo do soldado é melhorado pela ciência para além do que a natureza — ou a seleção natural — poderia alcançar é algo que o mundo ainda não aprendeu a perguntar.

Fontes: TechCrunch, Semafor, Fortune

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