A DoorDash anunciou nesta quinta-feira, 29 de outubro, que firmou um acordo definitivo para adquirir o Instacart — operatorado pela Maplebear — por US$ 17 bilhões. Cada ação do Instacart será comprada por US$ 65, com pelo menos 75% do pagamento em dinheiro, podendo os acionistas escolher entre dinheiro, ações da DoorDash ou uma combinação dos dois, sujeita a proration para que as ações da adquirente não ultrapassem 25% do valor total da operação. O conselho de diretores de ambas as empresas já aprovou a transação, que deve ser concluída no final de 2027 ou no primeiro semestre de 2028, sujeita a aprovação regulatória e condições de fechamento de praxe.
O anúncio encerra um processo de negociação que começou a ser mapeado publicamente na semana passada, quando a Bloomberg — e depois a Reuters e o Wall Street Journal — reportaram que a DoorDash estava em conversas avançadas para comprar o Instacart. Antes disso, a própria Instacart havia realizado rodadas de conversa com a Uber e a DoorDash; o WalkAway da Uber em 23 de outubro já indicava que a DoorDash era a opção mais provável. O que mudou? A DoorDash fez uma oferta definitiva, não apenas um term sheet.
Para entender o tamanho da operação, é útil olhar para os dois negócios. O Instacart opera a plataforma de grocery delivery mais ampla dos Estados Unidos, com partnerships que vão desde supermercados regionais até as grandes redes como Albertsons, Kroger e Walmart. Segundo dados da própria empresa, mais de 250.000 estabelecimentos comerciais utilizam suas ferramentas de tecnologia de grocery online. A DoorDash, por sua vez, é a maior plataforma de delivery de restaurantes do país, com mais de 250.000 parceiros em restaurantes e uma rede logística que cobre praticamente todo o território americano.
A combinação das duas plataformas cria o maior operador de delivery on-demand do país — e talvez um dos maiores do mundo em volume de transações. A DoorDash passa a controlar, de forma indireta, a maior fatia do mercado de grocery delivery nos Estados Unidos. Só para contextualizar, o grocery delivery nos EUA faturou mais de US$ 50 bilhões em 2025, segundo projeções da Statista, e deve continuar crescendo a dois dígitos nos próximos anos.
A estratégia de fusão faz sentido sob a ótica da DoorDash. A empresa tem investido pesado em fulfillment para seus próprios parceiros de delivery — o DoorDash Storefront, que permite que restaurantes e lojas operem suas próprias plataformas de pedido online com a tecnologia de logística da DoorDash nos bastidores. Com o Instacart, a empresa ganha não apenas a base de consumidores, mas toda a stack de tecnologia de grocery que já vende como SaaS para retailers. O anúncio oficial da DoorDash enfatizou exatamente esse ponto: "podemos criar novas oportunidades para nossos parceiros de varejo e marcas", disse a empresa no release.
Para os retailers, a consolidação é uma faca de dois gumes. Por um lado, ter acesso à tecnologia de grocery do Instacart combinada com a logística de última milha da DoorDash pode reduzir custos operacionais significativamente — especialmente para pequenos e médios varejistas que não têm infraestrutura própria de delivery. Por outro, a concentração de poder em uma única empresa gera preocupações antitruste legítimas. O Instacart, sozinho, já era considerado um dos dois players dominantes no grocery delivery, competindo diretamente com o Walmart e o Target em escala. Com a DoorDash, a empresa terá controle sobre uma fração ainda maior do mercado.
O preço de US$ 17 bilhões reflete o valor de crescimento do Instacart, não necessariamente sua rentabilidade atual. A empresa ainda opera com margens apertadas no grocery delivery — um modelo historicamente difícil, onde o custo de adquirir, selecionar e entregar produtos perecíveis em janelas de tempo curtas dilui toda a margem. A DoorDash provavelmente espera que a integração com sua rede de delivery de restaurantes gere economias de escala em logística, tecnologia e aquisição de consumidores que tornem o grocery delivery finalmente lucrativo em escala.
A decisão de manter o Instacart como marca separada — operando de forma independente até o fechamento — é estratégica. Brand dilution é um risco real em operações desse tamanho: consumidores que usam Instacart para grocery não querem ver a marca substituída por DoorDash da noite para o dia. A DoorDash já fez isso com outros negócios (a WeWork, o Wolt na Europa) sem destruir o valor de marca.
Do ponto de vista regulatório, a operação será objeto de escrutínio antitruste nos EUA e possivelmente na Europa. O Departamento de Justiça americano e a FTC terão que aprovar a operação sob o Hart-Scott-Rodino Act, e a Comissão Europeia pode abrir investigação sob o regulamento de concentrações da UE. O prazo de review nos EUA pode levar de 6 a 18 meses, o que explica a janela de fechamento prevista para o final de 2027 ou início de 2028.
O que a DoorDash ganha com isso vai além do delivery. Com Instacart e DoorDash sob um mesmo teto, a empresa tem acesso a dados de compras de grocery — o que significa padrões de consumo, frequência de compra, preferências sazonais — dados que podem ser monetizados em publicidade, credit cards, serviços financeiros e, potencialmente, em modelos de IA que preveem demanda local em tempo real. É o mesmo tipo de estratégia que Amazon e Alphabet já usam há anos: acumular dados de consumo para criar ecossistemas de alta retenção.
A pergunta que fica é: ao consolidar o delivery em um superapp, a DoorDash está construindo a infraestrutura definitiva do comércio on-demand ou criando um alvo antitruste tão grande que a regulatoria vai obrigá-la a vender parte do negócio — como aconteceu com a proposta de compra do Instagram pelo Facebook em 2012, quando o FTC tentou sem sucesso impedir a fusão? O tempo dirá se a DoorDash se torna a Amazon do delivery ou se se fragmenta sob pressão regulatória.
Fontes: TechCrunch, Cravath Law, CNBC
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