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Netflix admite que crescimento desacelerou: dentro da letra aos acionistas, a empresa reconhece preocupações com horas de exibição

Netflix admite que crescimento desacelerou: dentro da letra aos acionistas, a empresa reconhece preocupações com horas de exibição

A Netflix apresentou na terça-feira, 20 de outubro, seus resultados do terceiro trimestre de 2026 — e o que parecia ser uma boa notícia financeira se transformou em mais uma fonte de preocupação para os investidores. A empresa reportou receita de US$ 12,87 bilhões e lucro líquido de US$ 3,664 bilhões, superando as expectativas do Wall Street de US$ 12,87 bilhões de receita e US$ 0,82 de lucro por ação diluída. O lucro por ação ficou em US$ 0,87, uma margem de lucro operacional de 34,6% (bem acima dos 33,2% projetados pela própria empresa) e fluxo de caixa livre de US$ 2,884 bilhões. Todos os números são, isoladamente, sólidos.

O problema, porém, não está no trimestre que acabou de fechar — está na direção em que a empresa está caminhando.

"Samos que há alguma preocupação dos investidores"

Em um movimento incomum de transparência, a Netflix incluiu em sua carta aos acionistas um parágrafo que quase não se vê em comunicados de empresas de tecnologia: reconheceu explicitamente que o crescimento das horas de exibição dos usuários tem desacelerado e que isso preocupa o mercado.

"Samos que há alguma preocupação dos investidores sobre nosso crescimento em horas de exibição", escreveu a empresa na carta, adicionando que a "engajamento — que engloba quantidade, qualidade e variedade de exibição — permanece saudável". A frase foi suficiente para fazer a ação da Netflix cair 5% em negociações pós-mercado e continuar caindo, alcançando um novo mínimo de 52 semanas (e além) em US$ 64,72, cerca de 52% abaixo do pico histórico de US$ 134,12 registrado em junho de 2025.

Co-CEO Ted Sarantos, falando em setembro no Conferência Bloomberg Screentime em Los Angeles, foi ainda mais direto: "Em geral, não estamos crescendo tão rápido quanto eu gostaria". Ele reconheceu que alguns dos investimentos atuais estão criando headwinds de curto prazo para as métricas de crescimento.

A desaceleração é real e crescente

Os números contam uma história clara de desaceleração constante. O crescimento de receita foi de 16,2% no primeiro trimestre, 13,4% no segundo e 11,8% no terceiro. A projeção para o quarto trimestre implica crescimento adicional de 11,5%, continuando a tendência descendente. A previsão anual de receita agora é de US$ 51,1 bilhões, abaixo da média da faixa anterior de US$ 51-51,4 bilhões e abaixo das expectativas do Wall Street de US$ 51,2 bilhões.

O que torna esse quadro especialmente preocupante é que a desaceleração ocorre em um momento em que a Netflix enfrenta uma competição cada vez mais feroz no mercado de streaming. Plataformas como Disney+, Amazon Prime Video e, principalmente, o YouTube (que consome tempo de tela significativamente maior) estão competindo diretamente pelo tempo de entretenimento dos consumidores. De acordo com relatórios da Nielsen, o streaming representa 40% do tempo total de TV nos EUA hoje, e Netflix e YouTube são os líderes claros em entretenimento direto ao consumidor.

O desafio do advertising

Uma das principais estratégias da Netflix para o futuro depende do crescimento do negócio de publicidades. O tier de publicidades da empresa deveria gerar cerca de US$ 3 bilhões em receita em 2026 — mas a empresa reduziu essa previsão em 10%, agora projetando cerca de US$ 2,7 bilhões. A Netflix atribuiu a redução a um "desdobramento ligeiramente mais lento do que o esperado de algumas capacidades de produto de publicidade".

Essa redução na previsão de publicidades é particularmente significativa porque o negócio de publicidades faz parte do plano da Netflix para ampliar sua base de receitas além das assinaturas tradicionais. Se as capacidades de produto de publicidade estão atrasando, isso significa que a estratégia de diversificação financeira da empresa está enfrentando obstáculos que a própria empresa não havia antecipado.

Live programming: investimento de alto risco

A Netflix está gastando aproximadamente 5% de seu orçamente de conteudo anual de US$ 20 bilhões em programação ao vivo, embora esse conteúdo represente apenas cerca de 1% das horas totais de exibição. Co-CEO Ted Sarantos defendeu o investimento, argumentando que eventos ao vivo geram muitos cadastros de novos assinantes e ajudam a reduzir o cancelamento de assinaturas. Mas a eficiência dessa estratégia é questionável: se eventos ao vivo geram apenas 1% de visualizações, qual é o retorno real desse investimento massivo?

A própria empresa reconheceu que as atualizações de preço de 2026 impactaram negativamente o engajamento. Em seu relatório "O Que Assistimos", a Netflix revelou que os membros assistiram mais de 97 bilhões de horas no primeiro semestre de 2026, um aumento de 2% sobre o primeiro semestre de 2025 — uma melhora modesta sobre o crescimento de 1,5% no mesmo período de 2025.

A demissão como sinal de crise

A Netflix também anunciou cortes significativos em sua estrutura. A empresa cortou cerca de 6% de sua força de trabalho, ou aproximadamente 1.000 empregos, e demitiu membros chave de sua liderança de conteúdo, incluindo Dan Lin, chefe de filmes, e Doug Belgrad, seu vice-senior. A empresa também demitiu Carolina Garcia, diretora de séries originais.

Esses cortes são o sinal mais claro de que a Netflix reconhece que precisa ajustar drasticamente sua estratégia de conteúdo e operações. Segundo a empresa, os cortes terão um impacto negativo de cerca de 120 pontos-base na margem operacional do quarto trimestre — um custo financeiro significativo para reorganizar uma empresa que já está lutando para crescer.

O que observar nos próximos meses

A pergunta central é se a Netflix conseguirá converter seus investimentos em programação ao vivo, conteúdo original e tecnologia em crescimento de assinantes e retenção suficientemente forte para justificar o gasto. A empresa está tentando acelerar seu crescimento através de três frentes: valor de entretenimento, tecnologia e monetização — mas cada uma dessas frentes enfrenta desafios.

Em mercados emergentes como a Índia, onde as horas de exibição cresceram 24% no trimestre, a Netflix encontra um modelo que poderia ser reproduzido em outros mercados: conteudo atraente, mais exibição, mais membros e receita maior. Mas um único mercado de sucesso não resolve o desafio global, especialmente nos EUA, onde a concorrência é mais feroz.

O que a Netflix precisa provar nos próximos trimestres é que consegue manter seus investimentos em conteúdo e tecnologia sem sacrificar sua lucratividade — e que o crescimento das horas de exibição não continua desacelerando. Até lá, a ação da Netflix continuará sendo um reflexo das incertezas de uma empresa que está lutando para manter o momentum que a tornou tão dominante nos últimos anos.

Fontes: The Verge, CNBC, IndMoney

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