A mobilidade autónoma entra numa nova fronteira. Em 23 de outubro de 2026, a inDrive, a Pony.ai e a Nvidia anunciaram a assinatura de um memorando de entendimento para explorar o lançamento de serviços de transporte autónomo no Cazaquistão, com testes previstos para o primeiro semestre de 2027. A iniciativa marca uma expansão significativa do mercado de robotáxis para a Ásia Central, região até agora pouco explorada pelas tecnologias de condução autónoma.
O projeto prevê a utilização dos veículos Gen-7 da Pony.ai — a sétima geração de robotáxis autónomos da empresa chinesa — integrados na plataforma de ride-hailing da inDrive. A Nvidia prestará suporte técnico através da sua plataforma Hyperion e do sistema de segurança Halos, fornecendo a infraestrutura de computação e sensores necessária para a operação autónoma.
Astana como campo de testes
A capital cazaque, Astana, será a cidade-piloto inicial. Com uma população de aproximadamente 1,7 milhão de habitantes, Astana é uma das capitais em mais rápido crescimento da Ásia Central. A cidade oferece um ambiente promissor para a mobilidade autónoma, combinando infraestruturas urbanas modernas com uma demanda crescente por serviços de transporte. A inDrive opera no Cazaquistão desde 2017, quando o país obteve a independência da União Soviética, e já oferece serviços de entrega de groceries na região, o que significa que a base de utilizadores já está familiarizada com a plataforma.
Os testes começarão com um operador de segurança a bordo, num modelo híbrido que gradualmente eliminará a necessidade de condutor humano à medida que o sistema ganhar confiança. O objetivo final é a operação totalmente autónoma dentro de áreas delimitadas.
A ambiciosa expansão global da Pony.ai
A Pony.ai não está a entrar neste mercado por acaso. A empresa, cotada na NASDAQ (PONY) e na Bolsa de Hong Kong (2026), tem um ambicioso plano de expansão global. O CEO fundador, Dr. James Peng, estabeleceu a meta de operar mais de 3.500 robotáxis em mais de 20 cidades ao redor do mundo até ao final de 2026. Apenas em junho de 2026, a frota contava com 1.975 veículos. Desde novembro de 2025, a Pony.ai já opera comercialmente sem condutor nas cidades chinesas de Guangzhou, Shenzhen e Pequim.
A tecnologia Gen-7 representa um salto significativo em relação às gerações anteriores. O sistema de condução autónoma utiliza componentes 100% automotive-grade, o que permite um ciclo de vida estendido de produção e maior estabilidade. A Pony.ai relatou uma redução de 70% nos custos de componentes autónomos (BOM) em comparação com a geração anterior, incluindo uma diminuição de 80% na computação autónoma necessária e um corte de 68% nos LiDARs de estado sólido. O sistema oferece mais de 20 redundâncias de segurança, capacidade de operação contínua mesmo após falhas únicas e múltiplos modos de condução autónoma.
Porquê o Cazaquistão?
O Cazaquistão emerge como um mercado estratégico por múltiplas razões. Em setembro de 2026, o governo cazaque anunciou planos para lançar serviços de táxi autónomo em 2027, com testes iniciais previstos em Astana e duas outras cidades. O país já estabeleceu um quadro legal estruturado para a condução autónoma e introduziu regras para veículos autónomos circularem em certas vias públicas. Esta preparação regulatória coloca o Cazaquistão à frente de muitos outros mercados emergentes.
Além disso, o Cazaquistão ocupa uma posição geopolítica única como porta de entrada para a Ásia Central. O governo cazaque integra este projeto na sua iniciativa "Year of Digitalization and Artificial Intelligence", demonstrando o compromisso estratégico com a transformação digital da economia.
A estratégia da Nvidia: reduzir custos e complexidade
A participação da Nvidia não é mera simbolismo. Ali Kani, vice-presidente da Nvidia para o setor automóvel, destacou que as poupanças nos custos de desenvolvimento de robotáxis são "particularmente relevantes nos mercados emergentes, onde o ride-hailing já é relativamente acessível e os serviços autónomos precisam de competir em termos de preço". A Hyperion, plataforma de referência da Nvidia para veículos autónomos de nível 4, integra sensores, computação e software num único pacote, reduzindo significativamente o tempo e custo de desenvolvimento.
A Nvidia está a posicionar-se como o facilitador tecnológico que permite que empresas como a inDrive entrem no mercado de robotáxis sem necessidade de construir toda a stack de condução autónoma internamente. Esta abordagem de plataforma é particularmente relevante para empresas de mercados emergentes que precisam de operar com modelos de capital leve.
O contexto da inDrive: mais do que um rival do Uber
A inDrive não é uma startup comum. É a segunda aplicação de ride-hailing mais descarregada globalmente, com mais de 400 milhões de transferências e presença em 48 países, mais de 1.200 cidades. Em 2025, a empresa atingiu um recorde de 7 milhões de corridas num único dia. A inDrive está em expansão para novos mercados, incluindo a Arábia Saudita, onde assinou um acordo separado com autoridades locais em dezembro de 2025 para explorar a mobilidade autónoma.
A empresa também diversificou para além do ride-hailing tradicional. O seu serviço de publicidade, inDrive.Ads, está presente em 25 países e serve mais de 2 bilhões de impressões. A plataforma processou mais de 8 bilhões de corridas no total, criando uma base de utilizadores estruturalmente cativa para novos serviços.
Desafios e projeções
O mercado de robotáxis, até agora dominado por operações nos Estados Unidos (Waymo, Cruise) e na China (Baidu, Pony.ai), está a expandir-se para mercados emergentes. Esta expansão traz desafios únicos: infraestrutura viária variável, condições climáticas extremas, padrões culturais de condução distintos e regimes regulatórios em constante evolução.
A pergunta que fica é se o modelo híbrido de inDrive (plataforma) + Pony.ai (tecnologia autónoma) + Nvidia (infraestrutura) pode servir de blueprint para outras regiões emergentes, ou se este projeto cazaque será um caso isolado. O que se sabe é que o primeiro semestre de 2027 será decisivo para responder a essa questão.
Fontes: Pony.ai Blog, CnEVPost, Kursiv Media, Digital Today, Pony.ai Investor Relations
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