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A estrutura de poder de Anthropic: como sete fundadores controlam uma empresa de US$ 1,5 trilhão

Uma empresa pública, controlada por sete pessoas

Quando a Anthropic apresentou seu S-1 na semana passada, o mundo viu números de tirar o fôlego: US$ 16,3 bilhões de receita no primeiro semestre, uma curva de crescimento que levou investidores a cotar a empresa em até US$ 2 trilhões. Mas o que passou despercebido sob os holofotes foi a arquitetura de governança que transforma a Anthropic em algo radicalmente diferente de qualquer empresa de tecnologia pública — e talvez em algo ainda mais preocupante para quem acredita no capitalismo de mercado.

A empresa criou não uma, mas cinco classes de ações. A classe A, com até 300 bilhões de ações, será negociada ao público. A classe E, com até 30 bilhões, tem direitos econômicos mínimos. A classe N, com até 100 bilhões, não tem direitos de voto. A classe T, uma única ação, controla a eleição do conselho de administração. E a classe F — a mais extraordinária de todas — é uma ação única, sem nenhum direito econômico, que detém 50,1% do poder de voto total em todas as deliberações ordinárias dos acionistas. Essa ação é detida por um LLC formado pelos sete co-fundadores.

O que isso significa na prática

Para se ter uma ideia: cada um dos sete co-fundadores detém cerca de 2% das ações econômicas da empresa — e já prometeu doar 80% de sua riqueza. Mas o LLC do Founder, controlado pela maioria dos sete, toma decisões em 50,1% das votações corporativas. Ou seja: sete engenheiros de IA podem aprovar ou rejeitar qualquer proposta de fusão, qualquer oferta de aquisições, qualquer tentativa de troca no conselho — mesmo que detenham uma fração ínfima do capital econômico. E isso vale enquanto pelo menos três dos sete fundadores mantiverem uma participação mínima.

Quando apenas dois ou menos fundadores (ou seus sucessores) permanecerem, a classe F começará um processo de extinção gradual.

Inspirado em Palantir, copiado de Zuckerberg e Musk

A estrutura não é original — mas é a mais extrema já vista em uma empresa de IA.

A classe F é modelada na estrutura dual-class do Palantir, onde Alex Karp e Peter Thiel mantêm controle desproporcional. É inspirada nas ações com voto multiplicado do Meta (Zuckerberg tem mais de 60% dos votos). E ecoa a classe de ações da Tesla/Musk, onde o CEO detém uma fatia massiva de poder de decisão independentemente da participação acionária.

Mas o que diferencia a Anthropic é o modelo coletivo. Nenhuma outra empresa de escala comparable entregou 50,1% dos votos para um conselho de fundadores. Nas outras, é um ou dois indivíduos. Na Anthropic, é um comitê de sete pessoas — o que dificulta ainda mais qualquer tentativa de contestação externa, pois seria necessário convencer todos os sete, não apenas um CEO.

A contradição central

A Anthropic se posicionou ao longo de sua história como o labor de IA mais consciente em relação à segurança. No próprio S-1, a empresa advertiu sobre "riscos catastróficos ou existenciais à humanidade". Mas o que a estrutura de governança revela é que a própria ideia de "controle responsável" está concentrada em mãos que não precisam prestar contas a ninguém — nem mesmo acionistas que pagaram bilhões pelas ações.

A empresa reconheceu explicitamente, em sua documentação de governança, que essa estrutura pode levar a "decisões que podem conflitar com os interesses financeiros de curto, médio ou longo prazo e o desempenho do negócio". Ou seja: os sete fundadores podem fazer escolhas que custem dinheiro — e os acionistas terão que engolir.

O que isso significa para o setor de IA

A rival da Anthropic, a OpenAI, também busca uma estrutura de controle fundador — mas ainda está em fase de captação privada. Se a Anthropic listar em novembro com sucesso, a OpenAI terá pressão para adotar estruturas semelhantes. E se a OpenAI fizer o mesmo, estaremos diante de um cenário em que os dois maiores laboratórios de IA do mundo são efetivamente empresas controladas por comitês de fundadores que não prestam contas a acionistas.

É o fim do capitalismo de mercado para o setor de IA — pelo menos nos níveis mais altos. E a pergunta que fica não é se essa estrutura é boa ou má, mas se o setor de inteligência artificial já está tão concentrado que a democracia corporativa virou um detalhe irrelevante.

Fontes: The Verge, Fortune, CNBC

✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação