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O ICE amplia a coleta de DNA e o CODIS se aproxima de 27 milhões de perfis

Há uma fronteira sutil entre proteger a segurança pública e transformar o Estado em uma máquina de vigilância. Nos últimos anos, essa fronteira tem se movido silenciosamente nos Estados Unidos, e um dos pontos mais delicados é a coleta de DNA. O que o Departamento de Segurança Interna, o DHS, e o ICE vêm fazendo não é apenas uma operação de aplicação da lei — é a construção de um arquivo genético em escala de dezenas de milhões de pessoas, com consequências que vão muito além de um processo judicial.

Os números são impressionantes. Segundo a Wired, o ICE coletou quase 1 milhão de amostras de DNA no último ano, incluindo de crianças pequenas. Durante uma inspeção em maio de 2026 no Centro de Processamento de Imigração Dilley, no sul do Texas, oficiais da agência disseram ao Congresso que vinham coletando DNA das famílias detidas nos três meses anteriores. O DHS tem ampla autoridade para coletar DNA de pessoas sob custódia, e tem aumentado os esforços de forma consistente. Somando-se a isso, o FBI informou que o governo federal acumulou cerca de 27 milhões de perfis de DNA em vários casos, coletando quase 150 mil perfis por mês — algo em torno de 1,8 milhão por ano.

Para dimensionar, o banco de dados CODIS, o sistema nacional usado para comparar perfis genéticos, passou de cerca de 2 milhões de perfis em 2004 para aproximadamente 14 milhões uma década depois, chegando a cerca de 27 milhões em novembro de 2025. É um crescimento exponencial, alimentado tanto pela expansão das bases estaduais quanto pela nova ênfase federal na imigração. Quando uma base cresce nesse ritmo, ela deixa de ser uma ferramenta de investigação e passa a ser um ativo de vigilância permanente.

O aspecto mais perturbador é quem está sendo capturado. Pessoas presas em protestos contra o próprio ICE tiveram seu DNA coletado — legal, segundo a leitura técnica da lei, mas eticamente questionável. A legislação que permite a coleta de detidos foi pensada, originalmente, para condenados por crimes graves; aplicá-la a manifestantes e a famílias que pedem asilo expande o alcance do sistema para além de qualquer desenho original. Crianças pequenas, que não podem consentir, entram nesse banco de dados por causa de uma detenção administrativa ligada à imigração, e os registros, uma vez criados, raramente são apagados.

A discussão aqui não é sobre acabar com a genética forense, que tem um papel legítimo na resolução de crimes graves. A questão é de proporção e de finalidade. Quando a coleta é automática, em massa e aplicada de forma desproporcional a comunidades específicas, ela cria uma vigilância genética de segunda classe: um grupo da população fica permanentemente mapeado, enquanto outros permanecem invisíveis. Isso levanta problemas de privacidade e de direitos digitais que as leis atuais, desenhadas para outra era, mal conseguem endereçar.

A pergunta que fica em aberto é de desenho institucional: como construir um sistema forense que aproveite o DNA para proteger vítimas sem transformar o Estado em um coletor onipresente de informações biológicas? Alguns apontam para a necessidade de limites legais rígidos, prazos de exclusão e controle judicial; outros temem que, uma vez normalizada a coleta em massa, seja quase impossível revertê-la. O futuro do CODIS, e de bancos semelhantes, talvez dependa menos de tecnologia e mais de uma escolha política: se queremos um Estado que guarda o DNA de milhões, e que o fará por décadas, é preciso decidir conscientemente que essa é a sociedade em que queremos viver.

Fontes: Wired, NPR, NPR Illinois

✓ Fontes independentes cruzadas e verificadas antes da publicação