A fusão de 17 bilhões de dólares anunciada na quarta-feira (29) entre DoorDash e Instacart (propriedade da Maplebear) não é apenas a maior aquisição no setor de delivery já registrada no Estados Unidos — é uma declaração de intenções sobre como o comércio local vai funcionar nos próximos anos. O que começa como um contrato entre dois gigantes listados na NASDAQ se desdobra em uma reconfiguração estrutural do mercado de entregas, com implicações que vão muito além do preço de ação.
Os termos são claros: a DoorDash pagará 65 dólares por ação do Instacart, um prêmio de 26% sobre o fechamento de 22 de outubro, antes de qualquer vazamento de informações ao mercado. O pacote será composto em pelo menos 75% em dinheiro, com os acionistas podendo escolher entre dinheiro, ações da DoorDash ou uma combinação dos dois, com prorrogação para garantir que as ações da adquirente não ultrapassem 25% do montante total. O conselho de administração do Instacart aprovou o acordo por unanimidade, e acionistas controlando cerca de 19% das ações já se comprometeram a votar a favor.
Mas o verdadeiro significado da operação está na arquitetura do mercado. Segundo dados do YipitData de 2025, a DoorDash controlava 65,1% de todas as entregas no país — restaurantes, varejo e grocery juntos. A Uber Eats ficava em segundo lugar, com 25,8%, e o próprio Instacart, com 9,1%. Somar a base de mais de 2.200 banners de varejo e 100 mil lojas do Instacart à rede de delivery da DoorDash criaria uma entidade com um peso competitivo sem precedentes no setor.
A justificativa corporativa é padronizada, mas tem um fundo de verdade. O CEO Tony Xu, da DoorDash, enfatizou que "grocery é uma das coisas mais difíceis de fazer bem online" e que o Instacart "passou anos aprendendo a fazer isso bem para atacadistas", enquanto a DoorDash construiu uma rede de delivery na qual lojas locais confiam diariamente. Chris Rogers, CEO do Instacart, disse que a combinação permitiria "acelerar a inovação em todo o setor de grocery".
Os dados financeiros do segundo trimestre reforçam a lógica estratégica. A DoorDash reportou receita de 4,62 bilhões de dólares no terceiro trimestre, um salto de 34% em relação ao ano anterior. Foram 993 milhões de pedidos processados, com um marketplace gross GMV de 33,94 bilhões de dólares. A empresa bateu recordes trimestrais em receita, GMV e lucro líquido. Com o Instacart, a DoorDash levaria sua base de clientes de refeições para compras semanais de supermercado — o tipo de pedido de alto valor que os investidores adoram e que os entregadores preferem, pois paga melhor por viagem.
A rede de segurança antitruste, no entanto, é exatamente o que os críticos temiam. A Federal Trade Commission já tem um caso ativo contra a Uber por práticas de assinatura e está considerando uma regra para proibir taxas surpresa em serviços de delivery. No ano passado, a FTC investigou a prática do Instacart de rodar experimentos de preço dinâmico que resultavam em consumidores pagando valores diferentes pelos mesmos itens na mesma loja no mesmo momento — uma prática que o Instacart encerrou após críticas do Consumer Reports e do Groundwork Collaborative.
A Comissão de Proteção ao Consumidor e ao Trabalhador de Nova York, que em setembro chegou a um acordo de 131,5 milhões de dólares com a DoorDash por alegações de pagamento insuficiente aos entregadores, emitiu um statement dizendo que "esta proposta de fusão continua uma tendência preocupante de megaconsolidação corporativa". O American Economic Liberties Project, grupo ativista antimonopólio, já está pressionando reguladores a bloquear o acordo, apontando que a entidade combinada controlaria quase 60% do mercado de delivery de grocery via terceiros.
O que ninguém menciona abertamente é o papel da inteligência artificial. Tanto a DoorDash quanto o Instacart estão investindo pesado em assistants de compra por texto, algoritmos de substituição de produtos e otimização de rotas. Juntas, as empresas teriam acesso a um volume de dados de comportamento de compra sem paralelo — exceto talvez nos próprios Walmart, Amazon e Target. E, como a própria página de press release do Instacart reconhece: "os maiores varejistas online estão correndo, construindo suas próprias frotas de delivery, centros de distribuição, programas de membership e assistentes de compra com IA". O argumento, velado, é que só uma fusão desse tamanho permite competir contra os gigantes que já estão fazendo tudo internamente.
O timing da notícia não é casual. A DoorDash divulgou seus resultados do Q3 no mesmo dia da anúncio, mostrando crescimento recorde. A ação subiu mais de 5% na manhã seguinte, enquanto a do Instacart caiu 1,5% — o mercado parece ter digerido o prêmio pago. O fechamento está projetado para o final de 2027 ou primeiro semestre de 2028, sujeito à aprovação acionária, ao período de espera sob o Hart-Scott-Rodino Act e a autorizações internacionais, incluindo Canadá e Israel.
Enquanto isso, 150 mil lojas — atualmente 100 mil no Instacart — ficarão sob um único guarda-chuva tecnológico. Os Dashers e Shoppers terão mais opções de ganho, diz a empresa. Mas a pergunta que fica é se essa consolidação trará mais opções e preços menores para quem abre o app, ou apenas mais poder nas mãos de quem o programa.
Fontes: The New York Times, CNBC, CNN
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