Comcast (que opera a Xfinity) perdeu 144 mil assinantes de banda larga residencial no terceiro trimestre de 2026, um resultado pior do que as 91 mil perdas registradas no mesmo período de 2025 — e bem acima das estimativas dos analistas, que projetavam perdas de 116,8 mil. A receita do segmento residencial de conexão caiu 4,7% em relação ao ano anterior, totalizando 29,3 bilhões de dólares para o trimestre. Em meio a esse cenário, o CFO Jason Armstrong chamou de "preços irracionais" as tarifas de 30 a 40 dólares por mês para planos de 1 gigabit oferecidas por operadoras de fibra, argumentando que nenhum modelo de negócio sustentável justifica esse preço quando o custo de instalar fibra em uma residência é "potencialmente milhares de dólares".
O que torna essa notícia mais do que um simples relatório de ganhos trimestrais é a revelação de que a Comcast está planejando cortes significativos de pessoal como parte de uma reestruturação de seus negócios de TV a cabo, banda larga e wireless. A empresa terminou o trimestre com 28,3 milhões de assinantes de banda larga residencial — o maior número absoluto na história da empresa, mas o crescimento já não é mais o de antes. A queda de 144 mil assinantes representa um desvio estrutural no mercado de internet residencial dos EUA, e a própria Comcast admite que o cenário de competição deve permanecer "intenso".
O que os números escondem
Por trás do número brutal de perdas — 144 mil assinantes em um único trimestre — há um processo de mudança tecnológica que já vinha se arrastando há anos. O DOCSIS 3.1, protocolo que a Comcast usa para entregar internet via cabo coaxial, tem limitações fundamentais: uploads são limitados a uma fração da capacidade de download. Um plano de 1,2 gigabits da Xfinity, por exemplo, oferece uploads de apenas 35 megabits. Competidores de fibra, por outro lado, oferecem velocidades simétricas de 1 gigabit, tanto para upload quanto para download.
Esse gap tecnológico se traduz em uma vantagem competitiva estrutural para a fibra: não se trata apenas de preço, mas de performance real. A Comcast já removeu seus limites de dados e ofereceu garantias de preço de cinco anos a partir de 45 dólares por mês para reter assinantes, mas mesmo assim não consegue frear a perda. No primeiro trimestre de 2026, a empresa já havia perdido 65 mil assinantes; no segundo, 167 mil. O terceiro trimestre trouxe o pior resultado em um único período desde que o tracking foi iniciado em 2022.
A estratégia de Armstrong: culpar os concorrentes
A abordagem do CFO da Comcast foi direta e, em tom de frustração, quase pessoal. Em um evento do Goldman Sachs no mês de setembro, Armstrong não apenas criticou os preços baixos dos concorrentes, mas também alertou para uma ameaça emergente que muitos analistas estavam começando a notar: a internet via satélite. Armstrong disse que "a satélite surge como uma ameaça potencial". Ele admitiu que ainda não estão vendo esse efeito, mas não há complacência.
A referência era óbvia: o Starlink, da SpaceX, que já conta com mais de 9 milhões de assinantes globais e se consolidou como alternativa viável em mercados rurais e suburbanos. Para a Comcast, que historicamente operava com pouca ou nenhuma competição em muitas de suas áreas de cobertura, o surgimento de três frentes concorrenciais simultâneas — fibra, FWA (fixed wireless access) e satélite — representa uma transformação radical na dinâmica do mercado.
Armstrong também mencionou que a expansão de fibra em sua área de cobertura acelerou de 2 a 3% ao ano para 4 a 5%, duplicando quase a taxa de overbuild. Ele disse que "fibra é o competidor de longo prazo", sem rodeios. O que ele não disse explicitamente, mas os dados falam por si: em mercados onde a fibra chegou, as perdas da Comcast são exponencialmente maiores do que em mercados onde ainda não.
O que é "racional"?
A crítica de Armstrong aos concorrentes levanta uma questão quase filosófica: o que é um preço "racional" para um serviço essencial como internet? Para a Comcast, cobrar 50 dólares por mês por 1 gigabit via HFC é racional; cobrar 30 a 40 dólares por fibra simétrica é "desprezível". A diferença não está apenas no preço — está no modelo de negócios.
Operadoras de fibra novas entraram em mercados da Comcast com estratégias agressivas de penetração: preços iniciais baixos, instalação gratuita, contratos flexíveis. O objetivo não é lucrar nos primeiros meses, mas garantir acesso à residência para, eventualmente, aumentar os preços conforme a base de clientes se estabiliza. É o mesmo modelo que as operadoras de cabo usaram nos anos 2000 para conquistar mercado das telefônicas — só que agora o papel foi invertido.
Analistas da TD Cowen, liderados por Gregory Williams, classificaram as declarações de Armstrong como "comentário bearish" e previram que as perdas de assinantes de banda larga poderiam atingir níveis recorde no Q3. A ação da Comcast caiu de 26 para 25 dólares logo após as declarações — um movimento pequeno, mas sintomático de que os investidores estão preocupados não apenas com o trimestre atual, mas com o futuro estrutural do negócio de banda larga da empresa.
A reestruturação silenciosa
Enquanto a Comcast perde assinantes de banda larga, o que muitos chamam de "a maior reviraventa do setor" está acontecendo nos bastidores: a empresa anunciou que vai se dividir em duas companhias em meados de 2027, separando seus ativos de mídia e entretenimento (NBCUniversal e Sky) de seu negócio central de banda larga, wireless e TV a cabo. Michael Angelakis retornará como CEO do segmento retornado, que inclui broadband, wireless e Xfinity TV, enquanto a parte de mídia será liderada por Mike Cavanagh.
Os cortes de pessoal planejados atingirão principalmente o segmento de TV a cabo, mas é provável que a banda larga também sinta os efeitos. A Comcast já está expandindo o uso de agentes de IA para atendimento ao cliente — uma forma de reduzir o custo operacional enquanto a base de clientes encolhe. É o paradoxo de uma empresa que tem o maior número de assinantes de banda larga residencial dos EUA, mas que, paradoxalmente, nunca esteve tão perto de perder sua posição dominante no setor.
E quando a fibra finalmente atingir 20% ou mais da base de residências servidas pela Comcast nos EUA, o que sobra do argumento de que "fio vence"? A tendência sugere que o monopólio natural que alimentou a riqueza da Comcast por duas décadas está se dissolvendo sob pressões que não são cíclicas, mas estruturais. A internet é o novo petróleo — e os oleodutos estão se multiplicando.
Fontes: Ars Technica, Bloomberg, Fierce Network
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